O desafio da inclusão social nos museus de ciências

Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Fundação Oswaldo Cruz
Museu de Astronomia e Ciências Afins

Com ingressos gratuitos ou de baixo custo, centros e museus de ciência brasileiros estão abertos a todos, não importa a renda, a escolaridade ou a região em que habitam, certo? Pesquisas feitas nas últimas décadas mostram que não é bem assim: a inclusão social ainda é um enorme desafio para esses espaços, e não basta estar de portas abertas para atrair, agradar e satisfazer públicos mais diversos. Mas, afinal, como esses espaços de educação não formal podem exercer o seu papel social de difusão de conhecimento?

FOTO: RENATA FONTANETTO/FIOCRUZ

Os centros e museus de ciência são reconhecidos espaços para a divulgação científica capazes de proporcionar diversas experiências, que podem ser interativas, divertidas, sociais e afetivas. Esse leque de atividades e vivências estimula a curiosidade, e, claro, o aprendizado e o interesse por ciência e tecnologia em diferentes contextos. Por outro lado, esses espaços têm enfrentado um desafio de difícil superação: a inclusão social. O perfil de seus frequentadores não representa a maior parte da população brasileira, em termos de renda e nível educacional. No Brasil, a maioria do público tem origem nas visitas escolares, mas a chamada audiência de visitação espontânea (em geral, famílias e poucos adultos) vem, principalmente, de camadas privilegiadas da sociedade. Ainda que a inclusão nos espaços museológicos seja debatida e buscada há mais de quatro décadas, essa é uma realidade persistente, que reflete a estrutura social desigual da sociedade brasileira.

Neste artigo, são apresentadas algumas perspectivas, pesquisas e iniciativas como inspiração de caminhos na direção da construção de museus mais inclusivos e estruturados para expandir seus benefícios científico-culturais a parcelas mais amplas da população.

Informação científica: por que é importante?

Desde março de 2020, a pandemia de covid-19 revelou o quanto os cuidados com a saúde individual dependem, também, da comunicação e da compreensão pública da ciência. Em paralelo, foi notório o papel da desigualdade social na crise sanitária: a doença atingiu mais duramente as camadas mais vulneráveis da população e, apesar da mobilização para ações emergenciais, ficou claro que mudanças estruturais demandam medidas mais consistentes.

Desde março de 2020, a pandemia de covid-19 revelou o quanto os cuidados com a saúde individual dependem, também, da comunicação e da compreensão pública da ciência

Todo esse quadro reafirmou que uma parcela grande dos indivíduos está excluída do exercício dos direitos de cidadania não só em relação a serviços públicos básicos geridos pelo estado, mas no acesso ao conhecimento científico. Ao longo dos primeiros dois anos da pandemia, foi possível presenciar continuamente o processo científico ao vivo, suscitando dúvidas e incertezas, simultaneamente à colaboração entre pesquisadores e suas novas descobertas. A falta de familiarização sobre o funcionamento dessa engrenagem da produção científica, suas incertezas e debates até a construção do consenso, propiciou um ambiente no qual muitos se tornaram vulneráveis aos discursos anticientíficos e às notícias falsas.

Mesmo fora dos momentos de emergência sanitária, o acesso ao conhecimento científico é importante, e a busca por ele pode ser motivada por outras necessidades: doença crônica na família, decisões sobre carreira, papel como consumidor, cuidados com crianças, ou a vontade de se atualizar sobre debates científicos envolvendo temas relevantes, como alimentos transgênicos, energia nuclear, astronomia, tecnologias etc. A comunicação da ciência pode, portanto, colaborar para maior participação social, além de fortalecer o cidadão para tomar melhores decisões na sua vida, participar, dialogar e agir.

A necessária
“cidadania tecnocientífica”

O professor de Sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais Yurij Castelfranchi desenvolveu o conceito de “cidadania tecnocientífica”. Ele defende que a ciência contemporânea está altamente entremeada nos processos sociais da atualidade. Portanto, precisamos de um novo conceito de cidadania, que inclua a participação da população nas questões técnicas e científicas, território muitas vezes considerado exclusivo de especialistas.

Democratizar o acesso à comunicação científica, no entanto, não tem sido uma tarefa fácil, já que tantas discussões acontecem de maneira complexa e multidirecional, em especial no ambiente digital. Faz-se necessário aos profissionais e pesquisadores negociar o conhecimento com os não profissionais, além de refletir sobre por que comunicar e, principalmente, estarem preparados para responder como e o que comunicar.

Capital da ciência?
Entenda o conceito

FOTO: MARIA BUZANOVSKY/FIOCRUZ

No Reino Unido, um grupo de pesquisadores liderados por Louise Archer, da University College London, tem proposto uma adaptação do conceito de capital do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002) aplicado ao papel da ciência na sociedade contemporânea. Bourdieu descreve as formas de capital – econômico, social, cultural ou simbólico – e como estas produzem as relações de privilégio ou subordinação na sociedade.

Para o grupo britânico, a ciência constitui um importante ativo na reprodução ou superação de privilégios dentro da sociedade contemporânea, e sua distribuição equitativa dentro de uma sociedade é fundamental para uma superar desigualdades sociais como um processo reproduzido historicamente. Esse novo tipo de capital foi designado, pelo grupo, de “capital da ciência”, e a ampliação de seu acesso pode permitir maior equidade na sociedade, constituindo um veículo potencial para desmontar e reestruturar as atuais relações desiguais de poder.

Ainda que seja importante manter as ações direcionadas às crianças em idade escolar, a onipresença da ciência e tecnologia no cotidiano contemporâneo demanda que a educação em ciências não fique restrita à educação formal, na escola. Segundo relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e Conselho Internacional de Museus (ICOM, na sigla em inglês), os adultos representam 66% da população, portanto é relevante pensar na educação sob a dimensão da aprendizagem ao longo da vida, também buscando maior proporção do público adulto entre os visitantes.

Diferentemente de outros campos, como as artes e os esportes, a ciência dispõe de poucos espaços sociais onde adultos não apenas podem continuar aprendendo, mas discutindo seus resultados e métodos. A ciência do cotidiano, que amplia a consciência do indivíduo sobre o mundo, de maneira crítica e contextualizada, encontra nos centros e museus de ciências um local chave nesse caminho para reduzir desigualdades sociais ao longo de toda a vida.

E qual o papel dos espaços de ciência?

Museus e centros de ciência têm uma posição privilegiada para transformar a relação ciência-sociedade. No mundo, estima-se que mais de 300 milhões de pessoas frequentam esses espaços a cada ano. No Brasil, temos cerca de 270 instituições desse tipo distribuídas por todas as regiões. A concentração geográfica, no entanto, ainda é uma questão: esses espaços são mais presentes nas cidades mais ricas e, dentro destas, nas áreas de alta renda ou turísticas. Mesmo quando estão fora dos bairros de elite, ainda há uma disparidade grande entre o público visitante e o perfil da população brasileira. E isso não é apenas uma percepção, muitas pesquisas apontam essa desigualdade.

FOTO: MARIA BUZANOVSKY/FIOCRUZ

No mundo, estima-se que mais de 300 milhões de pessoas frequentam esses espaços a cada ano. No Brasil, temos cerca de 270 instituições desse tipo

Investigação no MAST

O Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), localizado na cidade do Rio de Janeiro, foi pioneiro na realização de investigações sobre o tema da inclusão social em museus de ciências. Os estudos, realizados entre 2006 e 2014, partiram do conceito de que a experiência e o empoderamento são capazes de promover laços de pertencimento, identidade, além de uma relação afetiva e estética com o conhecimento científico.

Em uma das pesquisas, foram convidados adultos e famílias advindas das camadas mais pobres para uma visita com mediação da equipe do museu, seguida do preenchimento de um questionário. Na ocasião, foi oferecido transporte e lanche aos participantes. Os resultados revelaram boa avaliação da visita e foi constatada uma grande percepção de ganho em relação aos chamados aspectos cognitivos do empoderamento, que indicam uma percepção de ganho de aprendizagem relacionada à visita.

Mas, em relação aos aspectos sociais do empoderamento e a conexão com a vida cotidiana, a percepção de ganho foi bem menor. Propõe-se que o empoderamento desses visitantes está relacionado ao vínculo entre o que foi observado e seu cotidiano ou o aproveitamento daquela visita para a melhoria das condições de vida das pessoas. Além disso, a visita representou a inauguração de um tipo de experiência para muitos que nunca tinham visitado um museu, o que teria valor por si. A visita, no entanto, não se repetiu de forma espontânea, conforme apontado em entrevistas realizadas mais de um ano após as visitas estimuladas. Portanto,  não foi modificado um hábito social e cultural.

Análise na Grã-Bretanha

No Reino Unido, a pesquisadora Emily Dawson, do departamento de estudos de ciência e tecnologia da University College London, realizou visitas a museus de ciência com grupos de minorias étnicas. Seus resultados ressaltam que os indivíduos deixaram os museus ainda menos propensos a repetir a experiência. Os relatos transpareceram a violência simbólica vivida nos espaços que reproduzem desvantagens sociais em vez de atuarem para rompê-las. Dawson argumenta o quanto os benefícios atribuídos aos museus de ciências não estão igualmente disponíveis para todos, pois as visitas podem reforçar desvantagens sociais para alguns visitantes. Em todos os grupos, os indivíduos vivenciaram as instituições como locais indesejáveis, onde seus conhecimentos, práticas e identidade são ignorados ou desqualificados. Assim como a experiência brasileira, essa pesquisa não tinha expectativas de promover mudanças radicais nas percepções dos visitantes após a realização de apenas uma visita, mas, neste caso, eles se posicionaram contra as instituições e descartaram a possibilidade de visitá-las novamente.

Pesquisa aponta exclusão

No Rio de Janeiro, um consórcio de museus, o Observatório de Centros e Museus de Ciência e Tecnologia, vem realizando, desde 2005, pesquisas para estabelecer o perfil do público que visita esses estabelecimentos. O resultado, que corrobora outras pesquisas, mostra que, apesar dos esforços dessas instituições, o público que as frequenta ainda é predominantemente branco, com renda acima da média e com formação de ensino superior.

Perfil da população X público dos museus na cidade do Rio de Janeiro

CRÉDITO: MUSEUS DE CIÊNCIAS E SEUS VISITANTES – ESTUDO LONGITUDINAL 2005 – 2009 – 2013. RIO DE JANEIRO: COC, FIOCRUZ, 2017 E IBGE. CENSO DEMOGRÁFICO

O Museu da Vida, instituição vinculada à Fiocruz, é um dos museus desse consórcio. O museu tem um histórico de relacionamento com seu território, predominantemente caracterizados por grandes complexos de favelas e comunidades socialmente vulnerabilizadas. Das instituições mapeadas, é a que tem o público que mais se aproxima da distribuição demográfica da própria cidade. Em um estudo recente, mapeou sua área de influência, com o qual estabelece relações no espaço, tempo e memória, além do diálogo com grupos sociais. A pesquisa foi realizada nas zonas central, norte e parte da zona oeste da cidade, regiões de onde vem a ampla maioria do público de visitação espontânea do museu, onde habitam cerca de 56% da população da cidade. A região engloba bairros com os seis menores IDHs e inclui os cinco dos maiores complexos de favelas da cidade.

A pesquisa revelou que, para o público avaliado, a visita ao museu proporcionou ganho significativo  em uma série de dimensões da relação com a ciência: percepção de compreensão e conhecimento; interesse e curiosidade, e participação em atividades e eventos relacionados à ciência e tecnologia. Esse ganho se mantém nessa população, que é predominantemente vulnerável socialmente, e tem continuidade também independentemente da escolaridade e da faixa de renda.

A pesquisa mostrou ainda que essa população é mais capaz de discernir informações falsas sobre ciência. Esses ganhos aumentam quanto maior o número de visitas ao museu. Por outro lado, quase metade da população nunca tinha ouvido falar do museu, ou seja, uma boa parte das pessoas que vivem próximas da instituição não sabe da sua existência.

Obstáculos e vontade de mudar

Cada vez mais, pesquisadores e profissionais de museus têm se preocupado com práticas inclusivas, mas grande parte relata não saber como começar. Dentre as investigações comentadas neste artigo, há alguns pontos de consenso na direção da inclusão, como a adoção de compromisso institucional de longo prazo, combinado à proatividade para iniciar um diálogo respeitoso que leve em conta os valores, as práticas, as aspirações e as motivações do público. Ir ao encontro, convidar, comunicar-se com o público. Esta abordagem pode representar embates por parte da cultura institucional e do preconceito estrutural que perpassam as instituições, assim como profissionais e público, pela dificuldade que existe em se lidar com diferenças. Além disso, alguns museus e centros de ciência ainda acreditam que basta manter suas portas abertas, e isso é o suficiente para ser inclusivo com seus públicos, mesmo que suas exposições reproduzam violências simbólicas.

Cada vez mais, pesquisadores e profissionais de museus têm se preocupado com práticas inclusivas, mas grande parte relata não saber como começar

São também conhecidas as dificuldades estruturais e limitações no tamanho das equipes que trabalham nas instituições. É importante lembrar também a relativa juventude de grande parte dessas instituições em relação ao cenário mundial e a inconsistência de políticas públicas na área em nosso país, aspectos que colaboram para a precariedade da estrutura de muitas delas. Para contornar essas limitações, é indicada a realização de parcerias de longo prazo com ONGs do território, por exemplo. Esse movimento é considerado essencial para viabilizar o diálogo, tanto para acesso ao público quanto para a contextualização da experiência que será encontrada no museu. A contratação de profissionais que vivam no território também foi uma importante ação mencionada por funcionários e pesquisadores.

Outro ponto relevante é que grande parte das atividades cotidianas migraram para o meio digital, um ambiente que segue excludente para o público em vulnerabilidade social, seja por questões de acesso, conexão, dispositivo, seja pelas mesmas questões culturais ou de identidade que excluem os pobres dos museus de ciências. Faz-se urgente repensar políticas públicas de longo prazo para a divulgação da ciência e tecnologia, especialmente aquelas direcionadas ao público em vulnerabilidade socioeconômica.

Os últimos anos, marcados pela pandemia da covid-19, nos trazem a demanda por um novo contrato social entre o campo científico e a sociedade. O escancaramento dos impactos na saúde das iniquidades sociais, o uso político da desinformação como estratégia de mobilização social e a demanda por maior envolvimento da população nas questões científicas nos apresentam um contexto de mudança necessária. Nesse panorama, cabe aos centros e museus de ciência se reafirmarem como espaços democráticos, refletirem sobre seu histórico excludente e como suas representações poderiam traduzir violências simbólicas. Ao mesmo tempo, repensar as práticas imbuídas do racismo estrutural, reafirmando o compromisso de atuarem como um espaço de acolhimento, diálogo e debate, no lugar de simplesmente propagar informações e conteúdos sobre uma ciência distante da realidade da maioria da população.

BOURDIEU, P. Os três estados do capital cultural. In: CATANI, Maria Alice (Org.). Escritos de Educação. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999. p. 71–79.

CASTELFRANCHI, Y. Por que comunicar temas de ciência e tecnologia ao público? (Muitas respostas óbvias… mas uma necessária). In: MASSARANI, Luisa (Org.). Jornalismo e ciência: uma perspectiva ibero-americana. 1. ed. Rio de Janeiro: Museu da Vida, COC, FIOCRUZ, 2010. p. 13–22.

CASTELFRANCHI, Y, Notícias Falsas na Ciência, https://cienciahoje.org.br/artigo/noticias-falsas-na-ciencia/

CENTROS e museus de ciência do Brasil: 2015. Rio de Janeiro: ABCMC, Casa da Ciência, Museu da Vida, 2015. il.

MUSEUS DE CIÊNCIA E SEUS VISITANTES: ESTUDO LONGITUDINAL – 2005, 2009, 2013 / Sonia Mano, Sibele Cazelli, Andréa Fernandes Costa, José Sergio Damico, Loloano Claudionor da Silva, Wailã de Souza Cruz, Vanessa Fernandes Guimarães. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz / Casa de Oswaldo Cruz/ Museu da Vida, 2017.

Instagram Science Capital Brasil, https://www.instagram.com/sciencecapitalbrasil/

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