Peste: uma doença do passado?

Nenhuma outra doença teve tanto impacto na vida das populações humanas quanto a peste. Responsável pela morte de mais de 200 milhões de pessoas, ao longo dos últimos milênios, alterou tragicamente – em diferentes épocas – a ordem social e econômica e o próprio curso da história. Considerada por muitos um castigo divino, ela atingiu indiscriminadamente campos, cidades, pobres, ricos, homens, mulheres, adultos e crianças, deixando marcas no imaginário humano que se refletem em vários aspectos das artes, como na pintura, literatura, poesia, teatro e cinema.

A peste causou, apenas durante a era cristã, três pandemias. A ‘Peste de Justiniano’, a ‘Peste Negra’, e uma ‘Pandemia Contemporânea’, que teve início em 1855 e, para alguns, ainda está em curso

Originária do planalto central da Ásia, a enfermidade causou, apenas durante a era cristã, três pandemias. A primeira, denominada ‘Peste de Justiniano’, afligiu o norte da África, a Europa e o centrosul da Ásia entre os anos 542 e 602, causando elevada mortalidade e contribuindo para o declínio do Império Romano. A segunda, conhecida como ‘Peste Negra’, surgiu na forma pneumônica (a mais letal) e estendeu-se do século 14 ao 16, exterminando um terço da população europeia apenas entre os anos 1347 a 1353.

A terceira, chamada de ‘Pandemia Contemporânea’, teve início na China, em 1855, e pode ser considerada a única de fato pandêmica: graças ao desenvolvimento do transporte marítimo, com a substituição de embarcações a vela pelos navios a vapor, em menos de 50 anos a epidemia se espalhou, atingindo locais até então livres da doença, criando focos naturais em todos os continentes habitados, exceto a Oceania.

Embora alguns considerem que essa terceira pandemia ainda está em curso, sua expansão diminuiu bastante após a Segunda Guerra Mundial, quando os antigos navios, infestados de roedores e pulgas, foram afundados e substituídos por modelos modernos, em geral à prova de ratos. A adoção de medidas eficazes de saúde pública (graças aos conhecimentos científicos adquiridos sobre a bactéria, seus hospedeiros e vetores), o desenvolvimento de medicamentos antimicrobianos, o uso de inseticidas e o controle mais eficiente das populações de roedores possibilitaram que o número de vítimas dessa pandemia fosse significativamente menor que o das anteriores.

A bactéria e a doença

Foi durante a terceira pandemia que, em junho de 1894, o pesquisador suíço naturalizado francês Alexander Yersin (1863-1943) isolou pela primeira vez a bactéria causadora da peste, em cadáveres e em ratos comuns (Rattus rattus). O microorganismo recebeu o nome Yersinia pestis em sua homenagem. Essa bactéria tem a forma de bacilo, curto e ovoide.

A peste, em essência uma doença de roedores, é transmitida principalmente por meio da picada de pulgas infectadas com a bactéria. Das quase 2 mil espécies de roedores identificados, cerca de 230 – dos gêneros Rattus, Cerradomys (Oryzomys), Galea, Trychomys, Olgoryzomys, Calomys e outros – abrigam naturalmente a Y. pestis, que já foi encontrada em mais de 200 das mais de 3 mil espécies de pulgas. Nos focos ainda existentes no Nordeste brasileiro, destaca-se um roedor nativo, o pixuna ou ratinho-do-cerrado (Necromys lasiurus), por viver perto de habitações humanas a apresentar grande densidade populacional e suscetibilidade à doença. Entre as pulgas, as espécies Xenopsylla cheopis, Polygenis bohlsi jordani e Polygenis trypus (que parasitam ratos) são as principais transmissoras da doença.

Rattus rattus
O isolamento pioneiro da bactéria causadora da peste foi realizado pelo suíço naturalizado francês Alexander Yersin (1863-1943) em 1894, a partir de cadáveres e de ratos comuns. (foto: Flickr/ piglicker – CC BY-NC-ND 2.0)

Cães, gatos, coelhos, caprinos e camelos também podem ser hospedeiros da Y. pestis. Apesar da sobrevivência da bactéria em populações animais de muitos locais do mundo, a ocorrência, hoje, de casos humanos é considerada acidental e deve-se principalmente a atividades – como agricultura ou lazer (acampar, caçar, pescar e outras) – que levam pessoas a ecossistemas rurais e campestres, onde vivem roedores que podem estar infectados. Outra possibilidade é a introdução de roedores e pulgas infectadas em ambientes habitados por humanos. A transmissão de pessoa a pessoa é mais rara, mas também pode ocorrer, em geral por via aérea (por gotículas com a bactéria expelidas na tosse ou no espirro).

Clinicamente, a peste humana apresenta três formas principais. A bubônica, mais comum, tem como principal característica a formação de um bubão (inchaço do nódulo linfático) próximo ao local da picada da pulga. Já a peste septicêmica, mais rara, é caracterizada pela presença da bactéria no sangue e por manchas na pele e hemorragias nas extremidades dos membros. A forma pneumônica, considerada a mais grave, tem desenvolvimento rápido, grande letalidade e alto potencial de contágio, e pode causar epidemias por ser mais facilmente transmitida entre as pessoas, na tosse ou no espirro. Em qualquer das três formas, a doença é fatal sem pronto tratamento.

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Camila Tenorio França
Programa de Pós-graduação em Ciências Biológicas
Universidade Federal de Pernambuco e
Departamento de Microbiologia
Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães
Fundação Oswaldo Cruz
Maria Paloma Silva de Barros 
Programa de Pós-graduação em Genética
Universidade Federal de Pernambuco e 
Departamento de Microbiologia
Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães
Fundação Oswaldo Cruz
Tereza Cristina Leal Balbino
Departamento de Microbiologia
Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães
Fundação Oswaldo Cruz
Alzira Maria Paiva de Almeida 
Departamento de Microbiologia
Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães
Fundação Oswaldo Cruz e 
Serviço de Referência Nacional em Peste
Maria Betânea Melo de Oliveira
Departamento de Bioquímica
Universidade Federal de Pernambuco

Matéria publicada em 21.06.2012

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