O mito de que Isaac Newton seria um ‘quase deus’ da ciência começou a ser construído após sua morte, ocorrida em 20 de março de 1727. Em vida, sua estatura já era a de um gigante. Ao ser enterrado, as honras ultrapassariam aquelas dadas a um herói nacional. Newton era comparável a filósofos naturais como o italiano Galileu Galilei (1564-1642) ou mesmo a figura maior que a de qualquer humano que lhe houvesse antecedido.

Entre os fatores capitais para a construção social dessa imagem – ‘Newton, o maior cientista que jamais existiu’ –, é preciso dizer que declarações dele próprio facilitaram o caminho para isso (ver ‘No auge da invenção’). Ao que tudo indica, o chamado annus mirabilis (ano miraculoso) de Newton foi uma invenção.

No auge da invenção

Abaixo, está o que, talvez, seja a mais famosa declaração de Newton – dada por volta de 1710 – sobre seus feitos em torno do período que hoje convencionamos chamar ‘ano miraculoso’ (no original, ‘&’ representa ‘e’).

“No início do ano de 1665, descobri o método de aproximação a uma série desse tipo & a regra para reduzir qualquer potência de qualquer binômio a tal série. No mesmo ano, em maio, descobri o método das tangentes de Gregory & Slusius &, em novembro, obtive o método direto das fluxões, & no ano seguinte, em janeiro, a teoria das cores, & em maio seguinte desvendei o método inverso das fluxões, &, no mesmo ano, comecei a pensar na gravidade como se estendendo até a órbita da Lua & […], a partir da regra de Kepler de que os períodos dos planetas estão numa proporção […] com suas distâncias do centro de suas órbitas, deduzi que as forças que mantêm os planetas em suas órbitas devem [variar], reciprocamente, com o quadrado se suas distâncias ao centro em torno do qual eles giram: & a partir disso, comparei a força necessária para manter a Lua em sua órbita com a força da gravidade na superfície da Terra, & descobri que elas se correspondem bem de perto. Tudo isso foi nos dois anos da peste, 1665-1666. Pois, nessa época, eu estava no auge de minha fase de invenção & me interessava mais pela matemática & pela filosofia do que em qualquer ocasião posterior”.

Cientista brilhante e figura pública das mais notáveis em vida, os testemunhos de Newton sobre os próprios feitos – dados, principalmente, no período final de sua vida – alimentaram a criação de uma lenda a respeito de como ele teria chegado a seus resultados em mecânica, matemática e óptica. O enredo que surgiu foi o de que isso teria ocorrido por meio de lampejos.

Na primavera de 1665, Newton formulou o teorema fundamental do cálculo, o qual estabelece uma relação entre aquelas que são consideradas as duas mais importantes operações (inversas entre si) do cálculo: a diferenciação e a integração. Newton as chamou ‘método das fluxões’.

Em outubro de 1666, Newton tinha pronta a exposição definitiva do método das fluxões, elaborado a partir da aplicação da abordagem cinemática: as linhas infinitamente pequenas que os corpos descreviam eram, naquele método, suas velocidades. Também naquele ano – provavelmente, nos intervalos da elaboração de outros três trabalhos matemáticos que ele nunca publicou –, Newton descreveu as bases para a lei da gravitação universal – mais especificamente, a relação da força gravitacional com o inverso do quadrado da distância entre as massas.

Finalmente, também em 1666, Newton mostrou que a luz branca era uma mistura de componentes isolados, a qual causava a sensação das cores individuais. Com isso, ele mudou a relação – até então considerada válida – entre luz e cor.

Exageros (posteriores) à parte, os fatos acima realmente aconteceram. Os anos entre 1664 e 1666 foram extremamente produtivos. Newton obteve resultados que abririam caminho para a consolidação do que se convencionou chamar revolução científica moderna.

Se até aquela época seu gênio não tinha exibido aquilo de que ele era capaz, a partir de então, estava aberto seu caminho em direção às leis e teorias que o imortalizariam. Sem ter dado azo à publicidade de seus resultados, o único que sabia do que era capaz era o próprio Newton.


Fac-símile de manuscrito de Newton de novembro de 1665,
relativo a seus estudos matemáticos. (foto: Newton Papers)

Estudo e concentração

Contrariando a versão histórica tradicional – que acabaria por criar a ideia de um ‘ano miraculoso’ e de ‘lampejos de genialidade’ –, os resultados do jovem egresso da burguesia rural foram obtidos a partir de muito estudo e muita concentração. Essa é a conclusão a que chega seu principal biógrafo, o historiador da ciência norte-americano Richard Westfall (1924-1995).

Dotado de enorme capacidade de concentração, bem como de vontade férrea em alcançar a verdade, Newton, desde seus tempos de estudante em Cambridge, havia se dedicado às mais importantes obras de matemática e filosofia natural da época: dos franceses François Viète (1540-1603) e René Descartes (1596-1650), do britânico John Wallis (1616-1703), de Galileu, entre outros.

Os textos que escreveu nessa fase – e que não foram publicados em vida – mostram que, se no início ele aprendia com essas leituras, ele, tempos depois, já os havia ultrapassado ou, ao menos, se equiparado a eles.

Solitário desde sua primeira infância – quando foi afastado do convívio com a sua mãe, que, viúva meses depois do nascimento de seu único filho, casou-se novamente –, Isaac cresceu na casa de seus avós maternos, também eles pequenos produtores rurais, mas, diferentemente do ramo paterno, dotados de educação formal.

Isaac foi o primeiro Newton a receber um diploma universitário. Graças a um tio materno – sua mãe parece ter discordado de sua decisão de não se dedicar às tarefas agrícolas –, Newton pôde estudar até ser admitido em 1661 no Trinity College, na Universidade de Cambridge (Inglaterra).

Seu ingresso nessa instituição – com, então, já quatro séculos de existência –, coincidiu com mudanças no currículo que arejaram o estudo naquela universidade. Graças a isso, Newton conseguiu adquirir o conhecimento de algumas das mais inovadoras teses científicas conhecidas à época. Em particular, familiarizou-se com as ideias de Descartes, aquele que parece ter sido seu mais constante ‘interlocutor’.

 

Estudante incomum

Poucos professores marcaram Newton naqueles anos. Aquele com quem ele mais privou foi o matemático e teólogo Isaac Barrow (1630-1677), o qual, aliás, o nomeou, em 1669, seu sucessor na cátedra lucasiana.

Newton foi um estudante incomum, pouco interessado nos currículos oficiais, preferindo aprender com as obras então recentemente integradas à biblioteca do Trinity College. Seu método de estudar mostrava independência e coragem, começando por formular questões que lhe interessavam.

À medida que os estudos avançavam, a reformulação das questões e os resultados obtidos revelavam seu progresso. Em termos modernos, as perguntas que Newton se fazia se assemelham a um programa de pesquisas, com correções e modificações até exibir os resultados que ele considerava como verdadeiros.

Não parece restar dúvida de que é um exagero pensar que Newton descobriu, em apenas pouco mais de dois anos, as leis da óptica e da gravidade, bem como o cálculo. O que ele conseguiu – e o que não é pouco – foi reconhecer aqueles insights e, anos mais tarde, após reflexões solitárias e extenuantes, fazê-los despontar como ideias plenas e cristalinas.

Se a versão do ‘ano miraculoso’ serve para algo, talvez, seja para fazer valer que, mesmo para as mentes mais argutas e perspicazes, o trabalho continuado, fundado na autoconfiança e disciplina, é imprescindível.

O poeta inglês Alexander Pope (1688-1744) preparou um dístico destinado a ser o epitáfio de Newton: “A natureza e suas leis jaziam escondidas na noite / Deus disse, ‘Façase Newton’, e tudo se fez luz.” Diferentemente de Deus, Newton não pôde simplesmente dizer “Fiat lux” e fazer com que a luz surgisse. Seus feitos lhe custaram não só criatividade, mas também esforço demasiado ao longo de anos.

 

Antonio Augusto Passos Videira
Departamento de Filosofia,
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas,
Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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