Mosquito bom é mosquito morto?

Mosquito bom é mosquito morto? As atuais políticas de controle do Aedes aegypti parecem afirmar veementemente que sim. Declarou­se guerra ao mosquito, com mutirões e programas de tolerância zero que trazem a máxima: “um mosquito não é mais forte do que uma nação”. Verbos com referências bélicas e metáforas de enfrentamento voltaram a rechear as principais manchetes, blogues, redes sociais e a grande mídia do país. Mas o que estamos realmente com batendo? A ideia de combate e de guerra remete a algo externo, distante e alheio a nós, um inimigo. Mas será que este seria o caso do Aedes aegypti e das doenças que transmite?

Por que transformar o Aedes em inimigo? O que se ganha com isso? Financiamento de pesquisa e de ‘novas tecnologias’. Publicação de artigos, aprovação de projetos e visibilidade na academia e na mídia. Ameaça ao turismo e até aos Jogos Olímpicos. Venda de repelentes, de manchetes e jornais. Críticas (positivas ou negativas) ao governo nas esferas federal, estaduais e municipais, uso político de ações de controle e, quiçá, votos.

Militarizam­se as ações de saúde, mobilizando Exército, Marinha e Aeronáutica para matar mosquitos e distribuir panfletos. Crise financeira e política geram crise na saúde. Uma população em pânico é uma população vulnerável e, principalmente, controlável. As arboviroses (doenças transmitidas por insetos) da moda – dengue, chikungunya e zika – tornaram­se oportunidades de negócio em um sistema de saúde em que a doença tornou­se um foco e o vetor, ‘inimigo número um’. Criam­se políticas do Aedes.
 

Produção social das arboviroses

Nesse cenário, as ciências humanas e sociais podem contribuir para uma reflexão mais crítica e histórica do problema. Se olharmos para a história das ações e políticas de prevenção e controle dessas doenças no mundo e no Brasil, veremos uma postura bem mais complexa do que o simples ‘combate’ ao mosquito. Seja na medicina tropical ou na saúde global, sabe­se que as doenças são também socialmente construídas e determinadas. Elas estão presentes, essencialmente, na forma como vivemos e no tipo de sociedade que construímos.

As arboviroses também estão na forma como consumimos, descartamos nosso lixo e desperdiçamos (ou estocamos) nossa água. Na dificuldade de gestão das grandes cidades e aglomerações cada vez mais claustrofóbicas. Nos modelos de saneamento e distribuição desigual da água. Nas relações de exploração do trabalho alheio, base da sociedade capitalista e do atual padrão de desenvolvimento. No crescimento dos processos migratórios em torno de grandes empreendimentos, cujos trabalhadores passam a viver em condições sanitárias precárias nas periferias dos polos industriais. Na especulação imobiliária e no lobby das empreiteiras que financiam campanhas. Na nossa relação com a natureza e o ambiente e no desconhecimento das consequências ecológicas das dinâmicas de transmissão das doenças e dos ciclos de vida do vetor. Estão nas políticas de vida e de saúde. Olhar para isso é bem mais difícil do que simplesmente eleger um inimigo. Porque põe em xeque todo um modo de vida que não estamos dispostos a questionar, nem sequer a olhar. Dessa forma, no que estamos realmente mirando com esse suposto combate ao Aedes? Estaríamos atirando no escuro?
 

Novas realidades possíveis

Alguns autores vêm advogando contra esse “fenômeno de dessocialização” das perguntas na ciência, ou seja, a tendência de se levantarem somente questões técnicas ou biomédicas sobre o que são, de fato, problemas sociais e políticos. Mas quais são os nossos ‘pontos cegos’? Quais são os problemas ou questões que os próprios paradigmas científicos não nos permitem ver ou nomear, ou sequer toleram ser vistos? Para o caso das arboviroses e do controle do Aedes, as ciências humanas e sociais podem dar algumas pistas e, talvez, até servir como bússola.

Se não refletirmos sobre a causa por trás desses fenômenos, eles continuarão a se repetir, como têm feito ao longo da história da saúde pública no Brasil e no mundo

É importante destacar esse processo de construção coletiva e política das iniquidades sociais e de produção da doença, pois, se a realidade é construída socialmente, ela é algo que pode ser diferente. A produção social das doenças é também uma questão de escolha, social e política, e envolve relações de poder explícitas e implícitas.

Se não refletirmos sobre a causa por trás desses fenômenos, eles continuarão a se repetir, como têm feito ao longo da história da saúde pública no Brasil e no mundo. Torna-­se fundamental encarar os problemas sistêmicos que têm gerado as endemias e atuais epidemias.

Assim, não se trata apenas de eliminar doenças e combater um ‘suposto inimigo’, mas de compreender os processos mais gerais que contribuem para que a situação continue do jeito que está. Do que adianta (mesmo que hipoteticamente) eliminar o mosquito ou acabar com seus criadouros, se as pessoas continuam vivendo há décadas em precárias condições de saúde e de vida?

Se partirmos do pressuposto de que o processo é também social, se compreendermos que dengue, chikungunya e zika são fenômenos coletivos, entenderemos que o problema está, de certa forma, em nós mesmos, na forma como vivemos, adoecemos, trabalhamos, consumimos, enfim… na forma como levamos a vida social.

Também está na maneira como olhamos e criamos respostas para essas questões. E isso pode ser muito incômodo e difícil de assimilar. Requer mudanças radicais que nem sempre estamos aptos a colocar em ação ou sequer enxergar. Evidenciam­se forças, conflitos de poder, concorrentes na definição mais ampla do que vem a ser saúde e suas intervenções sobre ela.

Essa é uma questão antiga e estende­se para além da problemática das arboviroses e do Aedes aegypti. Ela compreende a forma como concebemos a saúde e a doença como um todo e nos faz refletir: como pensar a questão social da saúde e dos processos de adoecimento? Não há resposta pronta! No entanto, acredita­se que é no próprio processo de reflexão que conseguiremos vislumbrar novas respostas e, talvez, novas realidades.

 

Denise Nacif Pimenta
Centro de Pesquisas René Rachou,
Fundação Oswaldo Cruz

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