Peixe ou pterossauro, eis a questão

Museu Nacional/ UFRJ
Academia Brasileira de Ciências
INCT Paleovert

Suposto réptil alado, descrito a partir de restos preservados em um nódulo calcário de 110 milhões de anos encontrado no Brasil, foi questionado por pesquisadores ingleses, que o identificaram como peixe, criando uma controvérsia na comunidade paleontológica

Nódulo calcário estudado pela pesquisadora Rubi Pêgas e colegas, com restos interpretados como arcadas e dentes de um novo pterossauro, Bakiribu, o que foi contestado por David Unwin e colaboradores, que reinterpretaram o material como sendo parte do arco branquial de um peixe de grandes proporções. As linhas pretas indicam diferentes partes que foram atribuídas a um réptil voador; f1 e f2, indicam dois peixes encontrados no mesmo nódulo, que não fazem parte do material principal

CRÉDITO: DAVID UNWIN E COLEGAS, COM BASE NA IMAGEM PUBLICADA POR RUBI PÊGAS E COLEGAS NO TRABALHO ORIGINAL

Peixe ou réptil alado? A polêmica acaba de ser instalada a partir de um trabalho publicado nos Anais da Academia Brasileira de Ciências, a revista de circulação contínua mais antiga do Brasil, que em breve completará seu centenário. David Unwin, da Universidade de Leicester (Reino Unido), e colegas questionaram a descrição de Bakiribu waridza, um suposto pterossauro encontrado em um nódulo calcário formado há 110 milhões de anos, no período Cretáceo, onde hoje se encontra a famosa Chapada do Araripe, no nordeste do Brasil.

A descrição do vertebrado voador foi realizada por Rubi Pêgas, da Universidade de São Paulo, Aline Ghilardi, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e colegas, e foi publicada na Scientific Reports, uma revista do grupo Nature. Apesar de terem sido convidadas para responder às objeções e observações realizadas por Unwin e colegas, Pêgas e Ghilardi recusaram a oferta dos Anais da ABC, informando estarem realizando análises adicionais que poderiam comprovar a natureza reptiliana do exemplar. Aliás, o material está ‘guardado a sete chaves’. Pelo informado, o exemplar está emprestado aos autores do trabalho original e, apenas no segundo semestre deste ano, o ‘pteropeixe’ poderá ser examinado por outros pesquisadores. Enquanto isso, a discórdia está lançada…

Um pterossauro filtrador no Brasil?

A descoberta do polêmico exemplar foi realizada no Museu Câmara Cascudo, situado em Natal, no Rio Grande do Norte – mais uma vez comprovando que importantes achados podem acontecer examinando-se as coleções das instituições. Trata-se de um nódulo calcário, bem típico da Formação Romualdo, da Bacia do Araripe, e que foi formado há aproximadamente 110 milhões de anos, no período Cretáceo. Hoje essa região se encontra há dezenas de quilômetros da costa brasileira, mas, no passado, já foi uma laguna, que abrigava diversas espécies de peixes, com pterossauros sobrevoando o local e dinossauros se movendo em suas margens. Um cenário muito diferente do que se vê hoje em dia nessa belíssima região que é a Chapada do Araripe.

O nódulo calcário foi dividido em dois: uma parte ficou no Museu Câmara Cascudo e a outra foi transferida para o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, situado em Santana do Cariri, no Ceará. Aliás, esse último museu é muito bacana, com centenas de fósseis em exposição. Vale uma visita de quem estiver na região.

Voltando ao nódulo calcário, este, segundo Pêgas e colaboradores, possui restos de dois indivíduos de pterossauros e quatro peixes. Em relação aos fósseis dos répteis voadores, os autores afirmam que se trata, sobretudo, de pedaços de arcadas contendo dentes filiformes, muito parecidos com os do Pterodaustro guinazui, procedente da Argentina e preservado em rochas formadas também há cerca de 110 milhões de anos. A espécie argentina é, até o momento, o pterossauro mais bem especializado para um hábito alimentar filtrador, com cerca de mil dentes usados para filtrar a água em busca de pequenos animais, como crustáceos. Segundo Pêgas e colegas, Bakiribu também teria dentes semelhantes aos de Pterodaustro e seria, portanto, o primeiro pterossauro filtrador encontrado no Brasil. Porém, há controvérsias…

Comparação entre os ‘dentes’ do suposto pterossauro Bakiribu (A – foto; B – desenho), um peixe fóssil do Jurássico da Alemanha (C) e os dentes do pterossauro Ctenochasma, do Jurássico da Alemanha (D). Note que o exemplar brasileiro se assemelha mais ao peixe (C) do que ao pterossauro (D). As setas vermelhas mostram que os dentes estão inseridos diretamente nas arcadas dentárias de Ctenochasma (D), ao contrário do que acontece com o peixe (C) e do suposto pterossauro Bakiribu (A, B). As abreviações signifi – cam: fi lamentos branquiais (gf) e ceratobranquial (cb)

CRÉDITO: DAVID UNWIN E COLEGAS; FIGURAS A E B OBTIDAS A PARTIR DAS IMAGENS DE RUBI PÊGAS E COLEGAS

Seria um grande peixe?

Logo depois do artigo de Pêgas e colegas ter sido publicado, um grupo de pesquisadores ingleses se posicionou contra a descoberta em um pré-print (versão preliminar de um estudo que não passou ainda por avaliação de revista científica, mas garante certa primazia de uma descoberta). Segundo eles, o que Pêgas e colaboradores interpretaram como sendo ossos e dentes de pterossauros são, na verdade, restos do arco branquial de um grande peixe, que, aliás, são relativamente comuns na Formação Romualdo.

Entre os argumentos dos pesquisadores ingleses, está o fato de os supostos dentes de Bakiribu não estarem dispostos de forma simétrica, como se esperaria em um pterossauro, figurando em apenas um dos lados da suposta arcada dentária. Apesar de ser uma observação válida, eles usaram como comparação o pterossauro europeu Ctenochasma, o que, a meu ver, não é o mais adequado, já que Pêgas e colegas acreditam que Bakiribu está mais proximamente relacionado a Pterodaustro, que tem muito mais dentes. Porém, é importante salientar que uma simetria na disposição dos dentes também pode ser observada nesta forma argentina, ao contrário do exemplar brasileiro em discussão.

Outra observação de Unwin e colegas está na marcante diferença da seção transversal dos supostos dentes, que seria subquadrangular (forma quase quadrilátera, mas com os cantos arredondados) em Bakiribu, o que nunca foi verificado em um réptil voador, nem mesmo em Pterodaustro. Também foram apontadas inconsistências nas interpretações das seções histológicas dos supostos dentes apresentadas por Pêgas e colegas. Por exemplo, não se consegue identificar ao microscópio dentina, esmalte ou qualquer semelhança com os dentes de outros pterossauros já amostrados histologicamente, incluindo Pterodaustro.

Sem querer entrar muito nos detalhes dos dois artigos, tomando por base as informações existentes, a chance de Bakiribu ser um pterossauro é muito pequena, e a nova identificação do material como restos de um grande peixe está mais bem fundamentada. 

Apesar do óbvio constrangimento de se confundir um peixe com um pterossauro, é importante que o/a leitor(a) entenda que erros em estudos científicos, incluindo na paleontologia, podem acontecer. No que se refere aos fósseis, muitas vezes o pesquisador tem pouquíssimo material preservado à sua disposição para tirar conclusões, o que é muito frustrante e dificulta as análises. Em 2020, por exemplo, houve o caso de Oculudentavis khaungraae, em que pesquisadores confundiram um lagarto do período Cretáceo preservado em âmbar com uma ave. Assim que o equívoco foi apontado por outros pesquisadores, os autores optaram pela retratação (retirada de circulação) do artigo publicado na revista Nature, o que talvez seja a melhor decisão a tomar no caso de Bakiribu, ao invés de persistir no erro.

Errata
Na coluna Caçadores de Fósseis (“Peixe ou pterossauro, eis a questão”), de autoria de Alexander W. A. Kellner – publicada originalmente no dia 10 de abril de 2026, às 08:43 –, a pesquisadora, Sra. Rubi Pêgas, foi referida por nome incorreto. Em 14 de abril de 2026, às 14:20, a correção foi realizada no texto da coluna, e a Ciência Hoje registra esta errata em atenção ao compromisso editorial com a precisão das informações e com o respeito à identidade de todas as pessoas mencionadas em suas publicações.

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