13 de maio também é dia de negro!

Para além da Lei Áurea, vamos refletir sobre a liberdade a partir das trajetórias de abolicionistas negros? Que projetos de liberdade e de nação formularam e como agiam? Como isso pode ser trabalhado nas aulas de História?

Sabemos que o Brasil foi a última nação do continente americano a abolir a escravidão, em 1888. O que muitos não sabem é que, desde o início do século 19, o país também respondia pela maior população de gente negra livre e liberta das Américas. De acordo com o Censo de 1872, para cada 10 pretos e pardos, seis viviam legalmente em liberdade.

Se nem tudo era escravidão, que dados temos disponíveis para falar sobre essa expressiva presença de pessoas negras livres no cotidiano da sociedade brasileira oitocentista? O que a nossa dificuldade em pensar para além da escravidão tem a ver com a naturalização do racismo em nossas políticas de memória e na própria organização social antes e depois da abolição?

Às vésperas dos 131 anos do fim da legalidade do escravismo em solo brasileiro, que tal refletirmos sobre esses lugares de liberdade a partir das trajetórias de abolicionistas negros? Que projetos de liberdade e de nação formularam? Atuavam sozinhos ou se articulavam entre si? O que fizeram depois da abolição? Como isso pode ser trabalhado nas aulas de História e na implementação da Lei n. 10.639/2003, que instituiu a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e afro-brasileira na educação nacional?

Participe deste debate! Apresente suas dúvidas e opiniões. As questões discutidas aqui ajudarão na construção de um artigo sobre o tema para a Ciência Hoje.

Ana Flávia Magalhães Pinto
Departamento de História,
Universidade de Brasília
Coordenadora nacional do GT Emancipações e Pós-Abolição,
Associação Nacional de História

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Matéria publicada em 15.04.2019

COMENTÁRIOS

  • Juliana Alves Esteves

    Olá, bom até hj não entendi pq os negros se deixaram ser subjugados em sua própria terra para serem escravos.
    E pq também tinham escravos.

    Publicado em 15 de abril de 2019 Responder

    • Ana Flávia Magalhães Pinto

      Olá, Juliana,
      A base de suas dúvidas são equívocos comuns nos debates sobre escravidão, história da África e colonialismo. Seu ponto de partida é o entendimento de que os diferentes povos africanos seriam e deveriam se pensar como um conjunto único, o que você chama de “os negros”. Isso, por sua vez, te leva a pensar que diferentes povos africanos não poderiam estabelecer relações de conflitos locais, como é comum entre outros grupos humanos ao longo da história. Muito menos que essa dinâmica pudesse compor um cenário de resistência, negociação e até mesmo reorganização de costumes anteriormente estabelecidos em contexto outro que o comércio de pessoas e a escravidão em escala transatlântica. A fim de ampliar seu repertório de informações, sugiro a você a leitura de textos como:
      Helen Osório e Regina Célia Lima Xavier (orgs.). Do tráfico ao pós-abolição: trabalho compulsório e livre e a luta por direiros sociais no Brasil. São Leopoldo: Oikos, 2018
      Walter Rodney. Como a Europa subdesenvolveu a África. Lisboa: L’Ouveture Publications, 1975.
      Joaquim Nabuco. Abolicionismo. São Paulo: Publiflolha, 2000. Neste há um trecho em que o autor argumenta: “Não importa que tantos dos seus filhos espúrios tenham exercido sobre irmãos o mesmo jugo, e se tenham associado como cúmplices aos destinos da instituição homicida, a escravidão na América é sempre o crime da raça branca, elemento predominante da civilização nacional, e esse miserável estado, a que se vê reduzida a sociedade brasileira, não é senão o cortejo da Nêmesis africana que visita, por fim, o túmulo de tantas gerações.”

      Publicado em 16 de abril de 2019 Responder

      • Monica Lima

        Eu acrescentaria à resposta da Ana Flávia: houve muita resistêncua à escravização na África no período.do tráfico escravagista atlântico. Conhecemos pouco.sobre essa história, mas ela existiu, foi dramática e forte. Há trabalhos, resultantes de pesquisas consistentes, de historiadoras como a senegalesa Sylviane Diouf, sobre esse assunto.ros
        A escravidão, como uma das formas mais ruéis de exploração do trabalho humano, existe na história da humanidade há muito muito tempo. E não só na África. Podemos dizer o mesmo desses outros povos que foram feitos cativos? Que se deixaram escravizar? Será que os “grupos subjugados’ se deixam explorar, se submetem?
        É bom pensar sobre isso…

        Publicado em 17 de abril de 2019

  • Acioli Junior

    Texto que escrevi e publiquei no face e no blog, falando sobre o 13 de maio e dia da Consciência Negra.
    Entre o Dia da Consciência Negra e da Consciência Humana (por Acioli Jr)

    Há uma frase famosa atribuída ao grande ator norte-americano Morgan Freeman que diz: “O dia em que pararmos de nos preocupar com Consciência Negra, Amarela ou Branca e nos preocuparmos com a consciência humana, o racismo desaparece”.
    Essa frase que de fato é muito bela é usada massivamente no Brasil por pessoas contrárias ao dia da Consciência Negra, que ocorre no dia 20/11 de cada ano, que inúmeras cidades e estados fizeram da mesma um feriado, inclusive o Rio de Janeiro.
    O dia 20/11 é a data comemorativa eleita pelo movimento negro e inserida no lugar do 13/05, que é o dia da Libertação da Escravatura.
    A diferença entre esses dois dias é que o 13/05, que por coincidência é o dia do nascimento de quem vos escreve, é uma data que se comemora o fim da escravidão negra no Brasil, através da Promulgação da Lei Áurea no ano de 1888, a exatos 130 anos, sendo o Brasil o último país do Ocidente a acabar com o trabalho compulsório.
    Já em 20/11/1694 foi o dia que as tropas lusitanas comandadas por um exército de mercenários, cujo líder foi o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho, conseguiram matar o líder máximo do Quilombo de Palmares, o maior quilombo da América, que se localizava na Serra da Barriga em Alagoas.
    Aparentemente parece que o 13/05/1888 é mais importante que o 20/11/1694, pois a morte de um homem não pode ser mais importante que a libertação de um sem número de escravos.
    Todavia, o Movimento negro entende corretamente que a morte de Zumbi e a queda de Palmares é mais importante que o fim oficial da escravização, porque a primeira data marca a luta dos próprios escravizados e negros fugidos contra sua condição cativa. É a não aceitação do cativeiro. É preferir a morte à escravização. É preferir perder a vida em mome da liberdade.
    Enquanto o 13/05/1888 expressa uma monarquia moribunda tendo que se curvar as inúmeras pressões internas de abolicionistas e de inúmeras nações, como a Inglaterra (a nação mais rica e poderosa do século XVII ao XIX), que queria o fim da escravidão e pressionava o Brasil desde as primeiras décadas do século XIX. Além da pressão de parte dos republicanos e iluministas que também eram favoráveis ao término do trabalho compulsório. Portanto a Lei Áurea é um ato governamental de cima para baixo, não expressando a luta dos próprios escravos, mas uma pseudo benesse da Monarquia, que a exatos um ano e cinco meses após a Lei que abolia o escravismo, chega ao fim, no dia 15/11/1889, com a Proclamação da República e o governo do Marechal Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente do Brasil.
    A princesa Regente Isabel e seu pai, o imperador D. Pedro II, só retornarão ao Brasil anos depois de mortos, quando seus corpos vêm da França e são sepultados na Catedral de Petrópolis!
    Enquanto existir a discriminação racial deve-se comemorar o Dia da Consciência Negra. Enquanto parte substancial da população brasileira e mundial for racista e achar que a cor da pele ou grupo étnico é capaz de subjugar seres humanos, em detrimento aos privilégios de outros grupos, deve-se relembra aos jovens, velhos e crianças que os negros, assim como os índios nunca aceitaram ser escravizados e lutaram bravamente contra sua condição de escravos.
    Enquanto a Consciência Humana for racista e preconceituosa, deve-se comemorar o Dia da Consciência Negra!

    Publicado em 15 de abril de 2019 Responder

    • Ana Flávia Magalhães Pinto

      Olá, Acioli,

      A instituição do 20 de Novembro é fundamental para o estabelecimento de uma dinâmica de questionamento profundo da história oficial que foi escrita mediante o apagamento das experiências individuais e coletivas de homens e mulheres negras. Isso, com efeito, mais do que esgotar a questão, abre uma agenda de pesquisa que nos permitir conhecer outras experiências tão importantes quanto Palmares. Trata-se de um esforço profundo para o país seja capaz de enxergar a diversidade de sujeitos e projetos de sociedade. Nesse sentido, compartilho contigo o link de um Dossiê 13 de Maio, publicado no blog Conversa de Historiadoras, em 2017: https://conversadehistoriadoras.com/2017/05/14/8232/

      Publicado em 16 de abril de 2019 Responder

  • Keilla Vila Flor

    É fundamental, para nós professores, quando estamos falando de período colonial, não tratarmos a escravidão como a única forma de vivência do negro no Brasil. E isso, não de modo a amenizar o que a escravidão de fato foi, mas para incutir na cabeça de nossos alunos a idéia de que ja se pensava e se vivia a liberdade negra muito antes de 1888. A trajetória do negro no Brasil vai muito além da escravidão e da servidão e quando só falamos disso em sala de aula, nossos alunos crescem naturalizando discursos como “os negros foram escravizados porque nunca resistiram à dominação”, o que é uma enorme mentira.

    Publicado em 15 de abril de 2019 Responder

    • Ana Flávia Magalhães Pinto

      Exatamente, Keilla. Precisamos ampliar o repertório de histórias e sujeitos a partir dos quais construímos nossas narrativas sobre a História do Brasil.

      Publicado em 16 de abril de 2019 Responder

      • João Reis

        Isso aí. Os negros escravizados resistiram de diversas formas, não apenas por meio de revoltas e a formação de quilombos, formas clássicas de resistência coletiva. Pensem na fuga individual, por exemplo, sem que terminasse num quilombo. Anúncios de escravos fugidos foram publicados nos jornais aos milhares ao longo do século XIX. Dificilmente se encontrará um escravo que não tivesse uma fuga no currículo. Tem mais. O boicote à produção (fazendo corpo mole, tipo operação padrão), o pequeno furto, o uso de ervas para “amansar o senhor”, a manipulação psicológica do senhor, enfim, a lista é enorme… Um historiador haitiano escreveu sobre “o espectro infinito da reação humana a formas de dominação.” Foi assim a resistência escrava.

        Publicado em 16 de abril de 2019

  • Everaldo Alexandre Mattos

    Na minha humilde opinião enquanto o negro não se conscientizar de que é necessário estudar para ocupar um lugar de destaque na sociedade continuaremos sendo escravos dos subempregos qualquer raça fica vivendo da pior espécie possível, sendo usado por pessoas de índole negativa, e para ganhar uma grana fácil para comprar o que a mídia diz que é moda.

    Publicado em 15 de abril de 2019 Responder

  • Maria Alice Lackinger

    Acho que o sistema de cotas,apesar de ser apenas um primeiro passo para que seja diminuída a injustiça sofrida pelos negros, já é um pequeno avanço que possibilitará a sua entrada na Universidade e a chance de concorrer de igual por igual no mercado de trabalho!

    Publicado em 15 de abril de 2019 Responder

  • Elba Helena Brandão

    É de conhecimento que a Princesa Isabel, cedeu as pressões da Inglaterra. Em momento algum “eles” preocuparam-se com os ex-escravos. Tanto é assim que a grande maioria foram largados à própria sorte. Como fazer os jovens estudantes de hoje terem essa visão da mais pura verdade ?

    Publicado em 15 de abril de 2019 Responder

    • Ana Flavia Magalhães Pinto

      E que tal conhecer os outros projetos que estão em disputa no que diz respeito ao fim da escravidão? O cenário era composto por vários outros sujeitos que não “A Inglaterra” e “A Princesa Isabel”.

      Publicado em 16 de abril de 2019 Responder

  • Antonio Ferrao Neto

    A minha opinião é que ter sido abolicionista ou escravagista dependia do caráter e não da cor da pele de cada um.
    Existiram, no Brasil e no mundo, muitos abolicionistas brancos e muitos escravagistas negros.
    Um exemplo de escravagista negro foi o barão mineiro Francisco Paulo de Almeida, um dos mais importantes barões do café do segundo reinado. (https://oglobo.globo.com/rio/um-barao-negro-seu-palacio-seus-200-escravos-14573740). Também existiram muitos capitães-do-mato que caçavam negros fugitivos e eram negros.
    Sinto muito, mas esta matéria é racista e não se pode combater racismo com racismo.

    Publicado em 16 de abril de 2019 Responder

    • Ana Flavia Magalhães Pinto

      “Abolicionistas brancos” e “escravagistas negros” exisitiram na mesma proporção? O que você conhece sobre a variedade de perspectivas abolicionistas que disputaram os sentidos do fim da escravidão no Brasil?

      Publicado em 16 de abril de 2019 Responder

      • Monica Lima

        Acrescentaria, à resposta ao leitor: há uma distância e uma diferença enormes entre reconhecer e destacar a participação negra no processo abolicionista no Brasil e ser racista.. Racismo é outra coisa.
        Dzer que havia negros que participaram da exploração escravista reduz ou nega a importância de se conhecer a participação fundamental de negras e negros na Abolição? Como assim?

        Publicado em 17 de abril de 2019

  • Raquel Araujo

    Gostaria de deixar uma declaração pessoal:
    Sou filha de negros, brancos e indígenas. Eu cresci em um lar onde não aprendi distinção devido a cor ou a raça; um belo dia chegou um agente do governo na minha casa com a seguinte pergunta: “Qual cor ou raça você se autodeclara?”, minha mãe, sem maiores dificuldades afirmou ser branca, meu pai, negro, eu no entanto, fiquei parada olhando para mim mesma sem saber o que dizer, foi a primeira vez que me deparei com este questionamento aos 7 anos e hoje, 17 anos depois, ainda não sei responder a essa pergunta. Não sou branca, nem negra, nem indígena. Nunca me identifiquei ou concordei em responder a essa pergunta repetida pelo governo, por instituições educacionais e outras tantas organizações; afinal, eu era uma criança que não via diferenças entre cor ou raça e até aquele momento desconhecia o racismo e de repente me vi obrigada a me definir pela cor da pele.
    Ao longo dos anos frequentei aulas de história que pintaram a Princesa como a única heroina, os brancos como carrascos, os negros como pobres escravos, os indígenas como “meros figurantes”. Acredito que a escola à sua maneira de ensinar menospreza a luta dos negros e indígenas, omite os brancos que lutaram por eles e nós crescemos acreditando nesse “conto de fadas” com a heroína, o vilão e a vítima. A “vítima” não é admirada, nem respeitada, tudo que se sente pela “vítima” é pena; e o que pensamos sobre o “vilão”?
    A história como aprendemos, distorce nossa visão da sociedade atual e futura. Quando olho para Zumbi, não penso nele com pena, mas sim com respeito e admiração. Quando é que vamos olhar assim para aqueles que foram escravizados?
    Merecemos conhecer Luís Gama, Maria Tomásia Figueira Lima, Maria Firmina dos Reis, Francisco José do Nascimento e tantos outros que mereceram ter seus nomes nos livros de história, mas foram simplesmente esquecidos ou ignorados. Merecemos saber que a nossa história foi feita por pessoas que lutaram por um mundo melhor, eles cometeram erros e acertos mas não se omitiram simplesmente.

    Publicado em 16 de abril de 2019 Responder

  • Idalina Freitas

    Olá a todo/as, parabenizo a iniciativa, penso ser um debate que ainda rende muito e nesse contexto o debate histórico para esse tema assim como para tantos outros, precisa estar em evidência. Gostaria de deixar meu comentário a partir de uma pesquisa que venho desenvolvendo no município de São Francisco do Conde (SFC), Recôncavo baiano, creio que não preciso mencionar a importância histórica dessa região para a compreensão do mundo Atlântico. Sou historiadora e minha contribuição é como tal. Tenho refletido sobre a instrução pública técnica por meio da agricultura moderna como um projeto para o pós-abolição e nesse sentido percorro a trajetória da primeira escola agrícola do Brasil, construída na segunda metade do século XIX na vila de SFC, a Escola Agrícola de São Bento das Lages (EA). Os esforços em torno do projeto da escola foram grandes, tanto por parte do estado, intelectuais, naturalistas e uma elite senhorial preocupada com a decadência da lavoura. A escola tem sido o fio condutor para pensar o desenvolvimento da ciência agronômica no estado da Bahia e no Brasil, como também as estratégias de formação técnica mais “modernizada” e “competente” para os filhos de pequenos agricultores, desvalidos, filhos de viúvas, dentre outros, que nessas categorias provavelmente foram egressos da escravidão e na dinâmica de trabalho passariam de ex-escravos para “operários agrícolas’. Inclusive constrói-se um currículo diferenciado na EA para o chamado curso elementar que formava esses meninos. As formas de controle no âmbito da escola e as respostas a esse sistema, por meio de fugas principalmente, são elementos importantes para refletir tanto sobre o projeto, assim como as respostas a aplicação deste modelo educacional. Bom, aqui é pequeno resumo de um contexto histórico que penso ser importante para refletir sobre esses “passados/presentes”, sobretudo quando hoje retoma-se um intenso debate sobre a educação e de quem “merece” ter uma educação superior ou técnica. Penso que a instrução pública no passado era um debate que percorria o mundo atlântico em vias da abolição e no pós-abolição, foram estratégias para se pensar as concepções e práticas educacionais destinadas aos negros e negras, sendo necessária a compreensão do processo de abolição do trabalho escravo no Brasil, associando-o a construção de uma nova sociedade que emergiria da superação da escravidão, pensando nos trabalhadores negros do futuro.

    Publicado em 17 de abril de 2019 Responder

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