O corpo pendia de uma tábua, preso por um cadarço ou liga vermelha que lhe envolvia o pescoço. “Na manhã de 4 de julho de 1789, menos de 48 horas depois de ter se desmandado na sessão de interrogatório, incriminando os amigos mais queridos, Cláudio Manuel da Costa foi encontrado morto num quarto improvisado de calabouço… roído pelo remorso, pelo asco de si próprio, assistindo à passagem vertiginosa da sua vida – como dizem que acontece aos moribundos…”. Eis a descrição dos últimos momentos do poeta mineiro nas palavras de Laura de Mello e Souza que, não sem tempo, fez a biografia que o poeta merecia.

O leitor não terá a menor dúvida, depois de ler essa biografia, que Cláudio Manuel da Costa pôs fim à própria vida

Suicídio ou assassinato? Os historiadores divergem sobre como morreu, afinal, esse grande árcade das Minas setecentistas, autor do célebre poema épico Vila Rica, e integrante da não menos célebre Inconfidência Mineira. Laura sugere que Cláudio se matou, não com base em novas evidências sobre o episódio, senão pelo que conseguiu reconstruir da vida, personalidade e sentimentos do biografado. O leitor não terá a menor dúvida, depois de ler essa biografia, que Cláudio Manuel da Costa pôs fim à própria vida, atormentado por mil demônios, coberto de desonra e vergonha.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), em artigo clássico de 1979, afirmou que toda biografia histórica tende a produzir uma “ilusão biográfica”. Parte-se de um nome cuja importância histórica é, em certa medida, reconhecida academicamente e, ato contínuo, constrói-se uma narrativa linear que dá sentido à vida do biografado enquanto personagem. Segundo Bourdieu, o biógrafo constrói uma “coerência de vida”, para o bem ou para o mal, que pouco tem a ver com a história do biografado.

Isso vale para a biografia de Cláudio Manuel da Costa? Vale e não vale, ao mesmo tempo, quer para essa biografia, quer para muitas outras biografias históricas. Vale porque, para o historiador, a opção de reconstituir (o verbo é mesmo esse) a vida de algum personagem – seja graúdo, seja minúsculo – tem a ver com o seu destino, com o papel que desempenhou em determinado fato ou processo, com seu eventual valor de exemplo de grupos ou movimentos sociais. Há um grau elevado de convencionalismo narrativo que é próprio do gênero biográfico, seja da biografia histórica, seja da biografia tout court.

Toda a história ali contada o é através de uma sucessão de dilemas e incertezas, de um combate sem trégua entre a razão e o sentimento

Criar ou não ilusões é algo que depende do historiador, de seu engajamento, de sua relação com o personagem, de sua perícia no manejo das fontes, da prudência maior ou menor das interpretações. Em todo caso, a biografia de Cláudio assinada por Laura resistiria à crítica teoricista e generalizante que faz Bourdieu aos biógrafos. No mínimo porque toda a história ali contada o é através de uma sucessão de dilemas e incertezas, de um combate sem trégua entre a razão e o sentimento, entre a ordem e a subversão. Um mar de possibilidades que fervilharam na vida do poeta insurgente. Que foi também burocrata diligente do império português nas partes do Brasil.

Claudio Manuel da Costa
Desenho retrata Cláudio Manuel da Costa: ordem e subversão convivem na mesma pessoa. (imagem: Wikimedia Commons)

Nascido em Minas, filho de pai português e mãe paulista, Cláudio estudou no colégio inaciano do Rio de Janeiro, depois em Coimbra. Bacharel em Leis, tentou a carreira eclesiástica nos anos 1750, mas dela desistiu, um tanto pela demora das diligências de genere et moribus, outro tanto porque se enamorou da escrava Francisca Arcângela, que lhe deu cinco filhos e ganhou a liberdade, além da responsabilidade de gerir sua casa. Desde 1760 se tornou mais um burocrata, entre outros do império português – almotacé da Câmara de Mariana, procurador substituto da Coroa e da Fazenda. Exerceu com êxito a advocacia, em Minas, e tornou-se juiz. A vida de Cláudio Manuel da Costa não teria a menor graça não fosse, em primeiro lugar, o seu talento literário e o envolvimento na Inconfidência; em segundo lugar, a perícia da biógrafa na tessitura da história.

Laura de Mello e Souza consegue, por meio da biografia em foco, contar a história do povoamento das Minas, movido pela cobiça de todos; os modos de governar do Antigo Regime em partes ultramarinas, com a sistêmica mescla entre o público e o privado; as tensões sociais e políticas do fim do século 18, prelúdio da conjuração nas Gerais. Esta é uma dimensão do livro convencionalmente histórica: a biografia se sustenta pela exemplaridade; Cláudio não passa de um burocrata do sistema; fica-se conhecendo, em detalhe, os estilos governativos do “viver em colônias”.

Mas não reside aí o melhor do livro, senão na articulação entre a vida pública de Cláudio e suas ideias expressas na literatura, o esboço de um espírito crítico (sem deixar de ser áulico) na epopeia da fundação de Minas. Melhor ainda é a articulação entre a vida pública do poeta com as cogitações que faz a autora sobre sua vida privada – pouco documentada – mas presumível em vários aspectos. Refiro-me à ambição de Cláudio por posições maiores e mais bem remuneradas, seu complexo de inferioridade por ser brasileiro, não mais do que um “letrado de aldeia” – Nelson Rodrigues diria que Cláudio foi um precursor do ‘complexo de vira-lata’ que flagela os brasileiros.

Do envolvimento de Cláudio na Inconfidência e da própria conjuração, Laura diz tudo, e naturalmente enfatiza os protestos de inocência de Cláudio, depois de preso, mormente seu empenho loquaz em delatar os companheiros. Queria se livrar dos piores castigos. Fraqueza humana, face nada edificante do poeta, que sentiu o próprio golpe, ferido pelo sentimento de culpa. Era mesmo melancólico por natureza, Laura nos convence disso.

A maior qualidade do livro, porém, não está na articulação disso ou daquilo, senão na narrativa literária esmeradíssima

A maior qualidade do livro, porém, não está na articulação disso ou daquilo, senão na narrativa literária esmeradíssima. O livro parece uma novela que começa mansinha e, com o desenrolar dos capítulos, tensiona o leitor até alcançar nível dramático, emocionante, trágico. É livro de história ou de ficção? Livro de história, claro, mas temperado pela imaginação da autora, que sabe preencher, como poucos, as lacunas de informação por meio da cogitação de possibilidades. Ousa mesmo diversas interpretações psicologizantes, todas verossímeis, algumas absolutamente verdadeiras, ainda que as fontes não ajudem. Em certos casos, raríssimos e bem calculados, vale parodiar o cronista Fernando Calazans: se as fontes não ajudam, azar das fontes. O livro, em todo caso, é de uma consistência histórica impecável.

Não é de hoje que considero Laura de Mello e Souza a mais brilhante historiadora brasileira dos últimos tempos. Externei essa opinião em um artigo, ainda nos anos 1980, deslumbrado com a mistura de pesquisa e narrativa que ela faz como ninguém. Passaram-se décadas e minha opinião continua a mesma – robustecida pela idade e experiência. Gerações de estudantes e pesquisadores acham o mesmo, desde então, e tomam a obra de Laura como modelo e inspiração. A tais qualidades, Laura acrescentou um refinamento literário que, apesar dele mesmo, não descura da prova empírica – e lamenta quando ela falta. “O historiador vive às voltas com os limites fluidos entre a verdade e a mentira, o fato e a ficção, a narrativa e a ciência…” No caso do suicídio de Cláudio Manuel da Costa, diz Laura, “nunca se saberá se o fez por desespero ou excesso de razão”.

Cláudio Manuel da Costa
Laura de Mello e Souza
São Paulo, 2011, Companhia das Letras
272 páginas – R$ 29,50

 

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Ronaldo Vainfas 
Departamento de História
Universidade Federal Fluminense

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