Dilemas da civilização tecnológica

Rio de Janeiro

A vocação e o destino tecnológicos da civilização contemporânea são os temas que vêm ocupando, há várias décadas, o sociólogo Hermínio Martins. Nascido em Moçambique, em 1934, ele é considerado um dos grandes pensadores portugueses da atualidade. Em novembro passado, Martins esteve no Brasil para lançar Experimentum humanum – civilização tecnológica e condição humana (editora Fino Traço), livro que reúne artigos produzidos ao longo de quase 20 anos.

Forçado ao exílio na década de 1950, o sociólogo desenvolveu sua trajetória acadêmica na Inglaterra. Ensinou nas Universidades de Leeds e de Essex, no Reino Unido, e também nas universidades da Pensilvânia e Harvard, nos Estados Unidos. Atualmente, é professor emérito do St. Anthony’s College, da Universidade de Oxford, e pesquisador honorário do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Ao pensar criticamente os rumos da tecnociência, Martins serve-se de dois signos fortes do nosso imaginário: Prometeu, que dá à humanidade o fogo roubado aos deuses, e Fausto, o que pactua com o demônio. Por meio dessas figuras, ele sinaliza a tensão – entre o entusiasmo e o pesadelo – do projeto de controle total da natureza.

sobreCultura: Vivemos numa sociedade cada vez mais tecnicista, entretanto rompeu-se a identificação que havia entre ciência e progresso. Que nova equação tomou seu lugar? Seria simplificado dizer que, no lugar do progresso, entrou o mercado como o outro termo desta equação?
Hermínio Martins: Certamente, a categoria de mercado surgiu como complementando senão mesmo envolvendo a noção de ciência, da ciência que predominantemente se faz hoje. Houve uma época em que se pensava que a dinâmica imanente e supostamente benéfica da ciência não poderia avançar sem a superação do capitalismo de mercado. Hoje vemos que tanto a ciência quanto a tecnologia e a economia capitalista de mercado se encontram em plena expansão, sem qualquer mecanismo fatal de autolimitação, pelo menos num futuro próximo.

Livro ‘Experimentum humanum’
No livro ‘Experimentum humanum’, Martins reúne artigos produzidos ao longo de quase 20 anos.

Se a expressão ‘tecnociência’ se difundiu para levar em conta a ciência que se elabora com meios tecnológicos cada vez mais sofisticados e que se conjuga com processos de mecanização e industrialização cada vez mais abrangentes, também a sua inserção na economia de mercado se tornou cada vez mais ampla e extensa. Por isso se fala de ‘capitalismo tecnológico’, de ‘capitalismo cognitivo’, da ‘indústria do conhecimento’, numa época em que o conhecimento se torna cada vez mais capital, e o capital incorpora conhecimento cada vez mais. Não há governo hoje que não queira promover a ciência-para-o-mercado acima de tudo (não quero dizer, exclusivamente, pois o financiamento dos grandes observatórios astronômicos ou do acelerador de partículas LHC, por exemplo, não dependem de perspectivas de mercado).

Quais as consequências da mudança radical de perspectiva sobre o orgânico resultante da tecnociência? O senhor atribui à genética molecular um destaque nesse processo?
A genética molecular tem inspirado ou confirmado em muitos dos seus praticantes uma visão do mundo em que a vida biológica surge como plenamente inteligível em termos mecanicistas, reducionistas, deterministas e, essencialmente, amorais, pois, em princípio, todos os fenômenos vitais são considerados sujeitos à manipulação controlada para uma grande variedade de finalidades. Os avanços da engenharia genética e da biologia sintética parecem justificar esta visão, embora as promessas da terapia genética, por exemplo, ainda estejam por cumprir (talvez já se cumpram, mas bem lentamente).

No entanto, nem toda a biologia pode ser incluída na genética molecular: basta pensar nos ‘naturalistas’ como o famoso [entomologista norte-americano] Edward O. Wilson, que ainda insistem na importância da ‘biofilia’ e que resistem à noção do controle total da biosfera e, portanto, de certo modo, à artificialização radical do meio ambiente como inevitável ou mesmo possível, necessária ou desejável. Em todo o caso, é notável como o mundo biótico aparece hoje como uma fonte inesgotável de alimentos, fármacos, combustíveis, materiais, tecidos, genes, vacinas etc., numa escala comparável à do mundo inorgânico, em parte devido à bioquímica e à genética molecular, mas também, e cada vez mais, às nanotecnologias. Há cientistas que afirmam que dizer biologia é o mesmo que dizer biotecnologia e vice-versa.

Comercialmente, trata-se de uma fantástica corrida do ouro da exploração da vida-mercado, da Terra-mercado, de uma verdadeira economia biocapitalista. O orgânico foi intensamente explorado antes da Revolução Industrial, mas volta a ser hoje em maior escala e com meios tecnocientíficos que conduzem a uma grande intensificação da utilização de matérias orgânicas. Biotecnologia e biomercado se equacionam de uma maneira sem precedentes.

Qual a responsabilidade dos cientistas frente a esse quadro? E o que se pode dizer sobre a responsabilidade pública da ciência hoje?
Dos anos 1930 aos anos 1960, houve movimentos importantes de físicos, químicos e biólogos, no Reino Unido e nos Estados Unidos, que exprimiram vivamente a responsabilidade dos cientistas na vida pública, a ‘função social’ da ciência. Inicialmente, foi em parte devido ao parco financiamento da pesquisa científica, que poderia ter grande utilidade social. Depois de 1945, nos Estados Unidos pelo menos, o financiamento foi gigantesco, e esses movimentos de cientistas, com raízes ideológicas ou religiosas, preocupavam-se, por um lado, com o perigo da guerra atômica e, por outro, com as distorções das prioridades da pesquisa científica que as preocupações militares de segurança nacional ou de fomento das indústrias com alguma ligação com estas questões podiam criar. Nessa época, sim, falava-se muito da ‘responsabilidade social’ dos cientistas.

O próprio ethos da ciência tornou-se muito mais conformista com as exigências comerciais e industriais que no passado, quando se prezava muito a autonomia da ciência

Depois de 1989 houve uma grande atenuação dessas preocupações pelo menos em termos de movimentos de cientistas. A intensificação do processo de comercialização e industrialização das ciências depois de 1989 ocorreu sem reviravoltas significativas, embora tenha sido criticado por muitos cientistas individualmente. O próprio ethos da ciência, como foi constatado por estudiosos dessas questões, tornou-se muito mais conformista com as exigências comerciais e industriais que no passado, quando se prezava muito a autonomia da ciência.

Recentemente, tem havido uma tendência contra esta comercialização, tendo em mente questões como o direito de patentes e os direitos de propriedade intelectual. Está a configurar-se um movimento de ‘ciência aberta’, procurando fontes de financiamento não comerciais e uma participação maior dos cidadãos. Tendência promissora, que talvez se possa desenvolver nos próximos anos para escapar à tirania do mercado e do Estado sobre as questões de pesquisa científica.

Em seu livro, contrapõem-se duas visões sobre a ciência: a ‘prometeica’, em que o domínio técnico volta-se a fins humanos, e a ‘fáustica’, que propõe a compreensão do mundo para fins únicos de previsão e controle. A vitória desta última é absoluta, ou permanecem resíduos da índole prometeica?
Houve sempre uma certa tensão fáustica na ciência. No entanto, os meios efetivos, as tecnologias disponíveis, não permitiam ir mais longe que os sonhos baconianos ou cartesianos de um controle total da natureza exterior e da natureza humana (incluindo aí a extensão radical da vida, processo que está em curso, com sucessivas ‘revoluções de longevidade’).

Hoje, no entanto, todos reconhecem que, para bem ou para mal, os meios tecnológicos disponíveis – e os que irão surgir nas próximas duas, três ou quatro décadas – são tais que suscitam interrogações muito sérias sobre o que poderá ou deverá ser feito com a espécie humana. São tecnologias como as genéticas e as reprodutivas, e as combinações das duas; os avanços a caminho de uma inteligência artificial autônoma, ou superinteligência; a robótica e as nanotecnologias, sem falar das tecnologias de informação e de comunicação (TIC), que funcionam hoje como a metatecnologia por excelência. Elas nos permitem integrar, monitorar e de certo modo controlar todas as outras tecnologias, antigas ou recentes. Podíamos falar das ciências de computação hoje como finalmente fornecendo os elementos essenciais para a unificação das ciências, como as TIC unificam as tecnologias, o elemento-chave na convergência das tecnologias segundo a sigla anglófona NBIC: nanotecnologias, biotecnologias, tecnologias de informação e tecnologias cognitivas (que abrangem neurociência, psicologia comportamental, psicofármacos e já se fala de neuromarketing).

Simplificando bastante, parece-me razoável distinguir duas grandes perspectivas fáusticas hoje com respeito ao futuro da nossa espécie. Uma, que resultaria da combinação das novas tecnologias reprodutivas e das tecnologias biogenéticas, seria do melhoramento genético da vanguarda biológica humana, dando lugar a duas espécies humanas, uma de bom capital genético, outra de capital genético inferior. Segundo [o físico e matemático inglês] Freeman Dyson, quanto mais espécies pós-humanas, melhor!

A outra, favorecida por muitos transumanistas, seria a de providenciar, pelo menos para alguns, a passagem a um plano computacional de existência, pós-biológico, transferindo a nossa mente para programas de computador (assegurando assim, para nós, um certo tipo de imortalidade, como dizem bondosamente alguns dos visionários em questão). Outra hipótese, que vai ser discutida num novo Centro na Universidade de Cambridge sobre ‘riscos existenciais’, seria a da nossa superação por robôs muito inteligentes.

Robô
A passagem a um plano pós-biológico de existência e a superação dos humanos por robôs muito inteligentes são hipóteses que vêm sendo discutidas pela ciência contemporânea. (foto: Jiuguang Wang/ Flickr – CC BY-SA 2.0)

Em princípio, não há fatalidade nenhuma nesses processos, nessas derivas fáusticas, que, no entanto, seduzem muita gente. Os seres humanos têm o direito de rejeitar qualquer projeto de transformação da sua própria espécie, direito a acrescentar aos que já constam da Declaração de Direitos Humanos da ONU [Organização das Nações Unidas]. Seguir esses caminhos seria perder o sentido de solidariedade com a história, trágica e épica, da nossa espécie, com os nossos mortos.

Qual caminho lhe parece mais temerário?
Talvez mais perigosa, porque pode parecer menos radical, seria a deriva fáustica na direção da ‘ciborgueficação’. Muitas e variadas próteses tentadoras vão entrar no mercado. Para além das modificações genéticas, as modificações que trazem próteses sofisticadas, um novo sensorium eletrônico, novas capacidades motoras, sensores dentro do nosso corpo propiciando-nos um sistema proprioceptivo artificial, implantes cerebrais e assim por diante. Algumas destas modificações estão sendo introduzidas pelo Pentágono para os seus militares. Vamos ver como o Google Glass [projeto de óculos de realidade aumentada] será aceito. Há já humanos que se denominam ciborgues, mas isso não é muito sério, tanto que ainda não existe um estatuto legal próprio para eles, enquanto já se pensa seriamente num estatuto de pessoa jurídica e moral para os futuros robôs (segundo opiniões tanto de cientistas quanto de teólogos).

Qual a importância das transformações tecnológicas em curso frente à crise ambiental global?
As inovações tecnológicas serão certamente necessárias para enfrentar as múltiplas crises ecológicas, dos recursos aquíferos, da biodiversidade, da energia e da mudança climática global, para mitigá-las ou adiá-las. Mas nunca serão suficientes, mesmo se viessem a tempo, o que muitas vezes não acontece. A mudança climática, contestada por alguns cientistas e por certas forças políticas e interesses econômicos, parece a mais distante, em todos os sentidos, especialmente no que diz respeito ao fator antropogênico, que, no entanto, pode ser decisivo.

As inovações tecnológicas serão certamente necessárias para enfrentar as múltiplas crises ecológicas. Mas nunca serão suficientes, mesmo se viessem a tempo

A energia de fusão nuclear ainda é uma hipótese bem remota e provavelmente teremos que recorrer à energia nuclear convencional, ao gás natural (que gera metade das emissões de dióxido de carbono do carvão), bem como às energias renováveis, que ficarão, contudo, bem aquém do necessário, pelo menos nas próximas duas ou três décadas. Mas, para além das inovações tecnológicas, serão absolutamente indispensáveis disposições não tecnológicas. A imaginação moral, a coragem cívica, a vontade política, a paciência e a determinação em persistir em cursos de ação sem resultados a curto prazo, ou talvez mesmo a médio prazo, o que será muito difícil numa cultura de imediatismo. Mas há coisas que todos nós podemos fazer, como mudar nossos hábitos alimentares e praticar a frugalidade em tudo. Muitos hábitos e gostos que a propaganda comercial define como de livre escolha são resultado de fatores químicos viciantes das indústrias alimentares, tão perversas como a indústria do tabaco ou a farmacêutica.

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