Entrevista: antônio flávio pierucci

Antônio Flávio Pierucci: “Há, sim, muita liberdade religiosa no Brasil, mas o peso do cristianismo ainda sufoca as outras crenças”.

Há duas décadas o Brasil presencia o constante aumento de seguidores das igrejas pentecostais e neopentecostais, aumento que necessariamente acarreta a diminuição de outras religiões, como é caso do catolicismo, mas também do luteranismo e da umbanda.

 
Segundo estudo realizado pelo sociólogo Antônio Flávio Pierucci, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), diferentemente de 70 anos atrás (o primeiro censo sobre religião é de 1940), o país conta hoje com uma diversidade religiosa efetiva, que, entretanto, se concentra em uma imensa maioria cristã, composta de católicos e evangélicos. Somos de fato o país do Cristo Redentor: 90% cristão. “Há, sim, muita liberdade religiosa no Brasil, mas o peso do cristianismo ainda sufoca as outras crenças”, afirma.
 
Nesta entrevista, Pierucci explica por que o cristianismo ainda é a principal religião adotada pelos brasileiros, fala sobre o influxo das conversões na sociedade e mostra que a nossa diversidade cultural não é tão grande como gostaríamos. “Que bela diversidade religiosa é essa nossa, na qual as religiões não-cristãs não somam mais do que 3,5% da população? É uma auto-ilusão que alimentamos. Podemos de fato ter gente de todas as cores e etnias, mas temos que calibrar melhor, diante do espelho censitário, essa auto-imagem de uma formidável diversidade religiosa (…) O brasileiro olha para si com olhos de multiculturalismo imaginado, irreal, exagerado.”
 
Mônica Pileggi
Especial para Ciência Hoje /SP
O que levou o senhor a mensurar a diversidade religiosa no país?
Foi olhando de perto as tabelas do último censo demográfico que eu passei a me interessar pelo lado quantitativo da diversidade religiosa. Pelos dados do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] para o ano 2000, a população brasileira é 74% católica e 15,5% evangélica. Somando esses valores, chega-se a 89,5%, de onde se conclui que nove entre 10 brasileiros são declaradamente cristãos. Ou seja, somos realmente ‘o país do Cristo Redentor’. Agora, se você observar o percentual da categoria ‘outras religiões’ apurado a cada 20 anos desde 1940, vai observar que ele é sempre baixo. E seu crescimento é muito suave: sai de 1,9% em 1940, chega a 2,3% em 1960, a 2,5% em 1980 e finalmente a 3,5% no ano 2000. Pergunto: que bela diversidade religiosa é essa a nossa, na qual as religiões verdadeiramente outras, as religiões não-cristãs — judeus, afros, hinduístas, islâmicos, budistas etc. — não somam mais do que 3,5% da população? É uma auto-ilusão que alimentamos. Podemos de fato ter gente de todas as cores e etnias, mas temos que calibrar melhor, diante do espelho censitário, essa auto-imagem de uma formidável diversidade religiosa.
 
O senhor disse auto-ilusão do brasileiro, o que isso implica?
Quando a mídia exibe muito um determinado fenômeno, como recentemente fez a TV Globo com o rodeio, começa-se a pensar que qualquer cidade do Brasil tem seus rodeios, que a juventude usa aquele tipo de roupa, chapéu e bota de cowboy etc . Cria-se o chamado ‘efeito demonstração’. É um efeito hiper-real: aquilo não é a realidade, mas uma realidade criada com toda a aparência de ser real. Algo parecido com isso acontece hoje com as igrejas. Algumas igrejas neopentecostais, que utilizam intensamente a mídia televisiva, passam a imagem de serem igrejas enormes, com centenas de milhares de seguidores, quando, na realidade, medido pelo censo, seu tamanho é bem menor. A mesma coisa se passa com a diversidade religiosa: na realidade ela é bem menor do que aparenta.

Segundo os dados do censo, a partir da década de 1980, começa a diminuir o número de seguidores da Igreja Católica. Houve algum fator histórico que contribuiu para essa redução?
Vários fatores históricos. Primeiro foi o surgimento, no final dos anos 70, das chamadas igrejas neopentecostais: a Igreja Universal do Reino de Deus, a Internacional da Graça Divina e a Renascer, entre outras. Elas foram criadas aqui no Brasil com o uso inteligente da mídia eletrônica e mais eventos de massa: reuniões em estádios de futebol, compra de grandes salões etc. E veja bem, segundo historiadores, a Igreja Católica, quando pensou nas comunidades eclesiais de base nos anos 1960, espelhou-se no modelo dos pentecostais, que faziam pequenas igrejas, muito mais comunitárias e mais aconchegantes, devido ao pequeno número de pessoas que elas congregavam. As neopentecostais vieram mudar isso.
 
O neopentecostalismo trouxe várias mudanças: o grande número de seguidores insistentemente mostrado na televisão é uma delas, mas não só. Ele trouxe também um espírito de empreendedorismo para a atividade dos pastores, e com isso aumentou sua racionalidade empresarial, o que também aumentou sua eficácia. Isso quer dizer que a Igreja Católica tem hoje, no Brasil, concorrentes religiosos muito mais aparelhados e preparados do que antes para converter católicos. As igrejas neopentecostais, nas quais há muito empenho dos pastores e trabalha-se muitas horas por dia, são mesmo ‘igrejas de resultados’.
 

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