Ernst Werner Von Siemens nasceu perto de Hanover (Alemanha), em 1816. Ele se distinguiu como inventor e, especialmente, como aperfeiçoador de invenções feitas por outros, abrindo caminho para sua aplicação prática e difusão.

Foi marcante sua contribuição para que a energia elétrica se impusesse, por meio de geradores e motores, substituindo gradualmente as máquinas a vapor, abrindo, assim, uma nova fase da Revolução Industrial. Suas invenções nesse setor foram uma decorrência da descoberta da interação entre eletricidade e magnetismo (ou eletromagnetismo), resultado das experiências fundamentais do físico dinamarquês Hans C. Oersted (1777­1851), em 1817, de que a corrente elétrica produz magnetismo, e do britânico Michael Faraday (1791­1867), em 1831, de que o magnetismo em movimento produz eletricidade.

Aos 17 anos, Werner entrou para a Escola de Artilharia e Engenharia do exército prussiano, em Berlim, obtendo formação abrangente em ciências naturais. Lá, enquanto cumpria uma prisão disciplinar, montou, em sua cela, um laboratório de química e fez experiências que o levaram à sua primeira invenção em 1842: um processo de galvanização eletrolítica, aplicado especialmente para banhos de prata e ouro.

Sua nomeação para as oficinas de artilharia em Berlim lhe deu oportunidade de fazer novas pesquisas, interessando­se pelas aplicações do telégrafo. Começou, então, com seu sócio e colaborador, o mecânico alemão Johann Halske (1814­1890), uma fábrica de telégrafos naquela cidade.

Renunciou ao serviço público em 1849, e a firma prosperou, conseguindo contratos para instalar linhas telegráficas em diversas regiões da Alemanha. Juntamente com seu irmão caçula, Karl Siemens (1829­1906), Werner abriu fábricas subsidiárias em Londres, São Petersburgo (Rússia), Viena e Paris, e teve sucesso ao instalar cabos telegráficos submarinos através do Mediterrâneo e da Europa à Índia.

 

Gerador autoexcitado

A ida para Londres de Wilhelm e Friedrich Siemens – dois outros irmãos de Werner – abriu caminho para a maior expansão dos negócios. Wilhelm investiu na siderurgia e inventou o bem sucedido conversor Siemens, em 1861, além de persistir comercializando novas invenções de Werner, como um regulador cronométrico para máquinas a vapor; isolantes para cabos elétricos; equipamentos de segurança para o tráfego de trens (‘sinalização ferroviária’); e um elevador movido a eletricidade.

A empresa londrina fazia ainda testes de cabos elétricos e produzia diversos instrumentos de medição elétrica – em 1874, instalou o cabo telegráfico submarino entre o Rio de Janeiro e Montevidéu. Entre os empreendimentos de Wilhelm, contam­se aperfeiçoamentos na iluminação por meio de lâmpadas de arco voltaico e as primeiras locomotivas elétricas.


Dínamo (foto: Wikimedia Commons)

Em 1866, Werner inventou um dínamo, tipo de gerador autoexcitado que podia dar partida com o magnetismo residual de seu forte eletroímã, em vez do pouco eficiente ímã de aço até então usado. O dínamo é um gerador que produz corrente contínua, usando um comutador, e foi o primeiro equipamento capaz de fornecer eletricidade na quantidade exigida para uso industrial. Foi baseado nele que se introduziram outros equipamentos conversores de energia, como o motor elétrico e o gerador de corrente alternada (alternador).

Como a maioria das invenções, não há um único inventor a quem se possa dar plena paternidade por sua descoberta. No caso do dínamo, praticamente na mesma época em que Werner Siemens apresentou sua invenção, resultados similares foram anunciados, independentemente, pelos britânicos Charles Wheatstone (1802­1875) e Alfred Varley (1832­1921). Mas Werner teve o mérito de associar o invento à produção industrial em larga escala, e os geradores e motores da marca Siemens se espalharam pelo mundo, sendo largamente comercializados – inclusive no Brasil.

Também em 1866, Werner Siemens se tornou deputado, alinhado com a socialdemocracia, e votou contra os aumentos do orçamento militar, que, no entanto, ocorreram e levaram à guerra contra a França em 1870, vencida pela Prússia. Deve­se mencionar também que Werner instituiu de forma pioneira a participação nos lucros para os operários de suas fábricas, atitude que seria, mais tarde, ampliada com a oferta de ações para os funcionários da empresa. Em 1872, instituiu um fundo de pensão para aposentadorias, viúvas e órfãos.

Outra medida social importante dele foi a introdução de uma semana de trabalho de 54 horas – à época, o usual eram 72 horas. De maneira geral, Werner manteve uma visão progressista sobre a ciência, acreditando que sua aplicação não devia resultar em riquezas detidas por um punhado de capitalistas sustentados por uma multidão de trabalhadores miseráveis. Para ele, os trabalhadores também deveriam receber benefícios econômicos gerados pela extensão dos conhecimentos científicos e do progresso material.

Do ponto de vista empresarial, considera­se importante sua campanha em prol da aprovação de uma lei de patentes na Alemanha em 1877, pois se argumentava que, até então, muitos inventores alemães preferiam patentear suas descobertas e transformá­las em produtos no exterior devido à falta de proteção ao invento naquele país, o que valia às manufaturas alemãs a fama de produtos ruins.

A firma Siemens logo se tornou um gigantesco conglomerado mundial, atuando nos campos de produção e uso da energia elétrica, das telecomunicações, dos eletrodomésticos e equipamentos para medicina, rivalizando com a General Electric, dos EUA, criação do também prolífico inventor norte­americano Thomas Edison (1847­1931).

Em 1885, Werner conseguiu implantar, em Berlim, o que é o atual PTB, conhecido instituto de pesquisas tecnológicas. Após ser agraciado em 1888 com um título de nobreza, Werner morreu naquela cidade em 1892. A unidade de condutividade elétrica do Sistema Internacional é denominada ‘Siemens’ em sua homenagem.

 

Gildo Magalhães dos Santos Filho
Departamento de História
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Universidade de São Paulo

 

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