Rio de Janeiro

Quando se trata de opinar sobre temas relacionados à demografia – fecundidade, saúde reprodutiva, sexualidade, envelhecimento da população e questões de gênero e raça no país –, o nome de Elza Berquó nos vem de imediato. A conceituada especialista foi pioneira ao introduzir a demografia ao meio acadêmico brasileiro e ao usar esse campo do conhecimento como ferramenta para tentar compreender parte das transformações da sociedade.

Mineira de Guaxupé, Elza nasceu em 1931. Desde pequena acostumou-se a mudanças: seu pai era funcionário federal dos Correios, o que obrigava a família a trocar de endereço com frequência. O encantamento pela matemática começou ainda na infância e a acompanharia até a vida adulta: escolheu a disciplina como carreira universitária, cursada na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (SP). Graduou-se também em bioestatística na Universidade Colúmbia (EUA). Fez o mestrado e a livre docência na Universidade de São Paulo (USP), onde foi professora titular na Faculdade de Saúde Pública.

Berquó deu sua primeira grande contribuição à demografia brasileira ao fundar o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional (Cedip) na USP, o primeiro do gênero no país

Em 1966, sob o impacto do golpe maldito – é assim que ela se refere à tomada de poder pelos militares em 1964 – e na mira da ditadura, Elza Berquó deu sua primeira grande contribuição à demografia brasileira ao fundar o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional (Cedip) na USP, o primeiro do gênero no país. No Cedip, reuniu, encorajou e formou aquela que seria a primeira geração de pesquisadores em demografia no Brasil.

Três anos depois, veio o Ato Institucional n°5 (AI-5), que a afastou do Cedip e da universidade, aposentando-a compulsoriamente. Foram tempos difíceis, que não a intimidaram. Apesar dos convites de excelentes instituições de ensino e pesquisa do exterior, decidiu permanecer no país. Ao lado do economista Paul Singer e de outros nomes importantes que integravam as listas da ditadura, buscou refúgio no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Definido por ela como um centro de resistência intelectual, o Cebrap abraçou a Pesquisa Nacional de Reprodução Humana iniciada no Cedip em 1968 e a ampliou, tornando-a um modelo de pesquisa em demografia na América Latina.

Chegada a anistia, Elza não voltou a lecionar na universidade. O motivo? Nem todos a queriam por perto. “O trabalho no Cebrap seguia a todo vapor. Para que retornar sem autonomia?”, lembra. Mas aceitou o convite para fundar, em 1982, o Núcleo de Estudos Populacionais (Nepo) na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que se tornou nova referência nacional em demografia.

Membro-titular da Academia Brasileira de Ciências desde 2001, recebeu a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico da Presidência da República em 1998, ano em que também foi condecorada com a Medalha de Mérito da Fundação Joaquim Nabuco.

Ao longo dos últimos 30 anos, dividindo suas atenções entre o Cebrap e o Nepo, Elza Berquó fortaleceu a pesquisa demográfica no Brasil. E, entre aqueles que a conhecem de perto, consolidou também a imagem da guerreira mais gentil e generosa que a demografia brasileira poderia desejar.

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