Com tudo isso, parece haver uma diferença importante entre a cultura da matemática e a lógica da corrida tecnológica. Uma empresa de inteligência artificial tem boas razões para querer demonstrar que seu sistema resolveu um problema extraordinariamente difícil. É uma maneira poderosa de mostrar capacidade.
Um problema aberto por décadas ou séculos parece um teste perfeito: estava lá, era difícil, tinha uma resposta verificável e, de repente, uma máquina o resolveu.
Para a matemática, porém, o valor de uma descoberta não está necessariamente na dificuldade do problema que ela derrotou. Um problema famoso pode ser importante justamente porque, ao tentar resolvê-lo, alguém inventou uma ideia que mudou toda uma área.
A solução de um problema pode ser menos importante do que o método que ela revelou.
Essa diferença é fácil de perder quando começamos a medir o progresso por placares: quantos problemas foram resolvidos; qual era o nível de dificuldade; quanto tempo a máquina levou.
É uma tentação compreensível, porque problemas resolvidos são fáceis de contar; ideias novas são bem mais difíceis.
Talvez, esse seja um dos desafios mais interessantes da entrada da inteligência artificial na pesquisa matemática. Não precisamos decidir se devemos permitir ou proibir máquinas fazendo matemática: elas já a estão fazendo, e seria difícil imaginar um retorno ao mundo anterior.
A questão é aprender como e quando usá-las. Podemos imaginar uma inteligência artificial como uma espécie de assistente incansável de exploração para fazer o trabalho mais cansativo, repetitivo, com o bônus de, eventualmente, ter insights e conexões que não havíamos percebido.
Nesse cenário, a máquina pode ampliar o alcance da investigação, embora reste avaliar em que medida isso se traduz em compreensão efetiva.
Mas também podemos imaginar outra situação, em que a velocidade de produção de resultados se torna tão importante que passamos a produzir mais matemática do que consigamos compreender. É tentador pensar que a diferença entre esses dois futuros será definida pelas escolhas de matemáticos, universidades, institutos de pesquisa, revistas científicas, empresas e agências de financiamento.
Essas escolhas serão importantes, mas não acontecem em um espaço neutro. Grandes empresas de tecnologia investem recursos consideráveis no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial e têm interesse em ampliar continuamente suas capacidades e aplicações.
Se uma máquina consegue explorar mais caminhos, produzir resultados mais rapidamente e conferir uma vantagem a quem a utiliza, a adoção dessas ferramentas tende a deixar de ser só uma questão de escolha individual.
A própria dinâmica da pesquisa pode criar uma pressão para acompanhar esse novo ritmo.
O desafio, portanto, será encontrar espaço para decidir como e para que queremos usar essas ferramentas antes que a velocidade de sua adoção passe a determinar, por si mesma, os modos de fazer pesquisa.
Conduzir essa transformação exigirá mais do que acompanhar seus avanços: será preciso discutir seus objetivos, critérios e limites.
Curiosamente, o movimento se inverteu. Se antes a matemática servia para projetar máquinas mais eficientes, hoje, são essas máquinas que começam a gerar resultados capazes de redefinir o que entendemos por pesquisa matemática.
Pode ser que estejamos diante só de uma nova ferramenta, ou, talvez, seja algo muito maior do que isso. Ainda não sabemos. Mas já sabemos que a pergunta deixou de ser simplesmente se uma máquina consegue fazer uma conta ou resolver um problema.
Ela começa a se encaminhar para ser: o que queremos que aconteça com a matemática, agora que a máquina também pode participar da descoberta?