A revista Ciência Hoje completa neste ano 25 anos de existência ininterrupta. Trata-se de um marco da história científica do país. Desde 1982, na 34ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em Campinas (SP), na qual foi lançado o primeiro número, 243 outros foram publicados, de forma regular e contínua.

O projeto da revista resultou da decisão de um grupo de cientistas, vinculados a diversas instituições e a áreas diferentes de pesquisa, de, para além de seu trabalho regular de investigação, enfrentar um desafio de não pequena monta: o de tornar a ciência um patrimônio cultural comum, através da divulgação científica e da busca da democratização do conhecimento.

Tratava-se então, e ainda hoje se trata, de superar o isolamento dos cientistas em seus circuitos específicos – laboratórios, institutos de pesquisa, salas de aula, revistas especializadas, congressos etc. – e de indicar a necessidade de um vínculo com o público mais amplo. Da mesma forma, em 1982, nos estertores do regime militar, aparecia como imperativo o fortalecimento do debate político, não partidário, a respeito de temas de interesse público. O próprio tema da democratização do país impunha-se, de modo incontornável.

O que disso resultou, como legado para a história da revista, foi a necessidade de uma colaboração, inédita no país, entre cientistas de todas as áreas do conhecimento. O esforço de tratar a ciência como uma dimensão estratégica da vida social tem exigido, desde o início, a colaboração de profissionais tanto das ciências naturais e exatas quanto das ciências humanas e sociais.

Como primeira revista de divulgação científica do país, Ciência Hoje tem sido obrigada, durante toda a sua história, a inventar seu próprio caminho, um trajeto constituído por dilemas que exigem esforço continuado de superação. Um deles é o de compatibilizar profundidade e conteúdo científico com a obrigação de produzir textos com clareza e, mais do que isso, capazes de suscitar interesse e atração.

Outro, não menor, é o de evitar assumir a posição superior de um oráculo, fundado na crença de que a ciência resolve todos os nossos problemas, mas sustentar, ao mesmo tempo, que a atividade científica é um recurso indispensável e um patrimônio inestimável, que deve assumir de modo crescente um caráter público e compartilhado.

Ainda há muito a ser feito. O país tem indicadores de produção em ciência animadores e um ‘parque científico’ diversificado e de alta qualidade, mas convive com o abismo do analfabetismo científico. Ciência de ponta e vida comum ainda não têm no Brasil canais regulares de convergência. A percepção social e política de que o conhecimento científico é um recurso importante para o país ainda é limitada. Constitui prova recente desse limite o projeto de lei aprovado pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro, que proíbe o uso de animais em pesquisas científicas (assunto tratado no número 231 de CH).

Do lado da ciência, a cultura da divulgação científica ainda se ressente do não reconhecimento pleno, por parte das agências de fomento à pesquisa, do caráter nobre e relevante das atividades que desenvolve. Os estímulos à publicação estão todos voltados para veículos que jamais ultrapassam o circuito restrito de uma ciência autárquica e desatenta à necessidade da democratização do conhecimento e da qualificação crescente do debate público.

Renato Lessa
Presidente do Instituto Ciência Hoje

 

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