Paul Crutzen, prêmio Nobel de Química de 1995, considerando a crescente escala regional e global do impacto das atividades humanas sobre a Terra e, particularmente sua atmosfera, cunhou o termo ‘Antropoceno’ para definir uma nova era geológica que se inicia após a Revolução Industrial. Nessa nova era, o papel do homem na geologia e na ecologia do planeta tornou-se preponderante em relação à maior parte das forças naturais que moldam nosso planeta. O livro Os senhores do clima, de Tim Flannery, constitui uma excelente introdução ao Antropoceno e demonstra claramente a facilidade com que podemos destruir o frágil equilíbrio que torna a Terra habitável.

O livro é divulgação científica de alto nível, com texto fluido e accessível ao público leigo, embora requeira algum conhecimento prévio, porém mínimo, dos sistemas naturais. Os primeiros capítulos são dedicados ao relato de diferentes teorias e de seus autores, remontando ao “grande oceano aéreo”, de Alfred R. Wallace [biólogo, geógrafo e antropólogo galês, (1823-1913)] e do sueco Svante Arrhenius [(1859-1927), prêmio Nobel de Química de 1903], nos séculos 18 e 19 e dos pioneiros no século 20 que sugeriram que as condições planetárias estavam sendo alteradas por atividades antrópicas.

Esses capítulos iniciais também apresentam, em nível inteligível para o leigo, uma excelente introdução à química e física da atmosfera, de forma magnífica, esclarecendo e descrevendo processos complexos como teleconexões decorrentes dos fenômenos climáticos, a química dos compostos de efeito estufa, entre outros. Tudo isso é feito de modo didático, sem perder a profundidade necessária.

Segue-se uma sucessão de capítulos onde, de forma direta e sem melodramas, são apresentados os impactos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade do planeta. Enquanto países-chave, como Estados Unidos e a própria Austrália, não assumem seu papel no Protocolo de Kyoto (*) e os economistas de plantão clamam por crescimento de dois dígitos e aplaudem as taxas estratosféricas de crescimento econômico, dezenas de espécies são extintas, biomas inteiros estão ameaçados, ecossistemas frágeis como as florestas tropicais, incluindo nossa Amazônia, e os recifes de coral encontram-se no limiar do desequilíbrio e destruição irreversível.

Tim Flannery toca em um ponto central que vem impedindo a tomada de uma posição definitiva sobre a mudança climática global: a eternidade do otimismo humano em se adaptar às novas condições planetárias. O autor ajusta a sua real dimensão as soluções mágicas para minimizar os impactos decorrentes do aumento dos gases de efeito estufa. Propostas como usinas e motores a hidrogênio para gerar energia e usar no transporte, fertilização dos oceanos ou bombeamento direto para águas profundas para retirada do CO 2 , entre outras, mesmo sendo tecnologicamente possíveis, podem resultar em danos colaterais, como aumento de emissões de gases estufa ou impactos sobre a acidez da água do mar. De qualquer forma, fica evidente que essas soluções provavelmente não estarão disponíveis a tempo e serão restritas à parcela mais abonada da população do planeta.

Desonestos e insensíveis
A detalhada – e por vezes irônica – descrição dos tortuosos caminhos traçados pelos que não têm interesse na redução dos gases de efeito estufa, ou mesmo apostam em seu aumento para promover lucros e poder geopolítico, consegue mostrar ao leitor o quão desonestos e insensíveis ao destino da maioria da população do planeta são esses grupos de interesse.

O exemplo da Austrália – país natal do autor –, onde o Antropoceno talvez tenha começado bem mais cedo e desastres naturais de origem antrópica têm sido recorrentes, acrescenta um pouco de dramaticidade ao livro. Esse aspecto, entretanto, longe de torná-lo piegas, resulta em um instrumento necessário para lembrar o leitor do grau emergencial da situação atual de nosso planeta. A única ressalva, que demonstra uma visão algo ingênua do autor, é sua “Lista de Verificação da Mudança Climática”, aplicável aos belos e tranqüilos subúrbios do mundo desenvolvido, mas que faria graça a qualquer roda de conversa entre chineses e indianos, e o restante dos emergentes e imergentes do planeta.

Caso esses países continuem perseguindo crescimento de dois dígitos percentuais, como tão propalado pelos economistas da moda, não haverá forma de impedir a quebra do frágil equilíbrio que nos mantém confortáveis na Terra. Apesar disso, o livro deixa claro que as conseqüências da mudança climática são tão profundas e extensas que representam um perigo real e imediato à nossa sobrevivência e que devem ser levadas em consideração em todas as decisões tomadas: nas atitudes individuais, nas políticas locais, regionais, nacionais e internacionais.

Gabriel A. Dover, reconhecido geneticista e evolucionista britânico, crítico, embora grande divulgador da ciência, considera a divulgação científica em geral desatualizada, melodramática e muitas vezes inexata, e que, no domínio público, a ciência permanece tristemente superficial. Não é o caso definitivamente do livro de Tim Flannery.

(*) Nota da redação: A resenha foi escrita antes que a Austrália anunciasse, durante a Conferência do Clima em Bali, sua adesão ao Protocolo de Kyoto, isolando os Estados Unidos.

Os senhores do clima
Tim Flannery
Rio de Janeiro, 2007, Record
Tel.: (21) 2585-2000
392 páginas – R$ 55,00

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Luiz Drude de Lacerda
Instituto de Ciências do Mar,
Universidade Federal do Ceará

 

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