Rosa para meninas, azul para meninos: nem sempre foi assim

Laboratório de Biologia de Anaeróbios
Instituto de Microbiologia Paulo de Góes
Universidade Federal do Rio de Janeiro

O que revelam as poucas pesquisas que se dedicam a descobrir as origens da associação de cores a gênero

CRÉDITO: ADOBE STOCK

Nas grandes lojas de departamento, é fácil identificar onde estão as roupas infantis femininas e masculinas. Se rosa é a cor dominante, já se sabe, é o lado das meninas. E se predominar o azul, dos meninos. O padrão se repete, tradicionalmente, nos enxovais de bebê e – não podemos esquecer – nos chás de revelação, com fumaça e alimentos coloridos e o que mais a criatividade de pais e mães for capaz de produzir. Azul e rosa se tornaram tão simbólicas do gênero dos bebês que é frequente observar meninos recusando brinquedos e roupas cor-de-rosa.

Mas nem sempre foi assim. Relacionar essas cores a meninas e meninos é um costume recente. Antes do século 20, os bebês usavam principalmente roupas de tons neutros, principalmente o branco. Além disso, o figurino das crianças era parecido, independentemente do gênero: camisolões brancos que se assemelhavam a vestidos. Era também uma questão de praticidade porque as peças brancas são mais fáceis de lavar com sabão e alvejante, sem o risco de desbotar como as roupas coloridas, que, além disso, eram caras na época. Quando as crianças completavam 6 ou 7 anos e ingressavam nas escolas, aí sim começavam a usar roupas associadas a gênero. Nessa idade, os meninos também ganhavam seu primeiro corte de cabelo.

Há poucas pesquisas históricas publicadas sobre como essas cores passaram a ser associadas ao gênero. A pesquisadora norte-americana Jo Paoletti, professora emérita da Universidade de Maryland (EUA), é uma das poucas cientistas a estudar esse fenômeno. Durante 40 anos, ela investigou e escreveu sobre as diferenças de gênero na moda americana. Paoletti descobriu que o processo de adoção de cores específicas para meninos e meninas foi lento e gradual, com diversas idas e vindas, e que se consolidou no modelo atual apenas a partir da década de 1980.

Paoletti descobriu que o processo de adoção de cores específicas para meninos e meninas foi lento e gradual, com diversas idas e vindas, e que se consolidou no modelo atual apenas a partir da década de 1980

Tecnologia e moda

Os tons pastel na vestimenta infantil começaram a ser usados em meados do século 19, a partir da descoberta de novos pigmentos para tecidos e métodos para lavagem de roupas, mas, até o século 20, não havia essa tradição de rosa e azul. Paoletti pesquisou em catálogos de grandes lojas de departamento, em revistas e jornais, em livros infantis, e, até mesmo, observou brinquedos e bonecas desde o século 19. Ela descobriu que as tendências de uso das cores variavam muito e não havia consenso. As lojas de departamento, que ditavam a moda nos Estados Unidos na época, até chegaram a recomendar que meninos usassem rosa e meninas azul, mas sem tanto sucesso.

O rosa era entendido como um vermelho claro, mais adequado para crianças, já que o vermelho era associado a masculinidade, realeza, força e vigor. Já o azul era considerado uma cor mais feminina. Especulações foram feitas sobre essa observação, e surgiu a hipótese de que, nos EUA, o rosa era associado aos homens e o azul às mulheres até a década de 1940, quando houve uma inversão rápida e completa.

Para investigar essa teoria, o pesquisador Italiano da Universidade do Novo México (EUA) Marco Del Giudice usou uma ferramenta chamada de “Ngram viewer” para inspecionar milhares de livros digitalizados, do período entre 1890 e 1980. Essa ferramenta permite acompanhar a frequência do uso de palavras e expressões publicadas em livros ao longo do tempo. Ele usou termos como “azul para meninos” e “rosa para meninas”, mas não encontrou evidências dessa inversão no uso das cores. Ele até cunhou o termo “teoria da inversão rosa-azul” (do inglês “pink and blue reversal – PBR”), para representar essa ideia, mas nem ele e nem Paoletti acreditam que essa teoria seja verdadeira.

A partir do início do século 20, o azul para meninos e o rosa para meninas foram adotados aos poucos. Sabe-se que houve grande influência do mercado e dos varejistas de produtos para bebês e crianças nessa escolha. Afinal, criar nichos de mercado é uma estratégia muito lucrativa, mas até mesmo esse tipo de estratégia era inconsistente. Algumas lojas sugeriam outros tons de cor, ou até mesmo que a escolha fosse direcionada pelo tom de pele e cor do cabelo e dos olhos dos bebês. Também foi observada uma grande variação regional entre lojas de diferentes estados dos EUA. De qualquer maneira, é pouco provável que essa estratégia tenha sido criada por esses setores. Os cientistas sociais acreditam que os grandes varejistas acompanharam as tendências que emergiram na sociedade. As grandes perguntas são por que essa tendência emergiu e por que nós criamos esse sistema tão restritivo de cores.

Os cientistas sociais acreditam que os grandes varejistas acompanharam as tendências que emergiram na sociedade. As grandes perguntas são por que essa tendência emergiu e por que nós criamos esse sistema tão restritivo de cores

Origem na evolução?

A escolha das cores rosa e azul em relação ao gênero pode ser mais do que uma curiosidade sociológica. Alguns pesquisadores sugerem que as preferências por cores diferenciadas pelo sexo teriam uma base biológica e refletiriam predisposições evolutivas, além do aprendizado social. Estudos sobre preferência de cores entre gêneros, realizados já no século 21, mostram que existem pequenas diferenças entre homens e mulheres adultos, mas com grande sobreposição, entre essas preferências, e com grande influência do contexto social e cultural. Para surpresa de muita gente, esses estudos indicam que a cor azul é amplamente preferida por ambos os sexos, mas as mulheres também têm maior preferência por tons mais avermelhados e roxos, enquanto homens mostram uma inclinação maior por azuis e verdes. Nessas pesquisas, o rosa não se destaca como uma cor de preferência, nem de homens e nem de mulheres.

Entre crianças, existem estudos que mostram que meninas começam a mostrar preferência pelo rosa a partir dos 3 anos, idade em que surge a rejeição dessa cor pelos meninos. Essa observação é robusta em crianças que vivem em países ocidentais e industrializados, expostas à mídia e ao mercado de consumo. Já em sociedades tradicionais, como indígenas da Amazônia e povos tradicionais de Vanuatu (Oceania) e do Congo, essa preferência pelo rosa entre meninas não é significativa.

Alguns cientistas especulam que essa preferência por tons avermelhados está relacionada a adaptações biológicas. Por exemplo, mulheres teriam maior capacidade de detectar mudanças na cor da face de potenciais parceiros, como um aumento na vermelhidão na face causado por mudanças na circulação sanguínea periférica em adultos ou maior sensibilidade à maior vermelhidão da pele de recém-nascidos e lactentes. Outra hipótese distinta é que essa especialização em detectar tons vermelhos facilitaria identificar frutos maduros em um fundo verde, algo relacionado com o papel de coletoras em sociedades de caçadores-coletores. Essas hipóteses são altamente especulativas e muito criticadas, mas mesmo que não existam estudos corroborando essas teorias, tampouco existem estudos as descartando.

A maioria dos pesquisadores concorda que, mesmo com essas diferenças genéticas, não há evidências convincentes para explicar uma preferência inata pelo rosa entre as mulheres

Genética e cores

A percepção de cores em humanos acontece em células da nossa retina, chamadas de bastonetes e cones. Essas células produzem as opsinas, proteínas que respondem à luz refletida por objetos que estão ao nosso redor e transformam essa informação em sinais elétricos que podem ser interpretados pelo cérebro em milhões de cores. Existem muitos tipos de opsinas, mas três delas são responsáveis pela detecção de cores, ou na verdade diferentes comprimentos de onda da luz: curto, médio e longo. São as opsinas S (short, que detectam principalmente as cores na faixa do azul), M (medium, cores na faixa do verde) e L (large, cores na faixa do vermelho). Homens e mulheres compartilham desse mecanismo de visão, mas a genética das opsinas é ligeiramente diferente. Por exemplo, daltonismo é mais comum em homens, já que os genes que codificam as opsinas M e L estão localizados no cromossomo X. Em alguns casos raros, mulheres que possuem versões diferentes do gene de uma opsina em cada cromossomo X podem expressar quatro tipos funcionais de cones, em vez dos três habituais. Esse fenômeno é conhecido como tetracromacia, e as portadoras desses genes têm um tipo de superpoder, elas conseguem distinguir diferenças extremamente sutis entre tons que a maioria das pessoas considera idênticos.

A maioria dos pesquisadores concorda que, mesmo com essas diferenças genéticas, não há evidências convincentes para explicar uma preferência inata pelo rosa entre as mulheres. A explicação mais aceita é que há um forte aprendizado cultural, que poderia ter sido guiado por uma modesta predisposição genética, mas mesmo essa simples hipótese carece de mais estudos. É mais provável que essa diferença seja o resultado de pressões do mercado que, ao longo das últimas décadas, criou um marcador cultural de identidade. E que, diga-se de passagem, é muito lucrativo.

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