Não existe ciência exata (e vamos combinar que todas são humanas…)

A dicotomia entre ciências exatas e humanas esvazia o debate sobre a construção do saber científico e ofusca a necessidade de integrá-las.

De tão caricatural, a separação entre exatas e humanas está se tornando tóxica. Rende bons memes, mas traz uma imagem errada sobre o papel de cada uma das ciências e da urgente integração entre elas. Exatidão, assim como precisão, rigor ou objetividade, são noções cujos significados mudaram ao longo da história.

Para Descartes, por exemplo, eram exatos procedimentos que permitiam construir curvas por meio de equações algébricas. Ao invés de fazer um círculo geometricamente, usando o compasso, tornou-se possível construir essa figura por meio da equação . Essa noção de “exatidão”, como mostra o historiador da matemática Henk Bos em Redefining Geometrical Exactness: Descartes’ Transformation of the Early Modern Concept of Construction (NY, Springer, 2001), era típica do século 17.  Surgiu no contexto de matemáticos-filósofos tentando ampliar os métodos de construção de curvas geométricas, que também serviam à ótica.

Bem mais tarde, em meados do século 19, a ciência viu-se às voltas com a ideia de objetividade. Observar o mundo e enxergar relações implícitas, não observáveis à primeira vista, era tarefa dos “homens de ciência” – a expressão é da época, pois a tarefa era mesmo considerada atribuição dos homens mais do que das mulheres. Como cientistas são humanos, tendem a projetar valores e afetos em suas observações, o que pode comprometer as conclusões. Para que isso não acontecesse, quem praticava a ciência precisava segurar a onda. Tinha que limitar suas tendências mais íntimas – sua subjetividade – e treinar o corpo e o olhar para garantir a objetividade de suas observações. No livro Objectivity (NY, Zone Books, 2007), Lorraine Daston e Peter Galison, renomados historiadores da ciência, mostram que a objetividade tornou-se, assim, uma virtude científica.

Seria possível dar inúmeros outros exemplos, mas a moral da história é que predicados como exatidão e objetividade, atribuídos hoje a certos ramos do conhecimento, foram inventados para ampliar os procedimentos aceitos ou para limitar traços humanos que pudessem prejudicar a observação científica. Hoje, as ciências ditas exatas são aquelas que usam a matemática. O modelo mais bem acabado é o da física. Esses saberes foram construídos como exatos, em contextos específicos, para lidar com as possibilidades e os limites humanos para conhecer.

Separar as ciências entre exatas e humanas esvazia todo esse debate. Usar a valorização das ciências exatas para fazer bullying com as outras áreas do conhecimento é atestado de ignorância. Pior de tudo, é uma desqualificação para a própria matemática e para os saberes que a usam. Termina-se por reduzi-los a saberes frios e calculistas, sem alma e sem mundo. Só que a história mostra idas e vindas fascinantes no embate entre essas formigas que somos nós, os humanos, e esse mundão de que sabemos tão pouco, que costumamos chamar de natureza, e do qual nos cremos apartados. Será mesmo?

Não vai adiantar a gente se esconder atrás de pretensas verdades absolutas, e também não precisamos cair no relativismo banal de que todos os enunciados se equivalem. Verdades existem, só que elas mudam com o tempo. E está aí algo realmente maior do que o humano: o tempo.

Tatiana Roque

Instituto de Matemática e Instituto de Filosofia e Ciências Sociais,
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Matéria publicada em 25.05.2018

COMENTÁRIOS

  • Lia Leme Zaia

    Ótimo artigo, principalmente para nós da Educação e da Psicopedagogia, pois o que falta à formação do Homem é justamente essa complementaridade…

    Publicado em 29 de maio de 2018 Responder

  • Priscila Faulhaber

    Ótimo, eu que sou antropóloga sempre achei isso!

    Publicado em 29 de maio de 2018 Responder

  • Viniciud

    Parabéns pelo texto, reforçou a minha posição de ver a matemática e sua importância para a construção de cidadões críticos. Obrigado.

    Publicado em 30 de maio de 2018 Responder

  • Hellen Salazar

    Muito bom!!!

    Publicado em 30 de maio de 2018 Responder

  • Elton Hiroshi Matsushima

    Tatiana, entendi a sua posição. Também sou contra uma supervalorização das ciências “exatas” em detrimento das ciências humanas. De outro lado, não sou favorável e não vejo argumentos contrários fortes o suficiente, para que a ciência prescinda de seu ideal de objetividade. Principalmente em ciências humanas, pois corremos sempre o risco de que o produto da pesquisa seja mais um produto de quem observa do que do fenômeno observado.

    Publicado em 30 de maio de 2018 Responder

    • Júlia

      Ela não falou isso. Você não entendeu o texto.

      Publicado em 27 de abril de 2019 Responder

    • Anahí Guedes de Mello

      Olá, sou antropóloga. Como estudei Química, em vários momentos reconheci a importância do pensamento lógico na graduação em Ciências Sociais, refletindo até hoje em meu estilo de escrever. Em vários momentos comparava a epistemologia das ciências exatas com a das ciências sociais. Acho que essa transição radical de área me beneficiou nesse sentido.

      Dou dois exemplos de como é possível transpor conceitos de distintas áreas: 1) o princípio da incerteza de Heisenberg pra mim é um exemplo equivalente ao debate sobre a impossibilidade da neutralidade nas pesquisas em humanas; esse princípio diz que é impossível determinar simultaneamente e com precisão a posição e a velocidade de uma partícula como o elétron, justamente porque há a interferência do observador: pra determinar a posição do elétron, teria que interferir na velocidade, e vice-versa. Ou seja, não há como ter “neutralidade” nem nas exatas. 2) Os tipos ideais de Max Weber, pensando aqui em termos de modelos matemáticos da “lei dos gases perfeitos” da termodinâmica. Em cálculo a gente aprende sobre uma equação integral que no limite nunca chega exatamente a zero, apenas tende a zero. Em Físico-Química, mais especificamente em Termodinâmica, um gás perfeito ou ideal é aquele que não ocupa volume no espaço de um recipiente, não existindo nem forças de atração nem de repulsão entre suas moléculas. O gás ideal não existe. Ou seja, um gás ideal é um modelo teórico de gás imaginário, para que possamos resolver problemas práticos de Termodinâmica. Então, na prática o que existe é o gás real, que nunca se torna um gás ideal, apenas tende para gás ideal quanto mais a sua pressão tender a zero, elevando-se a temperatura. E em Ciências Sociais, eu percebi o equivalente à lei dos gases perfeitos ou ideais: o “tipo puro” preconizado por Max Weber em sua teoria dos tipos de dominação. Os tipos de dominação de Weber são como um modelo teórico para entendermos como funciona a organização hierárquica da sociedade, por exemplo.

      Publicado em 28 de abril de 2019 Responder

      • Diana

        ????‍♀️
        Filósofos, físicos, químicos, todos se revirando no caixão.

        Publicado em 28 de abril de 2019

      • Neemias

        Valeu Anahí Guedes, muito pertinente o seu comentário!

        Publicado em 29 de abril de 2019

  • Léo

    Excelente. É o conhecimento compartimentalizado.

    Publicado em 30 de maio de 2018 Responder

  • Josemar Maciel

    Bálsamo. Só isso e tenho dito. Obrigado, Professora.

    Publicado em 31 de maio de 2018 Responder

  • Cesar Pinheiro

    Mesmo porque, na própria matemática existem os números imaginários, irracionais…

    Publicado em 31 de maio de 2018 Responder

  • Ricardo da Silva Vieira

    Palavras lúcidas e muito bem colocadas. Exatidão, como a professora salienta, está no plano formal. “Esses saberes foram construídos como exatos, em contextos específicos, para lidar com as possibilidades e os limites humanos para conhecer.”. Em se tratando de questões de fato, isto é, sobre entidades empíricas, não pode haver exatidão, já que os nossos recursos cognoscitivos são muito limitados (“essas formigas que somos nós, os humanos”) e, ademais, somos necessariamente seletivos na confecção de nossas teorias sobre a realidade. Vale dizer que o pensamento é subjetivo; a verdade, objetiva; e o conhecimento, intersubjetivo. Entendendo bem a distinção entre esses três conceitos, evitamos perfilhar posturas intelectuais dogmáticas e relativistas.

    Publicado em 7 de junho de 2018 Responder

  • Ricardo da Silva Vieira

    Desejo saber por que o meu comentário não foi publicado ou foi retirado. Obrigado.

    Publicado em 9 de junho de 2018 Responder

  • Ricardo da Silva Vieira

    Desculpem-me e desconsiderem minha última postagem. Obrigado.

    Publicado em 9 de junho de 2018 Responder

  • Nildson de Avila.

    “Verdades existem, só que elas mudam com o tempo. E está aí algo realmente maior do que o humano: o tempo.”
    Acho que está errado.

    A afirmação: “”Verdades existem, só que elas mudam com o tempo.” é uma verdade que muda com o tempo?
    Se ela não muda com o tempo, tempos pelo menos uma verdade que não muda com o tempo, falseando a afirmação.
    Se ela muda com o tempo, então pode chegar o tempo quando concluiremos que ela não muda com o tempo…..

    Acho que o que muda com o tempo é a opinião, a verdade é eterna e o problema é que nem sempre a conhecemos.

    Publicado em 11 de junho de 2018 Responder

    • Diana

      Obrigada ??

      Publicado em 28 de abril de 2019 Responder

    • Eunícia Fernandes

      Uma verdade não precisar ser universal ou eterna. Tal percepção foi construída no século XVIII (anteontem na história da humanidade) e, no mundo contemporâneo, diante dos conhecimentos produzidos, se torna fundamentalista.

      Publicado em 17 de setembro de 2019 Responder

  • Caroline

    Ótimo!

    Publicado em 12 de junho de 2018 Responder

  • Soeli

    Maria Montessori teve um papel importantíssimo na observancia do ser humano nesse aspecto.

    Publicado em 12 de junho de 2018 Responder

  • Gunnar

    Só falou que é porque é sem apresentar qualquer argumento que suporte essa presunção. Em tempo, aguardo ansioso o tempo em que a verdade de que 2+2=4 mudará.

    Publicado em 13 de junho de 2018 Responder

    • Renan

      Concordo

      Publicado em 27 de janeiro de 2019 Responder

    • Cesar Renato Ferreira da Costa

      Gunnar … olá … você está querendo dizer que 2 Kg de areia = 2 kg de areia?
      Juro, sem sacanagem … vc já experimentou medi-los em outra unidade? Grãos, por exemplo? Ou espaços entre grãos? Ou mesmo massa de cada partícula?
      Não me responda … eu sei a resposta … é difícil demais … exige um empenho subjetivo einsteiniano!
      Por isso “Homens” criaram o Sistema Internacional de Medidas, de onde surgiu o “Kg”.
      Já te ocorreu isso?
      Muito Obrigado!

      Publicado em 28 de abril de 2019 Responder

  • Thais Cyrino de Mello Forato

    Amei!!! Tatiana, obrigada pelo texto! sintético, profundo e poético!

    Publicado em 13 de junho de 2018 Responder

  • Daniel

    Verdade professora. O texto me provocou a pensar nas minhas questões (autismo). Se por um lado, estudos caracterizam a síndrome e referenciam os comportamentos como naturais, de outro, estudos que reiteram as possibilidades de desenvolvimento para além do esperado, ou seja, não se guiar pelo déficit. Fiquei pensando em específico a questão do diagnóstico, se por um lado, essa caracterizam é importante para pensar nas possibilidades de desenvolvimento, por outro lado, há uma questão mercadológica e dos modismos de diagnosticar. Para a senhora ter ideia do contexto. Andrade (2016, n.p.) pontua que “No fim dos anos 1980, uma a cada 500 crianças era diagnosticada com autismo. Hoje, a taxa é uma a cada 68. O significativo aumento chamou atenção até da ONU (Organização das Nações Unidas), que classificou o distúrbio como uma questão de saúde pública”. Na educação, esse aspecto culmina em um grande nó, porque escola e família ficam reféns da espera pelo diagnóstico para a partir disso começar um trabalho com a pessoa. Estou tentando desatar esse nó, porque o diagnóstico (im)possibilita o trabalho, e o que se tem em vias de educação, são métodos repetitivos para controle de comportamentos, tais métodos, são tomados como lei. E daí eu fico pensando na educação para a vida… a práxis… enfim, texto muito bom e provocativo. Muito Obrigado

    Publicado em 14 de junho de 2018 Responder

  • Alvaro Velasco

    La objetividad coloniza la mente, propicia la disoluciòn de la diversidad cultural y la degradaciòn de la naturaleza

    Publicado em 15 de junho de 2018 Responder

  • NYTHAMAR DE OLIVEIRA

    Excelente texto postado por Tatiana Roque. Estou totalmente de acordo com:
    1. Usar a valorização das ciências exatas para fazer bullying com as outras áreas do conhecimento é atestado de ignorância
    2. predicados como exatidão e objetividade, atribuídos hoje a certos ramos do conhecimento, foram inventados para ampliar os procedimentos aceitos ou para limitar traços humanos que pudessem prejudicar a observação científica
    Todavia, mantenho meu desacordo (epistêmico entre pares), quanto a:
    3. Diferenciar as ciências exatas das humanas é inevitável e não é o que justifica o positivismo (da parte de alguns cientistas) ou o historicismo (da parte de alguns pós-modernos). A meu ver, os pós-modernos são os que mais corroboram atitudes positivistas e cientificistas ao reproduzir as chamadas science wars norte-americanas suscitadas por evangélicos fundamentalistas (que rejeitam as ciências em nome de doutrinas bíblicas sobrenaturais) e pós-modernos que relativizam toda forma de conhecimento e reduzem a ciência a meras construções sociais.
    4. A objetividade enquanto virtude científica é tão desejável, a meu ver, quanto a objetividade em filosofia teórica (lógica, epistemologia, filosofia da matemática e da ciência, metafísica, filosofia da linguagem e da mente) e prática (ética e filosofia política). Ademais, a meu ver, exatidão, assim como precisão, rigor e objetividade, são características importantes, desiderata para quaisquer narrativas, discursos ou relatos filosóficos e de ciências humanas. Insisto quanto ao perigo de reproduzirmos no Brasil as chamadas “science wars” americanas: nem tudo pode ser reduzido a uma construção social! Mesmo que alguém defenda o construtivismo ou intuicionismo em matemática, o realismo científico continua sendo a postura default e a mais adequada para quem faz ciência, garantindo uma objetividade que transcende particularidades subjetivas e intersubjetivas de contextos e identidades socioculturais.

    Publicado em 18 de junho de 2018 Responder

  • Renan

    Ciência exata ao meu ver em nada tem a ver com ideologia, aliás muito belo contrário, a ideologia pra mim por muitas vezes se mostrou ser a cegueira da razão.

    Publicado em 27 de janeiro de 2019 Responder

  • Marcelo Freitas

    Olha, parte do argumento é válida. Estabelecer uma simetria entre Ciências Humanas e Naturais é salutar, mas na prática, não é o que se vê. Há cientistas que desqualificam quem faz ciências humanas, e vice versa, pessoas que com um diploma de Ciências Humanas acham-se plenamente habilitados a “desconstruir”, por exemplo a Relatividade, porque afinal, toda teoria “é uma construção social”, assim dizem. O problema hoje, é que essa prática reiterada da “Desconstrução” agora está sendo usada também pela Extrema Direita. O gênio saiu da garrafa Tatiana, e agora ele se recusa a voltar para ela.

    Publicado em 6 de abril de 2019 Responder

  • Carlos André Cavalcanti UFPB

    Parabéns pelo artigo! Dentre tantos caminhos possíveis nesta Seara, reafirmo aqueles indicados por Carl Jung e por Gilbert Durand.

    Publicado em 26 de abril de 2019 Responder

  • Jucea Gomes

    Sem contar que matemática e filosofia são irmãs siamesas!

    Publicado em 26 de abril de 2019 Responder

  • CLARA. IOZZI

    PEÇO Q EXPLIQUEM PARA PESSOAS COM MENOS ENTENDIMENTO DE FORMA MAIS SIMPLES TUDO Q COMENTARAM !

    Publicado em 27 de abril de 2019 Responder

  • Queiroga

    Uai, comunicação reflexiva. Glória a Deus!.

    Publicado em 28 de abril de 2019 Responder

  • Milena Eich

    Excelentes reflexões. Necessárias. Obrigada e Parabéns!

    Publicado em 28 de abril de 2019 Responder

  • Francisco das Chagas Pereira

    Excelente, muito bom.

    Publicado em 28 de abril de 2019 Responder

  • Jonas Miranda

    Ótimo texto.a única certeza que nós temos; é que vai haver mudanças.

    Publicado em 28 de abril de 2019 Responder

  • Frederico

    O texto prometia no início, mas faltou desenvolvimento no final. Uma pena!

    Publicado em 7 de maio de 2019 Responder

  • Sérvulo Gurgel do Amaral

    Excelente em si mesmo, excelente pela avalanche de comentários bem pensados e, melhor ainda, bem articulados, revelando e lembrando-nos o imenso repositório de valor e conhecimento que estão subutilizados, o quão importantes e úteis podem ser para pensarmos nossas realidades, nossas angústias, e como estão, tais conhecimentos e reflexões, .enterrados sob um Everest de verborragia frívola e subordinada aos modismos e necessidades mercadológicas do poder dominante, o capital.
    Ler e reler estes textos foi como respirar de verdade, reencontrar a velha e boa mania de pensar, sonhando, pelo menos, já que parece impossível alcançá-la “in totum”, um dia roçar a verdade.
    Como no início de nossas jornadas, sonhávamos !

    Publicado em 9 de maio de 2019 Responder

  • Sérvulo Gurgel do Amaral

    Gostaria de me corresponder por e-mail com qualquer e com todos os que fizeram seus comentários. Seria um enriquecimento memorável, para mim. Sem saber se conseguirei retribuir. Como merecem.

    Publicado em 9 de maio de 2019 Responder

  • Daniel

    Ciência, por definição, trata de conhecimentos produzidos através do método científico (observação, hipótese, experimento e resultado). Nenhuma hipótese na área social pode ser testada por experimento, portanto não pode ser submetida ao método científico e portanto não é ciência.

    Publicado em 23 de julho de 2019 Responder

    • Leon M Rodrigues

      Caro Daniel. Não sou da área Social. Mas entendo que ciências se faz de duas formas: experimental e observacional. As Ciências Sociais são muito mais observacional, mas não deixam de ser ciências por isso. Além disso, “experimentos” não são só aquilo que acontece dentro de laboratórios. Essa noção já foi superada. Se conseguimos isolar ou controlar determinadas variáveis numa coleta de dados ‘in situ’, podemos ter um experimento e testar algo. As ciências sociais tem sido essencialmente observacional devido à dificuldade (impossibilidade) de levar uma sociedade ou grupo social para dentro de um laborató, assim como aconteceu inicialmente com a Ecologia devido à impossibilidade de colocar um sistema ecológico dentro de um laboratório. Mas, determinadas estratégias amostrais tem possibilitado obter condições experimentais ‘in situ’. Além disso, o hábito que as sociedades desenvolveram de registrar em dados quase tudo o que fazem permitem tratar, por exemplo, um mandato governamental ou um processo eleitoral ou migratório como um experimento. A ciência já deixou de ser essa coisa dura, prémoldada há muito tempo…

      Publicado em 11 de setembro de 2019 Responder

  • Leon M Rodrigues

    Muito bom. Porém, fiquei com uma dúvida… Como sou biólogo, procurei me localizar no texto. E me pergunto: Onde entram as “ciências naturais”? Também ouvimos falar, no meu meio, em “ciências exatas” e “ciências naturais”. Parece que as humanas e as naturais não se vêem como diferentes ou simplesmente não se vêem… Na minha área usamos muito a matemática, especialmente através da estatística. Estamos talvez em algum lugar entre a física e a história. Observamos muito os mais iniciantes falarem que escolheram biologia porque não gostam de cálculo. Então entram em crise em certa etapa do curso porque se deparam com disciplinas como cálculo e estatística e se debatem muito ao ter que desenvolver seus trabalhos de conclusão de curso porque precisam lançar mão dos modelos e testes estatísticos para poder analisar os dados. Para mim a dicotomia (exatas e humanas/naturais) simplesmente não existe. É algo que inventamos para cada um ficar mais seguro em sua área de interesse. Mas, em alguma medida precisamos uns dos outros para uma visão mais robusta do que estudamos.

    Publicado em 11 de setembro de 2019 Responder

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