Ciência Hoje/RJ

O (a) leitor(a) de CH viu, na edição 326, entrevista com uma especialista norte-americana sobre como os plásticos têm causado uma situação lastimável nos oceanos. Lá havia um alerta: não se sabe o que acontece com 99% desse material que chegam aos mares pela ação do H. sapiens. Agora, novo estudo revela onde parte dessa poluição acaba. E a descoberta é triste: em poucas décadas, praticamente todas as aves marinhas do planeta,  de todas as espécies, terão plástico em seu corpo.

Esmiuçando o problema em números mais detalhados, a equipe que desenvolveu o modelo computacional  para estudar a relação entre plásticos e aves marinhas chegou às seguintes conclusões: i) atual- mente, cerca de 90% de quase todas as espécies de aves marinhas têm plástico em seu corpo; ii) por volta de 2050, esses percentuais serão de 95% (indivíduos) e 99,8% (espécies). o próprio título do artigo, publicado na PNAS, reforça que o problema é “global, pervasivo e crescente” – exponencialmente crescente, segundo os autores.

Mal dá para engolir esses números, de tão dessaborosos.  Mas o fato é que as aves marinhas estão ingerindo plástico. E isso causa o bloqueio do estômago dessas belas criaturas, sem contar que o material acaba sendo fonte de substâncias  tóxicas contidas  no próprio plástico ou que gru dam nesse material. Segundo os autores, a densidade de fragmentos de plásticos nos oceanos chega a até 580 mil pedaços por km2.

Ao todo, foram estudadas 186 espécies de aves marinhas (56% do total mundial), mas o modelo computacional tem capacidade de expandir suas previsões.

Até 2025, os humanos terão feito a proeza de despejar nos oceanos cerca de 150 milhões de toneladas de plástico

O impacto do plástico tem a ver basicamente com duas variáveis: quantidade desse material na água e número de espécies que habitam a região. o modelo, desenvolvido pela equipe de Chris Wilcox, da organização de Pesquisa Científica e Industrial da Comunidade das Nações (Austrália), mostra que as aves que estão sob o maior risco de ingerir plástico localizam-se na região entre Austrália e Nova Zelândia – região antes considerada razoavelmente limpa e hábitat de grande número de espécies de aves marinhas – e na parte sudoeste do oceano Índico.

Até 2025, segundo Jenna Jambeck, a entrevistada da edição 326, os humanos terão feito a proeza de despejar nos oceanos cerca de 150 milhões de toneladas de plástico.

Sem hipocrisia

E antes que se in-vertam os papéis… o vilão não é a poluição (plástico), mas, sim,  o poluidor (H. sapiens) – deve-se lembrar que o plástico proporcionou grandes avanços para a humanidade,  ao baixar o preço de produtos, tornando-os acessíveis aos mais pobres; diminuir o peso e aumentar a flexibilidade de objetos; substituir produtos animais e vegetais, diminuindo taxas de extinção e desmatamento etc.

E, deixando a hipocrisia de lado e mergulhando fundo no problema, as causas da atual situação dos mares e das aves marinhas – em resumo, da terra – têm raízes em séculos de uma visão de mundo na qual o mais importante é só e apenas só o H. sapiens. A  natureza, na visão cartesiana até hoje muito presente, está aí para nos servir.

As grandes  utopias  (comunismo, nazismo e globalização,  por exemplo) sempre buscaram transformar os humanos, achando possível mudar sua natureza. Ironicamente, ao alçá-los ao centro e alto do mundo, criaram uma nova classe de dominados, de ‘proletários sem voz’: a fauna e a flora, que estariam aí para serem exploradas.  É o humanismo  em seu mais amplo sentido.

A conta está aí. Pior: egoísta  e mesquinhamente, para as gerações futuras.

Você leu apenas parte da matéria publicada na CH 330. Clique aqui para acessar uma versão parcial da revista e ler o texto completo.
 
Cassio Leite Vieira
Instituto Ciência Hoje/RJ
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