Opostos e complementares

Sérgio Ferreira e Clotilde Rossetti se conheceram ainda estudantes, em um congresso da União Estadual dos Estudantes (UEE) no final da década de 1950. Ele, representante estudantil da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Ela, do Departamento de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Da amizade veio o namoro, o noivado, o casamento, os filhos, os netos e, além disso, uma parceria que se completa também na vida profissional. Não que trabalhem juntos. Ao contrário, cada qual trilhou seu caminho profissional e consolidou sua carreira acadêmica em áreas distintas.

Sérgio Ferreira construiu sua trajetória na farmacologia. Recém-formado médico pela USP (1960), iniciou sua carreira de pesquisador na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP/USP), junto ao grupo de jovens e dinâmicos pesquisadores que se reunia à volta de Maurício Oscar da Rocha e Silva. Em Ribeirão Preto, onde ainda hoje, aos 79 anos, atua como livre-docente, Ferreira obteve seu doutorado em farmacologia (1964) e realizou a descoberta que o tornou reconhecido internacionalmente: o fator potenciador da bradicinina, peptídeo que deu origem aos atuais remédios para controle da pressão arterial.

Golpe do destino, a carreira de ambos foi favorecida pelo que é considerado por muitos a maior tragédia política do país: o golpe militar de 1964

Clotilde Rossetti, por sua vez, fincou sólidas raízes acadêmicas na área de psicologia do desenvolvimento e educação infantil, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP/USP), onde é atualmente titular e professora emérita. Licenciada em filosofia pela PUC-SP e especialista em psicologia clínica pelo Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo, tornou-se reconhecida como uma das principais autoridades brasileiras em desenvolvimento humano e educação infantil.

Golpe do destino, a carreira de ambos foi favorecida pelo que é considerado por muitos a maior tragédia política do país: o golpe militar de 1964. Embora não vinculados diretamente a partidos ou à militância direta, Sérgio e Clotilde sempre foram referências políticas importantes, principalmente entre os estudantes. Vigiados e sentindo-se sob ameaça, decidiram sair do país, conciliando a necessidade política estratégica com o desejo de se aprimorar academicamente.

Na Inglaterra, Sérgio Ferreira obteve seu primeiro pós-doutorado (1967) no Royal College of Surgeons, trabalhando no grupo liderado por John Robert Vane, ganhador do Nobel de Medicina de 1982 por pesquisas sobre prostaglandinas. No mesmo período, entre 1965 e 67, Clotilde Rossetti fez seu doutorado no Instituto de Educação da Universidade de Londres, debruçando-se sobre o tema Interação mãe-criança sob orientação de Brian Foss e James Douglas, depois de ter nascido um segundo filho. 

Sérgio Ferreira e Clotilde Rossetti
Sérgio Ferreira e Clotilde Rossetti em álbum de família, em 1995. (foto: Vera Di Rosa)

Os tempos de ‘autoexílio’ na Inglaterra foram tempos difíceis para o casal: além das dificuldades em se estabelecer em um novo país, havia a falta de dinheiro – recorda-se Ferreira. E os cuidados com os dois filhos pequenos, além do terceiro que estava a caminho – lembra Rossetti.

Talvez o mais importante benefício do autoexílio tenha sido o fortalecimento da solidariedade e da cumplicidade, que se tornaram a marca diferencial desse casal

Também o retorno não foi fácil: iludidos com as notícias que chegavam sobre o abrandamento da ditadura no Brasil, o casal fez uma tentativa de volta em 1968, mas a permanência foi breve e frustrante. O regime endurecia e o risco aumentava, o que os obrigou a nova saída do país, no início da década de 1970. 

A contrapartida positiva de mais essa saída obrigatória foram os novos estudos, os pós-doutorados, as publicações e as novas aprendizagens obtidas no exterior. Além disso, talvez o mais importante benefício tenha sido o fortalecimento da solidariedade e da cumplicidade, que se tornaram a marca diferencial desse casal. Afinal, como se revela ao longo desta entrevista – que Ciência Hoje publica como um perfil duplo e uma homenagem a ambos –, embora tenham ideias, opiniões e até modos de pensar e agir muito diferentes, é inegável que Sérgio Ferreira e Clotilde Rossetti são exemplos de opostos que se complementam. 

Certa vez o senhor comentou que, se a descoberta do fator potenciador da bradicinina fosse feita hoje, o senhor seria milionário. É isso mesmo?
Sérgio: 
Sem dúvida. Naquele tempo, não tínhamos uma indústria nacional capaz de tocar a produção de um medicamento com base na descoberta e muito menos um sistema de patentes. Hoje, seria diferente. A indústria nacional está mais bem estruturada, embora quem a domine sejam os grandes laboratórios internacionais. Hoje, poderíamos patentear ou participar da patente do produto gerado. Mas, na década de 1960, quando percebemos a possibilidade de criar uma droga contra a hipertensão e fizemos contatos com a indústria farmacêutica nacional, isso não era possível. Não havia uma indústria no país capaz de dar seguimento ao projeto. No exterior, foi muito fácil. Por meio do [fisiologista e ganhador do Nobel de 1982] John [Robert] Vane [1927-2004], com quem eu havia trabalhado na Inglaterra, os grandes laboratórios souberam do potencial do BPF [sigla em inglês para Fator Potenciador da Bradicinina] e tocaram a produção do primeiro medicamento contra hipertensão arterial. Lá já havia essa permeabilidade entre a pesquisa acadêmica e a indústria. Nada impedia que um conhecimento migrasse para a produção. E foi isso o que aconteceu.

Clotilde: Aconteceu e, inclusive, houve uma tentativa de fazer parecer que era uma descoberta de lá…

Sérgio: Isso mesmo. Algumas pessoas, na Europa, tentaram mesmo mudar o rastro da descoberta, trocando o nome do fator potenciador e tentando apagar a nossa participação nela. Mas a história é a história. Não tem jeito. Tinha sido feito aqui e pronto.

Conte-nos como se deu a descoberta.
Sérgio:
A história é simples: o [Maurício] Rocha e Silva [1910-1983] chegou um dia no laboratório todo animado com uma ampolinha de bradicinina sintética, que havia acabado de ser produzida, e pediu a um estudante que testasse a droga. O teste foi uma decepção, porque os efeitos da bradicinina sintética eram muito menos intensos que os da bradicinina natural. Como fator de hipotensão, a sintética era fraquinha em relação à obtida diretamente do veneno da jararaca. Foi, então, que eu tive o que considero a minha grande sacada. Pensei: se a bradicinina natural é mais potente e foi extraída diretamente do plasma, inoculado com o veneno, então deve haver aí algum fator que potencializa o seu efeito. O Rocha e Silva, nessa época, havia viajado para a Europa e eu comecei a fazer os experimentos na tentativa de identificar alguma coisa. Quando ele voltou, mostrei os resultados, que demonstravam que havia mesmo um fator no veneno da jararaca que potencializava a bradicinina. Fiz a prova aplicando esse potenciador à bradicinina sintética em um cachorro e acho que esse experimento foi dos mais bonitos que fizemos.

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Vera Rita da Costa

Ciência Hoje/ SP

Matéria publicada em 27.03.2014

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