Coma menos e viva mais. Esse foi o modo como a mídia resumiu e divulgou os resultados de várias pesquisas que apontavam uma relação entre a redução na quantidade de calorias ingeridas e o aumento da longevidade. Agora, novos resultados esquentam o debate em torno dessa antiga discussão. Segundo artigo publicado em PloS Biology (vol. 3, n. 7, 2005), a expectativa de vida não é afetada pela redução calórica – ou, mais especificamente, de carboidratos –, mas sim pela diminuição de certos nutrientes da dieta, como gorduras e proteínas.
 
A dieta apresenta um forte impacto sobre a nutrição humana. Assim, vários estudos vêm buscando condições ideais de qualidade e quantidade de nutrientes na dieta para tratar patologias e melhorar a qualidade de vida dos seres humanos. Nesse contexto, a redução no consumo de nutrientes tem sido relacionada com um aumento na expectativa de vida de vários organismos, de microrganismos, nematódeos e insetos a aracnídeos, peixes e mamíferos.
 
Essa redução no consumo de nutrientes é chamada restrição dietética e comumente relacionada com uma diminuição na ingestão de calorias. Estudo recente, porém, mostrou que, nas Drosophila melanogaster – popularmente conhecidas como moscas-das-frutas –, a simples redução na ingestão calórica não apresenta os mesmos resultados sobre o aumento da expectativa de vida que a diminuição de determinados tipos de nutrientes específicos. O estudo observou um efeito muito limitado sobre o aumento da expectativa de vida das moscas ao se diminuir a ingestão de açúcares. Mas a restrição da ingestão de outros nutrientes – como proteínas e gorduras –, sem a redução significativa no consumo de carboidratos, apresentou um aumento bastante significativo na expectativa de vida desses insetos. 
 
Apresentados pelo grupo de Linda Partridge, do Centro para a Pesquisa em Envelhecimento do Departamento de Biologia da University College London, em Londres (Reino Unido), esses resultados mostram que, embora a restrição dietética comprovadamente aumente a expectativa de vida, esse efeito não pode ser atribuído à simples diminuição na ingestão de calorias, mas sim aos efeitos da diminuição de alguns nutrientes específicos da dieta.
 
O artigo de Partridge e colegas – disponível em www.plosbiology.org – é muito interessante e esquenta uma antiga discussão sobre a importância da proporção dos diferentes nutrientes que compõem nossa alimentação – carboidratos, proteínas e gorduras, que são denominados macronutrientes, por representarem a maior proporção da dieta –, bem como  vitaminas e minerais, denominados micronutrientes.
 
Vários estudos já demonstraram que variações nas proporções dos nutrientes da dieta promovem profundas alterações nos organismos vivos. Nesse contexto, podem ser citados os quadros de diabetes mellitus induzidos por dietas compostas basicamente por carboidratos simples – como o açúcar refinado – e as dietas de emagrecimento baseadas na eliminação dos carboidratos – as chamadas dietas cetogênicas –, que promovem uma rápida perda de peso corporal, embora estejam associadas ao desenvolvimento de certas doenças. Apesar das evidências da grande importância da composição da dieta, uma atenção bem maior tem sido dada à quantidade de calorias ingeridas.
 
O valor calórico tem sido uma forma de se avaliar dietas com relação à sua capacidade de fornecer energia para o organismo. Mas não há, em qualquer ser vivo, mecanismos capazes de perceber a quantidade de calorias ingeridas na dieta. A regulação da ingestão de alimentos por mamíferos, por exemplo, é sinalizada pela percepção de alguns tipos de nutrientes que levam a alterações nos perfis de liberação hormonal que controlam a sensação de fome e, conseqüentemente, a ingestão de alimentos.
 
Essas mudanças nos padrões de liberação hormonal envolvem também os hormônios que controlam o crescimento e o envelhecimento das células, bem como o destino dos nutrientes no organismo. Assim, dependendo do tipo de nutriente que é ingerido, nosso corpo pode:
 
i) armazená-los normalmente na forma de gorduras e glicogênio (um tipo de carboidrato);
ii) sintetizar (‘fabricar’) proteínas aumentando a massa muscular;
iii) promover o retardo do envelhecimento celular e prolongar a expectativa de vida do indivíduo.
 
Da mesma forma, variações nas proporções dos diferentes nutrientes da dieta estão associadas ao desenvolvimento de doenças como hipertensão arterial, obesidade, mal de Alzheimer, entre outras.
 
É sabido que dietas orientais, baseadas em uma menor ingestão de carboidratos simples e gorduras saturadas – estas presentes em derivados do leite, por exemplo –, são parcialmente responsáveis pela menor incidência de quadros de obesidade e diabetes mellitus. Assim como dietas mediterrâneas – nas quais há o consumo de boa quantidade de óleos e outros derivados vegetais, como gorduras insaturadas e taninos – estão associadas a uma menor incidência de infartos do miocárdio e quadros de aterosclerose (doença degenerativa que leva à obstrução das artérias pelo acúmulo em suas paredes de placas de gordura). Ambas as dietas também têm sido relacionadas a um aumento da longevidade, embora nenhuma delas apresente restrição calórica de qualquer espécie.
 
Os mecanismos que levam a esses efeitos – ou seja, menor incidência de doenças e aumento da longevidade – ainda são pouco conhecidos, apesar do grande esforço da comunidade científica em tentar elucidá-los. Isso se deve à complexa rede de informação que envolve todos esses processos, o que torna impossível isolar poucos fatores responsáveis por eventos específicos, como o aumento da expectativa de vida. Mas é possível afirmar que a simples redução na quantidade de calorias da dieta não é um parâmetro a ser considerado para o aumento da longevidade, mas sim a redução de alguns tipos de nutrientes específicos.
 

O trabalho de Partridge e colegas sugere que a redução na ingestão de carboidratos não afeta a longevidade, que é alterada pela redução na ingestão de proteínas e gorduras. Contudo, ainda é cedo para afirmar que a longevidade em seres humanos é afetada pela redução somente destes dois últimos tipos de nutrientes.

Patricia Zancan e
Mauro Sola-Penna
Laboratório de Enzimologia e Controle do Metabolismo,
Faculdade de Farmácia,
Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

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