Duas substâncias capazes de evitar problemas de saúde, extraídas de plantas genuinamente brasileiras, foram patenteadas pela Universidade de São Paulo (USP) e podem ser usadas em breve em produtos cosméticos. Os compostos, obtidos nas folhas do pinheiro-do-paraná e nas raízes da pariparoba, espécies encontradas na mata atlântica, apresentaram efeitos positivos no combate ao envelhecimento e na proteção da pele contra a radiação solar.

Substâncias antioxidantes e antienvelhecimento foram descobertas no pinheiro-do-paraná ( Araucaria angustifolia ), conífera nativa do Sul e Sudeste do Brasil. Fotos: Massuo Jorge Kato (esq.) e Lydia Yamaguchi (dir.) / USP

Do pinheiro-do-paraná ( Araucaria angustifolia ), conífera nativa das regiões Sul e Sudeste do Brasil, foram extraídas (com solventes, após secagem e moagem das folhas) substâncias conhecidas como biflavonóides, que apresentam propriedades antioxidantes (ou seja, protegem contra os chamados radicais livres que danificam as células) e antienvelhecimento. Compostos desse tipo já haviam sido descobertos na planta asiática Ginkgo biloba , mas agora a bioquímica Lydia Fumiko Yamaguchi os identificou na araucária, durante sua tese de doutorado, orientada pelo bioquímico Paolo Di Mascio e o químico Massuo Jorge Kato, do Instituto de Química da USP.

 
Os biflavonóides, segundo a pesquisadora, também protegem a pele dos raios ultravioleta presentes na radiação solar, que podem causar queimaduras e câncer. As propriedades terapêuticas dos biflavonóides podem ser aproveitadas em cosméticos e produtos alimentícios. “Esses compostos ajudam a retardar o envelhecimento não só como antioxidantes, mas também inibindo danos celulares relacionados a enfermidades como artrite e arteriosclerose”, afirma Yamaguchi. Nas plantas, os biflavonóides provavelmente têm função inseticida, fungicida e fotoprotetora.
 
Além dos benefícios terapêuticos, a descoberta também pode ser mais um incentivo para a recuperação do meio ambiente, estimulando o reflorestamento com a araucária (ou pinheiro-do-paraná), cuja floresta está ameaçada de extinção. A possibilidade de coletar parte das folhas (apenas as dos galhos inferiores, por exemplo) para extrair os biflavonóides poderá dar às comunidades rurais um modo sustentável de vida nas regiões de floresta de araucária.
 
Potencial contra o envelhecimento
Em outra frente de pesquisa, uma equipe da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP descobriu que proteger a pele contra os raios ultravioleta é o principal benefício da substância 4-nerolidilcatecol, presente nas raízes da pariparoba ( Pothomorphe umbellata ), planta nativa da mata atlântica. Ensaios mostraram que essa substância ajuda a manter, na pele que recebeu radiação ultravioleta B, níveis normais de concentração de alfa-tocoferol (vitamina E), que evita a oxidação das membranas celulares. Além disso, o 4-nerolidilcatecol impede o espessamento da epiderme (um dos processos precursores da formação do câncer de pele) e adia o envelhecimento, ao evitar que a elastina (proteína responsável pela elasticidade da pele) se torne mais densa, um dos fatores que levam às rugas.
 
 

Uma substância presente nas raízes da pariparoba ( Pothomorphe umbellata ), planta nativa da mata atlântica, protege a pele contra os raios ultravioleta (foto: Cristina Ropke)

A descoberta foi o tema da tese de doutorado em farmácia de Cristina Dislich Ropke, orientada pela farmacêutica-bioquímica Silvia Berlanga de Moraes Barros. Segundo Barros, o 4-nerolidilcatecol apresentou, em experiências in vitro , um potencial antioxidante 10 vezes maior que o do alfa-tocoferol, já amplamente usado no mercado em formulações cosméticas. Esses resultados comprovam sua eficácia no combate aos radicais livres”, completa.

 
Após a lavagem, secagem e moagem das raízes da pariparoba, foi utilizada a técnica de percolação (uma espécie de filtragem) para a obtenção do extrato bruto, a partir do qual se chegou ao extrato seco, que pode conter até 23% de 4-nerolidilcatecol. O próximo passo foi transformar o extrato em uma forma farmacêutica e testar sua eficácia em camundongos sem pêlo. Constatou-se, nesses testes, que os animais nos quais o produto foi aplicado apresentaram, após várias sessões de exposição aos raios ultravioleta B, menor hiperplasia epitelial (aumento excessivo do número de células da epiderme da pele) do que animais não protegidos – essa redução chegou a 50%.
 
Nas plantas, o 4-nerolidilcatecol deve agir também como antioxidante. O próximo desafio dos pesquisadores é entender os mecanismos bioquímicos do controle da hiperplasia e da expressão da elastina, o que permitirá produzir fármacos que amenizem o processo natural de envelhecimento e evitem ou minimizem o câncer de pele. Empresas do setor de cosméticos já estão elaborando produtos à base de extrato de pariparoba para lançamento futuro.
 
Pesquisas como essas revelam a importância crucial da flora brasileira para a melhora na qualidade de vida das pessoas. A cura e a prevenção de doenças dependem da manutenção da imensa biodiversidade das florestas. Nesse aspecto, o Brasil ocupa uma posição de destaque entre os países produtores de compostos extraídos de vegetais, graças à riqueza florística da Amazônia, do Pantanal, da mata atlântica (ou do que restou dela) e das demais florestas do país. Tornam-se mais relevantes, portanto, a preservação dessa biodiversidade e o combate à biopirataria.

Ricardo Diaz
Especial para Ciência Hoje/RJ

 

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