Dois trabalhos recentes publicados na revista Science de 16 de julho revelam que os oceanos foram capazes de absorver metade do gás carbônico emitido pela queima de combustíveis fósseis desde o início da era industrial e, assim, minimizar os efeitos do aquecimento global. Porém, os resultados trazem um alerta: esses sorvedouros naturais de carbono parecem já ter atingido um terço de sua capacidade de absorção. Pior: os oceanos estão se tornando ácidos, e não se sabe ao certo o que isso poderia causar ao ecossistema marinho.

Poucas questões científicas no momento são tão relevantes quanto as esperadas alterações no clima em decorrência das emissões globais de gases de efeito estufa – sendo o principal deles o CO 2 (gás carbônico). As potenciais implicações climáticas para o final deste século relatadas pelo grupo de especialistas internacionais do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) são cruciais para o futuro de nosso planeta.

Agora, dois trabalhos – cujas equipes compilaram milhares de medidas de CO 2 realizadas em cruzeiros oceânicos ao longo de duas décadas – lançam uma luz importante sobre uma questão estratégica que pode influenciar o rumo da estrutura social e econômica em que vivemos.

Como decorrência da queima de combustíveis fósseis – gasolina, diesel, querosene, gás natural, carvão mineral, por exemplo -, as concentrações de CO 2 na atmosfera aumentaram de 280 partes por milhão (ppm), em 1800, para 380 ppm, hoje. Pior: as previsões para o final deste século é que elas possam atingir cerca de 1.000 ppm, valores sem precedentes em nosso planeta nos últimos 400 mil anos.

De 1800 – época que marca o início da era industrial – até 1994, as emissões de carbono resultantes da queima de combustíveis fósseis totalizaram 244 ± 20 bilhões de toneladas – o termo ± 20 indica um erro para mais ou para menos de 20 bilhões. Desse total emitido, sabe-se que, para o mesmo período, 165 ± 4 bilhões de toneladas foram estocados na atmosfera. É fácil notar que a conta não fecha, e essa diferença foi chamada, por algum tempo, ’carbono perdido’ ( missing carbon ).

No entanto, essa parcela está agora sendo encontrada. Artigo publicado por Christopher Sabine, da Agência Nacional de Atmosfera e Oceanos (Estados Unidos), e colegas indica que o carbono perdido foi, na verdade, parcialmente absorvido pelos oceanos, encontrando-se em águas superficiais e totalizando 118 ± 19 bilhões de toneladas.

Em outras palavras: cerca da metade do carbono gerado entre 1800 e 1994 por atividades humanas – o chamado carbono antropogênico – está alocada nos primeiros 500 metros de profundidade das águas oceânicas. Vale ressaltar que, sem essa absorção, as concentrações atmosféricas de CO 2 seriam 55 ppm maiores que os 380 ppm atuais.

Além dos oceanos, outro sorvedouro do carbono antropogênico é a biosfera terrestre, principalmente as florestas, cuja vegetação precisa desse elemento químico, na forma de gás carbônico, para realizar a fotossíntese. No entanto, os cálculos, nesse caso, indicam que houve um balanço entre o que a biosfera absorveu de 1800 a 1994 e as emissões em função do desmatamento e das mudanças de uso da terra.

Assim, ao se fechar a conta, incluindo nelas as emissões antropogênicas, obtemos uma fonte terrestre líquida de carbono de 39 ± 28 bilhões de toneladas de carbono, de 1800 a 1994. Portanto, é esse excesso na emissão atmosférica de carbono que tem que ser reduzido se desejarmos um planeta sadiamente habitável no final deste século.

No caso brasileiro, nossas emissões industriais são modestas no âmbito global, em função de nossa matriz energética, que é relativamente limpa. Entretanto, o controle do desflorestamento da Amazônia é crucial para reduzirmos as emissões brasileiras de CO 2 .

O segundo trabalho – feito por Richard Feely, também da Agência Nacional de Atmosfera e Oceanos, e colegas – lida com a questão da acidificação global oceânica, decorrente do aumento da absorção de carbono atmosférico pelo oceano. Esse processo de acidificação está mudando o estado de saturação em relação ao carbonato de cálcio (CaCO 3 ), que é produzido por algas e corais na superfície oceânica.

Os mecanismos biológicos e químicos são complexos, existem realimentações positivas e negativas, bem como dúvidas importantes na resposta ecológica para uma produção menor de organismos que liberam CaCO 3 em águas profundas. Nesse componente do fluxo oceânico de carbono, a biota (animais mais vegetação) tem um peso fundamental, e as variáveis climáticas como temperatura, radiação e circulação oceânicas são também importantes.

Um ponto importante é que os dois trabalhos apontam para possíveis efeitos de saturação desse sorvedouro oceânico de carbono, com cerca de um terço do potencial de longo termo já utilizado até o momento. A fração de CO 2 absorvida pelos oceanos decresceu de 32% para cerca de 26% no final do século passado.

Na escala temporal de milhares de anos, espera-se que 90% das emissões antropogênicas de CO 2 sejam armazenadas nos oceanos. Estudos baseados em modelos que envolvem a interação entre atmosfera e oceanos indicam que estes últimos podem se tornar absorvedores menos eficientes para o CO 2 antropogênico, mas esses processos ainda não são bem compreendidos.

Esses estudos são críticos para o clima futuro que a humanidade está criando nesta era ’antropocêntrica’. Desde que a humanidade adquiriu a possibilidade de alterar a composição da atmosfera terrestre, observamos uma série de estudos preocupantes nos quais o clima que estamos construindo para o futuro de nosso planeta pode não ser tão adequado quanto o que temos hoje.

A implementação do protocolo de Kyoto – um acordo internacional que define metas para controlar as emissões dos gases que causam o aquecimento global – é um início importantíssimo nesse processo, embora um início ainda bastante tímido e modesto perto das necessidades reais.

Paulo Artaxo
Instituto de Física
Universidade de São Paulo

 

 

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