Na correspondência da antropóloga britânica Mary Douglas (1921-2007) – hoje depositada nos arquivos da Universidade de Northwestern (EUA), onde ela lecionou entre 1981 e 1985 –, é possível depreender que seu livro mais conhecido, Purity and danger: na analysis of concepts of pollution and taboo (Pureza e perigo: uma análise dos conceitos de poluição e tabu), já estava em desenvolvimento desde pelo menos o final da década de 1950.

Sabemos, além disso, que, em 1963, o livro tinha um título provisório que já indicava os tipos de questões que guiariam a obra: Taboo: a class of the unclassified (Tabu: uma classe do não classificado). Ou seja, a atenção ao que desafia as classificações e os padrões morais simbolicamente constituídos.

De fato, desde a defesa de sua tese, em 1953 – publicada 10 anos depois, com o título The Lele of the Kasai (Os leles do Kasai) –, Douglas estava interessada em temas relacionados a tabu e poluição, bem como nas formas de seus rituais de evitação, tendo se correspondido por anos com médicos, biólogos, filósofos, estudiosos eclesiásticos e outros antropólogos, angariando dados etnográficos e históricos sobre os sentidos e os efeitos de certas práticas higiênicas.

Assim, é no trabalho etnográfico de Douglas que podemos encontrar a origem das principais ideias de Pureza e perigo. Afinal, o livro não pode ser considerado um rompimento com sua formação africanista: ciência e religião – a investigação de uma sociologia do conhecimento – foram as questões que ela buscou iluminar com indagações sobre a insuficiência das explicações materialistas médicas que primeiro encontrou em seus dados de campo.

Douglas buscava levar adiante uma reflexão sobre conceitos fundamentais em antropologia, alguns dos quais desenvolvidos a partir de material etnográfico: a palavra ‘tabu’, de origem polinésia, por exemplo, foi logo utilizada para denotar atividades consideradas interditas, como formas de manutenção de ordem social. Sua  intenção foi expandir o sentido objetivo que noções como ‘poluição’ adquiriam socialmente e identificar as fronteiras e separações simbólicas do que é moralmente considerado puro e do que é considerado perigoso.
 

Influência teórica

Em Pureza e perigo, temos a atualização de um antigo debate entre o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) – influência manifesta e reconhecida da autora –, o antropólogo britânico James Frazer (1854-1941) e, sobretudo, o teólogo e orientalista britânico Robertson Smith (1846-1894).

Douglas renovou essa discussão com base nos estudos sobre tabu feitos pelo intelectual tcheco Franz Steiner (1909-1952), professor da Universidade de Oxford (Reino Unido) – onde Douglas estudou –, e pelas ideias do antropólogo britânico Edward Evans-Pritchard (19021973), seu orientador de doutorado.

A antropóloga afirmou que as regras quanto ao que deve ser evitado – aquilo que é considerado tabu, impuro etc. – estão fundamentadas em razões simbólicas

A antropóloga afirmou, recorrendo a essas fontes, que as regras quanto ao que deve ser evitado – aquilo que é considerado tabu, impuro etc. – estão fundamentadas em razões simbólicas que devem ser compreendidas estruturalmente, ou seja, no interior de um sistema em que façam sentido em relação ao conjunto.

Essa é uma lição que Douglas retirou da análise que Durkheim desenvolveu – assim como toda uma geração seguinte de intelectuais franceses e ingleses – com base  na interpretação de Smith em relação à revelação divina na organização da vida cotidiana, para descortinar, observando o passado, a relação contemporânea entre ética, religião e moral.

Por exemplo, justamente porque as proibições são simbolicamente permeadas, a antropóloga pôde pensar sobre como as aparentes bases irracionais (ou, então, higiênicas) para a proibição da ingestão da carne de certos animais, na Bíblia, podem ser de fato compreendidas à luz de um sistema de ideias: as interdições alimentares em relação aos animais que desafiam normas de classificação do Velho Testamento confirmam regras que, no limite, mantêm intactas as fronteiras do sagrado, bem como das fronteiras sociais entre os que observam essas normas e os povos vizinhos que as desafiam.

Para recuperar essas discussões sobre sistemas de conhecimento para um público contemporâneo, Douglas fez as devidas críticas a essa matriz racionalista, presente na origem da antropologia, mas que afirmava a evolução e a passagem lógica e histórica entre as bases ‘irracionais’ da eficácia tanto da magia quanto da religião e a racionalidade científica – perspectiva logo abandonada pela disciplina.

Entretanto, mantida a curiosidade com relação às tramas entre essas esferas (magia, religião e ciência) – cujas fronteiras foram redefinidas quando observadas por um viés simbólico –, era preciso encontrar uma perspectiva comparativa entre elas, que Douglas desenvolveu, sobretudo, em textos posteriores, na reflexão sobre que tipos de sociedades desenvolvem que tipos de condutas rituais para evitar o infortúnio trazido pela não observação de tabus – inclusive entre aquelas sociedades anteriormente não estudadas pela antropologia, mas que também desenvolveram teorias sobre a existência de tragédias (por exemplo, estabelecendo uma relação estreita entre ganância e irresponsabilidade ecológica para explicar riscos ambientais).

Algumas sociedades lidam bem com o que é considerado anômalo e ambíguo, enquanto outras não, reproduzindo a maneira como certos grupos incorporavam o que é considerado estrangeiro, e outros mantêm suas fronteiras fechadas ao considerado perigoso.
 

O argumento

Pureza e perigo é uma análise sobre como é possível impor um padrão de ordenação no ambiente, reflexão que fica clara na relação simbólica estabelecida pela observação das regras dietéticas e de higiene ritual, entre a coesão do corpo físico (ou seja, a pureza do corpo) e o corpo político (integridade do grupo), como na leitura, ao mesmo tempo histórica e lógica, que Douglas faz do Velho Testamento para a compreensão das fronteiras sociais das tribos israelitas.

No entanto, é importante ressaltar que a sujeira (matéria fora de lugar) não é só fonte de perigo, mas também de poder, uma vez que a desordem, muito embora evitada, não é condenada, já que significa a própria potencialidade das regras.

E a despeito da possível leitura sobre o conservadorismo desse tipo de interpretação – ou seja, a sujeira ressalta e mantém as regras simbólicas –, a antropóloga não deixa de reconhecer a possibilidade de haver transformações, quando, face ao risco imposto pelos acontecimentos, as sociedades não mais tenham como manter padrões culturais vigentes.

Pureza e perigo é, sobretudo, uma prestação de contas com a antropologia de uma geração anterior. Sua atualidade é mantida pela crítica ao materialismo cientificista e pela reflexão sobre as relações entre religião e ciência

Um exemplo nesse sentido é o impacto da colonização belga entre os leles, com os quais conviveu no final da década de 1940 e começo da década seguinte. A introdução do assalariamento e a proibição das formas ‘tradicionais’ de combate à feitiçaria, bem como da poliandria (o casamento de uma mulher com mais de um homem), levaram Douglas a refletir sobre que tipo de mudanças seriam percebidas nas aldeias.

Pureza e perigo é, sobretudo, uma prestação de contas com a antropologia de uma geração anterior. Sua atualidade é mantida pela crítica ao materialismo cientificista e pela reflexão sobre as relações entre religião e ciência, o que a obra consegue por meio da investigação das formas simbólicas de evitação do mal pela ação ritual.

Na análise de Douglas, a ação simbólica é responsável não apenas por reforçar padrões e estruturas, mas também por estar constantemente criando novas formas de ordenar a experiência social – lição que ainda estamos aprendendo com renovadas leituras dessa instigante obra. 

 

Christiano Key Tambascia
Departamento de Antropologia,
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas,
Universidade Estadual de Campinas (SP)

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