Já se foi meio século desde que, em 31 de março de 1964, o general Olímpio Mourão Filho pôs em marcha suas tropas, partindo de Juiz de Fora em direção ao Rio de Janeiro, para dar início ao golpe que depôs o presidente João Goulart. O movimento, que contou com amplo apoio civil, de governadores, senadores, deputados, empresários, da Igreja, da maior parte da imprensa e de grandes passeatas em São Paulo e Rio de Janeiro, encerrou o experimento democrático iniciado em 1945, quando as Forças Armadas depuseram o presidente Getúlio Vargas.

Em 1945, nossa República oligárquica começara a ser invadida pelo povo nas urnas, nos partidos, nos movimentos sociais, nas greves, na rua. Pressões por reformas de um lado, medo de mudanças do outro, histeria da Guerra Fria no meio levaram ao colapso do experimento.

Seguiram-se 21 anos de eclipse democrático: parcial até 1968, ano do famigerado Ato Institucional nº 5; total até 1979, ano da anistia; novamente parcial até 1985, quando o sol da liberdade brilhou de novo nos céus da pátria. A partir daí, 29 anos de bom tempo, com trovoadas esporádicas, nos acompanharam até os dias de hoje.

Um novo país

Os muitos brasileiros maiores de 60 anos que acompanharam todo o processo testemunharam, nesses 50 anos, o surgimento de um país novo, quase irreconhecível. Os 70 milhões de habitantes de 1960 quase triplicaram nos 200 milhões de hoje. A população urbana quintuplicou, de 31 milhões para 160 milhões, criando um país mais urbanizado do que os Estados Unidos. A expectativa de vida passou de 48 para 75 anos, um ganho de 27 anos. Os 15,5 milhões de eleitores de 1960 octuplicaram: eram 132 milhões em 2010 – 70% da população. A população universitária, que era de pouco mais de 100 mil, saltou para 7 milhões. A lista das mudanças drásticas poderia alongar-se. Baste essa amostra.

Se 1964 foi marcado pela quebra do sistema democrático, cabe aqui perguntar como vamos hoje de democracia, como estamos quase 30 anos depois da segunda tentativa de restaurá-la, iniciada em 1985

Se 1964 foi marcado pela quebra do sistema democrático, cabe aqui perguntar como vamos hoje de democracia, como estamos quase 30 anos depois da segunda tentativa de restaurá-la, iniciada em 1985. O que herdamos da ditadura, o que acrescentamos na democracia, o que nos falta alcançar? Herdamos, pelo lado negativo, 21 anos sem prática democrática, 50 milhões de eleitores que começaram a votar quando o voto não fazia sentido e uma elite política formada em tempos de arbítrio, tacanha, oportunista, desfibrada. Pelo lado positivo, herdamos uma nova postura diante da política, com a aceitação, pela maioria dos cidadãos, dos valores democráticos rejeitados pelos dois lados na polarização que se criou em 1964, e um novo povo político, forjado nas grandes manifestações das Diretas Já (1983-84), que levaram mais de 4,5 milhões de pessoas às ruas de dezenas de cidades. Um povo agora unido e despolarizado.

Acrescentamos 30 anos de prática democrática ininterrupta; rotinização da substituição constitucional de governantes; o espetáculo único de um impeachment reclamado por milhões nas ruas e sancionado pelo Congresso; a estabilização da moeda, interrompendo uma sequência de surtos inflacionários que nos atormentava, adicionando gravidade às crises políticas; a inclusão social de milhões de brasileiros marginalizados pela pobreza.

Manifestações junho
Carvalho defende a reforma do sistema representativo, ampliando os canais de representação e recuperando os existentes, para lhe dar a credibilidade que as manifestações de junho de 2013 disseram que ele perdeu. (foto: Valter Campanato/ ABr – CC BY 3.0)

Viemos de longe, mais longe temos que ir. É preciso completar a inclusão social, não apenas para eliminar a pobreza, mas para reduzir a desigualdade ainda escandalosa. Devemos universalizar com qualidade o ensino médio, como condição de formação de cidadãos ativos, independentes de benesses do governo. E ‘republicanizar’ a República, no sentido de uso eficiente e honesto de recursos públicos no atendimento de demandas populares no campo da saúde, educação, mobilidade urbana, segurança pessoal. Sobretudo, é necessário reformar o sistema representativo, ampliando os canais de representação e recuperando os existentes, para dar ao sistema a credibilidade que as manifestações de junho de 2013 disseram que ele perdeu.

A geração de 1964 tropeçou, mas acabou passando à de 1985 um país reposto no caminho democrático. Cabe à de 1985 repassar à de 2014 uma democracia consolidada.

José Murilo de Carvalho
Departamento de História
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Texto originalmente publicado na CH 313 (abril de 2014). Clique aqui para acessar uma versão resumida da revista.

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