Que tal um disco rígido de computador no qual você poderia guardar uma quantidade de informação equivalente a 75 mil DVDs? E se esse equipamento sobrevivesse a um incêndio e pudesse ser lido daqui a 1 milhão de anos?

A chamada memória de Super-homem só existe, por enquanto, no laboratório de Jingyu Zhang, da Universidade de Southampton (Reino Unido). Mas o protótipo promete. Nele, a informação é gravada em quartzo fundido – pode-se imaginar esse material como um tipo de vidro. E, caso ele fosse do tamanho de um disco rígido, suportaria cerca de 360 trilhões de bytes. Ou seja, 360 vezes mais do que um disco rígido padrão de hoje.

Por que tamanha capacidade? Porque, nas três placas de quartzo que formam o protótipo – separadas por 0,5 milésimo de milímetro –, a informação é gravada em cinco dimensões: as três dimensões espaciais (altura, largura e comprimento), bem como duas outras, relacionadas à intensidade da luz e à direção espacial na qual a onda de luz oscila (tecnicamente, denominada polaridade). Por isso, o nome memória 5D, como vem sendo chamada também.

A gravação é feita com um laser absurdamente veloz e que produz pulsos de luz repetitivos. Esses ‘pacotes’ de luz, ao incidirem sobre o quartzo, o ‘derretem’, alterando o chamado índice de refração do local, ou seja, o modo como a luz se desvia ao passar por essas regiões. Essas microrregiões (ou pontos) representam o ‘1’; as outras, que o laser não atingiu, o ‘0’.

O protótipo ainda não pode ser levado para um computador pessoal e nem dá para confiar nele para guardar fotos, músicas e documentos

Para mostrar a viabilidade de estocar informação nas placas de quartzo, a equipe de Zhang gravou ali míseros 300 mil bytes (300 kB), no formato de um texto. Para ler essa informação, eles usaram um microscópio convencional, juntamente com um filtro de luz. Zhang explica à CH que o texto gravado foi o artigo em que a equipe descreveu a memória 5D.

Certo, não que ainda possa ser levado para um computador pessoal e nem dá para confiar nele para guardar fotos, músicas e documentos. Mas Zhang já está trabalhando em um método factível de ler as informações gravadas na memória de Super-homem – por sinal, o nome é inspirado em uma cena de um dos filmes da série em que o super-herói resgata informações armazenadas em cristais que lembram grandes fragmentos de quartzo.

O problema maior nem é a leitura dos dados, pois um sistema mais simples já está em desenvolvimento e pode se tornar eficiente e compacto para ser usado em grandes sistemas computacionais. O obstáculo é, sim, a técnica para gravar a informação, pois o laser ultraveloz usado no protótipo é caro. Mas Zhang é otimista e já pensa em multiplicar por mil a velocidade de gravação na supermemória de quartzo fundido, material extremamente estável – daí, a informação nele gravada permanecer por cerca de 1 milhão de anos – e que aguenta temperaturas por volta de 1 mil graus celsius.

Cássio Leite Vieira
Ciência Hoje/ RJ

Texto originalmente publicado na CH 307 (setembro de 2013).

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