O filme Hitman: agente 47 trata das aventuras e desventuras de um assassino – interpretado por Rupert Friend – programado geneticamente para matar de maneira mais eficiente que seus colegas de profissão tradicionais, isto é, apenas psicopatas. Essa programação genética envolveu manipulações, não esclarecidas no filme, que deram ao personagem um controle total de suas emoções – fator que lhe conferiu ausência total de empatia pelos seres humanos ou outros viventes.

Aparentemente, mesmo para os assassinos profissionais mais endurecidos, algumas questões comportamentais, como remorso, ou outros critérios ligados à ética, ainda prejudicam seu desempenho. Mas os geneticistas que programaram os agentes conseguiram eliminar de suas cobaias tais percalços.

Quem assiste a Hitman e vai buscar algum embasamento na genética ficará frustrado. Jurassic Park, por exemplo, é mais didático: os produtores nitidamente se preocuparam em validar seus voos de fantasia e transmitiram aos espectadores alguns conceitos científicos que serviram para fazê-los crer que o enredo não estava muito longe do possível. Quem viu vai lembrar que, no início de Jurassic Park, há uma divertida aula que explica tais conceitos e, sem dúvida, mostra que houve um trabalho inicial de consultoria científica. 

 
Hitman - imagem do filme
Não faz sentido o uso do código de barras na nuca dos agentes; ele poderia ser simplesmente substituído por um discreto implante de pele. (foto: divulgação)
 

Em Hitman, esse trabalho  preparatório não existe. O único momento em que a genética entra em discussão acontece já quase no final, quando o cientista (obviamente arrependido) está sendo interrogado e torturado para revelar a metodologia empregada para produzir seus agentes. Nessa cena, o interrogador apenas lança alguns termos comuns da biotecnologia, que, para os não iniciados, significam muito pouco, ou nada.

O único momento em que a genética entra em discussão acontece já quase no final

O filme tampouco aborda questões existenciais como as propostas em Blade Runner, o caçador de androides, em que criador e criatura ponderam instigantes questões filosóficas sobre o que, de fato, representa a vida. Em Hitman, quando o agente 47 encontra algum tempo para dialogar com a sua parceira, a quem tenta proteger – a bela, porém inexpressiva, Hannah Ware –, ele arrisca algo enigmático que, em tradução livre, é algo como “somos aquilo que fazemos”, o que, novamente, não provoca pensamentos mais elevados.

Natureza e cultura

Outro equívoco, ou omissão, em Hitman é a insistência na crença de que as emoções e o comportamento de maneira geral são regidos pelo DNA. Essa noção está atualmente tão arraigada nas pessoas que produtores e espectadores já formaram entre si forte aliança de cumplicidade. Explicar a diferença entre ‘Nature x Nurture’ [natureza x cultura] exigiria algum esforço intelectual e, certamente, subtrairia do filme tempo precioso que, nesse caso, foi mais bem empregado nas inevitáveis cenas de perseguição e destruição de carros e de propriedade, em geral, além de muita matança.

Bem, o que esperar de um filme baseado num game? Fora a exibição de um arsenal poderoso e de sistemas de vigilância que deixam 1984 no chinelo (esses, sim, de assustar), Hitman não sai do lugar-­comum dos filmes de aventura do gênero pseudocientífico-­futurístico. Acreditem ou não, há até um diálogo entre o vilão (não o assassino, que, na verdade, acaba  se tornando o herói) e o cientista em que é recitada a frase “Eu e você não somos tão diferentes…”, mais gasta do que tênis de maratonista. 

Fora a exibição de um arsenal poderoso e de sistemas de vigilância que deixam 1984 no chinelo (esses, sim, de assustar), Hitman não sai do lugar-comum dos filmes de aventura do gênero pseudocientífico-futurístico

E, como esperado, o desalmado agente 47 acaba se humanizando um pouco quando, ao final, sorri por uma fração de segundo, deixando perceber que o DNA não é tão inexorável assim. Nesse instante, apresenta-­se a dúvida: será que o criador ficou orgulhoso de seu erro como geneticista, ou apenas irritado com sua falha ao programar suas criaturas?

Outras indagações que podem afligir os espectadores dizem respeito ao fator econômico. Presumivelmente, a produção de agentes da série Hitman deve custar uma fortuna. Ademais, compute­-se o custo dos armamentos de última geração, munição abundante, carros e roupas estilosas utilizados. Quantos clientes poderiam, na realidade, contratar tais profissionais? Uma missão simplesinha deve estar pela hora da morte.

Malgrado a eficiência desses, para a maior parte dos mandantes, a galera dos matadores encontradiços deve ficar bem mais em conta. Enfim, não fica claro se Hitman terá outros episódios, mas, caso isso aconteça, deixo a minha humilde sugestão de substituir o código de barras e o número de série na nuca dos agentes por um discreto implante de pele. Isso melhoraria um pouco o lado estético desses especialistas, algo que os produtores claramente desejam enfatizar, além de dar a eles um pouco mais de privacidade. E, pensando bem, para que mesmo o tal código?

Esta crítica foi publicada na CH 330. Clique aqui para ter acesso a uma versão parcial da revista e ler outros textos da edição.

Franklin Rumjanek
Instituto de Bioquímica Médica
Universidade Federal do Rio de Janeiro

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