Por trás do quebra-cabeça do autismo

Especial para Ciência Hoje
Ciência Hoje/RJ

Eles já têm um dia de conscientização, leis de proteção no Brasil e até um símbolo próprio representado por um quebra-cabeça: costumamos nos referir a essas pessoas como autistas, mas o termo correto é ‘portadores do Transtorno do Espectro Autista (TEA)’. Segundo a organização Mundial de Saúde (OMS), há cerca de 70 milhões de pessoas que sofrem desse distúrbio neurológico ao redor do mundo. No Brasil, a estimativa é de 2 milhões.

Apesar do que já se conquistou, ainda há muito por fazer: na escola, no trabalho ou nas ruas, os portadores de TEA são vítimas de preconceitos constantes, cercados de estereótipos e distorções sobre suas manifestações e sintomas. Para serem inseridos e aceitos como iguais na sociedade, pais e familiares lutam diariamente pelos direitos desses indivíduos únicos, muitas vezes dotados de habilidades fascinantes de raciocínio e estética.

Para ampliar nosso conhecimento sobre essa complexa e misteriosa desordem, a Ciência Hoje conversou com o neurocientista e especialista em ciências cognitivas britânico Graham Cocks, do Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociências do King’s College, na Inglaterra, e professor visitante no Instituto de Psiquiatria da Universidade  Federal do Rio de Janeiro. Ele e sua equipe utilizam células-tronco para criar modelos próximos da realidade com o objetivo de compreender melhor o espectro autista.

É claro que é extremamente importante buscar desenvolver terapias para aqueles que buscam alternativas e melhorias no seu cotidiano. Mas é preciso ter cautela e respeitar as diferenças entre as pessoas

Ciência Hoje: O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma doença que se manifesta por meio de um sistema complexo de sintomas. existe uma melhor abordagem para descrever o autismo? 
Graham Cocks: Essa é uma boa pergunta. Acredito que o atual desafio dos psiquiatras é tentar simplificar o diagnóstico clínico do autismo, já que essa desordem estava sendo sub- dividida em muitas partes. Para facilitar esse diagnóstico, reduziu-se a dois o número de sintomas principais: pouca capacidade de interação  social e comportamentos repetitivos e em áreas restritas.

Quais são as razões biológicas do autismo? o que acontece no cérebro de um portador de TEA? 
Ainda não identificamos os mecanismos exatos do cérebro de uma pessoa com autismo. O que já sabemos é que alguns processos biológicos não ocorrem de maneira normal em autistas, como alguns tipos de sinapses [comunicação entre neurônios]. No entanto, relacionar isso a comportamentos específicos dos pacientes é extremamente difícil. Já existem, por exemplo, testes clínicos que associam uma maior presença de substâncias como as oxitocinas, produzidas no cérebro, a essa desordem. No entanto, ainda não há uma explicação concreta em termos neurológicos do que é o autismo.

 

Símbolo autismo
A fita feita de peças de quebra-cabeça coloridas representa o mistério e a complexidade do autismo. (foto: Wikipédia)

 

Algumas pessoas  portadoras do TEA apresentam habilidades extraordinárias em matemática ou artes. Existe algum motivo específico para isso?
Acredito que, em alguns casos, isso ocorra porque o cérebro do autista se concentra, se foca em algo específico, como números e cálculos matemáticos. O próprio comportamento restritivo, que citei antes como sintoma principal, pode influenciar nisso. Conheço um autista que tem uma extraordinária memória fotográfica: quando sobrevoou o centro de Londres pela primeira vez, gravou cada mínimo detalhe do que viu e, ao voltar, desenhou o local exatamente como ele é, sem ter feito qualquer anotação ou ter fotografado nada. Essas habilidades são características que atingem uma minoria privilegiada de autistas com dotes fenomenais.

Sendo assim, como enxerga a necessidade do tratamento do TEA?
Há uma pressão da sociedade para que esses indivíduos atendam a tratamentos. No entanto, às vezes, eles mesmos ou seus familiares simplesmente não encaram o autismo como uma doença, mas sim como a personalidade daquela pessoa. É claro que é extremamente importante buscar desenvolver terapias para aqueles que buscam alternativas e melhorias no seu cotidiano. Mas é preciso ter cautela e respeitar as diferenças entre as pessoas. Como dissemos, eles são especiais e não queremos que sejam como o resto do mundo.

Geralmente, o transtorno se manifesta ainda na infância. Que diferenças precisam ser levadas em consideração quando o tratamento é voltado para uma criança? /
Minha opinião não é a de um especialista. Mas, de fato, quando estamos tratando de uma criança, é preciso avaliar com cautela até que ponto podemos interferir. Apesar disso, acho que é necessário levar em conta o direito da família e daqueles que cuidam da criança, já que é uma decisão que também causa grande impacto na vida dessas pessoas. É preciso haver uma junção do que é melhor para o indivíduo e para aqueles que o cercam e o amam.

Um dos grandes desafios quando tratamos do autismo é não apenas buscar alternativas de tratamentos e modos de melhorar suas vidas, mas também mudar o modo como lidamos com essas pessoas em nossa sociedade

A sociedade tende a pensar no autista como uma pessoa com sérios distúrbios na interação social e na comunicação. Tal visão pode levar a erros e preconceitos. Diante desse quadro, como o autista pode ter uma vida melhor? 
Um dos grandes desafios quando tratamos do autismo é não apenas buscar alternativas de tratamentos e modos de melhorar suas vidas, mas também mudar o modo como lidamos com essas pessoas em nossa sociedade. No caso de deficientes físicos que usam cadeiras de rodas, por exemplo, modificamos o ambiente para melhor adaptá-lo  a suas necessidades: colocamos rampas,  ampliamos toaletes. Já no caso dos autistas, ambientes menos barulhentos, com menos pessoas, seriam algumas boas adaptações. Mas acredito que a mudança mais importante é justamente na atitude das pessoas, que devem ser educadas para aprender a tratar autistas como iguais.

Existem métodos alternativos recomendados para o tratamento do autismo ou de seus sintomas separadamente?
Não é a minha área de estudo, mas existem, de fato, diversos tratamentos sendo oferecidos. Restrições ou adições nas dietas também são sugeridas. Talvez para alguns casos em particular certas mudanças nos hábitos sejam apropriadas, porém eu não conheço boas evidências de que tais tratamentos sejam eficazes em geral.

Em 2006, Shinya Yamanaka apresentou uma técnica que permite converter células adultas nas chamadas células-tronco de pluripotência induzida (iPSC), que são capazes  de se diferenciar em outras células. Em seu trabalho atual, como a descoberta de Yamanaka pode ser relacionada ao TEA?
A oportunidade de estudar o neurodesenvolvimento em um sistema humano, ainda que em um sistema muito simplificado, nunca tinha sido possível antes de Yamanaka. Quem quisesse estudar um distúrbio neurológico humano – como é o caso do autismo – tinha como única opção os modelos animais.  Então, a grande mudança após a descoberta de Yamanaka está na possibilidade de produzir neurônios com material específico de indivíduos com o distúrbio e poder compará-los com os de outras pessoas que não tenham o transtorno, de modo a estudar os efeitos que essas condições trazem.

Existem, sim, algumas questões éticas nesse tipo de pesquisa. Nós lidamos com amostras de diversos indivíduos e, consequentemente, temos uma carga grande de informação genética

Com o advento das células iPSC, os cientistas se tornaram capazes de desenvolver modelos mais específicos. Quais são as questões éticas decorrentes do uso dessas células que enfrenta em sua pesquisa?
Existem, sim, algumas questões éticas nesse tipo de pesquisa. Nós lidamos com amostras de diversos indivíduos e, consequentemente, temos uma carga grande de informação genética. É necessário muito cuidado ao trabalhar com coisas assim. Obviamente precisamos passar por comitês de ética para que tudo fique claro; o que será feito, que tipo de informação é usada etc.

Você também participa do projeto EU-AIMS (European Autism Interventions), um centro que envolve academia, indústria e familiares, voltado para o estudo e o desenvolvimento de novos medicamentos  para tratar o TEA. Poderia nos contar um pouco mais sobre essa iniciativa?
Trata-se de um imenso projeto colaborativo dentro da União Europeia – é o projeto científico mais importante nas biociências. O programa envolve cerca de 22 instituições de pesquisa e indústrias farmacêuticas. A ideia central é combinar a expertise de diversos profissionais em diferentes áreas (modelos com animais, estudos em humanos, pesquisas com genética etc.) para o melhor entendimento do TEA e o desenvolvimento de novas terapias. O projeto também visa ampliar e melhorar os relacionamentos entre o universo acadêmico e as companhias farmacêuticas.

Como o seu trabalho está relacionado a cientistas e institutos brasileiros de pesquisa?
É parte do projeto EU-AIMS construir pontes com pesquisadores de outras partes do mundo, entre eles, os brasileiros. O Instituto de Psiquiatria da UFRJ conta com excelentes pesquisadores que trabalham com células iPSC – essa tecnologia já está aqui. A ideia é somar esforços para  aumentar o conhecimento sobre o tema.

Qual a situação atual de sua pesquisa? Quais são os próximos passos?
Minha pesquisa ainda está no começo, é muito preliminar. Venho trabalhando com isso há apenas três anos e ainda estamos conferindo consistência à pesquisa. Grande parte de nosso trabalho deve passar por formas padronizadas de culturas celulares, e tudo isso antes mesmo de iniciar o experimento propriamente dito. De modo que esse processo leva tempo. Mas é necessário, pois sem ele não teremos bons resultados nas comparações. Não estamos apenas fazendo pesquisa, mas desenvolvendo habilidades e capacidades para estudos posteriores. Dizer para onde a pesquisa irá no futuro ainda é muito difícil.

Esta entrevista foi publicada na CH 329. Clique aqui para acessar uma versão parcial desta edição e ler outros textos da revista.
 
Everton Lopes  e Valentina Leite

Especial para a Ciência Hoje

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