Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro

O tempo passa. O documentário Uma verdade inconveniente foi lançado há 10 anos. E a data redonda provoca as perguntas de sempre. A mensagem do filme segue atual? Algo mudou em função de sua divulgação? Eu responderia que sim e pouco, respectivamente. A verdade de que trata o filme segue firme e forte, pois pouca coisa mudou de lá para cá e, portanto, ela é ainda mais inconveniente hoje do que há uma década.

O documentário, lançado em 2006 e dirigido por Davis Guggenheim, trata da campanha de divulgação do ex-vice-presidente norte–americano Al Gore sobre o aquecimento global e suas consequências, apontando para a responsabilidade dos humanos no processo, em função das emissões crescentes de carbono. A iniciativa partiu de dois produtores que assistiram à conferência de Al Gore sobre o tema, que o próprio estima haver apresentado mais de mil vezes. Convidaram o diretor Davis Guggenheim e o trio cortou um dobrado para convencer o próprio Al Gore a aceitar a ideia.

Valeu a insistência, já que o filme foi um sucesso de crítica e bilheteria e se tornou um dos 10 documentários de maior arrecadação nos Estados Unidos, além de receber dezenas de prêmios. Foi incluído como material didático em cursos de ciências de escolas ao redor do mundo.

Vale também rever o documentário, ou simplesmente vê-lo, para quem não o fez. De fato, se falou tanto no filme na época que muita gente se sentiu desobrigada de vê-lo. É o famoso “não vi e não gostei (ou gostei)”.

É uma pena, pois Al Gore fez um trabalho de primeira. Também pudera, ele já vinha treinando desde 1989, na base do papelógrafo, quando não havia internet, Google, Powerpoint nem Datashow. Acabou fazendo o que muitos cientistas não conseguem ou nem tentam – isto é, juntar as evidências científicas disponíveis sobre um determinado tema e apresentá-las em linguagem acessível a todos. E tudo isso com humor, rigor e sem distorção. Se ficasse apenas no diagnóstico, já teria prestado um grande serviço à comunidade, mas foi além, explorando as consequências do aquecimento global para nosso futuro e sugerindo alternativas de correção de rumo.

Mas a divulgação de verdades inconvenientes sempre provoca reações. Os cientistas elogiaram entusiasticamente o rigor e a correção técnica do filme, mas os vilões da história, as indústrias carbono-intensivas, fizeram o de sempre. Na falta de argumentos, preferiram tentar desqualificar o autor, insinuando que ele estaria sendo alarmista, tentando atrair os holofotes para alavancar sua carreira política. Vários grupos civis entraram com processos, geralmente perdidos, contra a exibição do filme em escolas, acusando-o de ser uma peça de ativismo político e não de ciência.


(foto: Divulgação)

Em países como Alemanha, México e Canadá, milhares de DVDs do filme foram distribuídos em escolas públicas. Já, nos Estados Unidos, a Associação Nacional de Professores de Ciência (NSTA) recusou a oferta de 50 mil DVDs gratuitos do filme, alegando que ele seria prejudicial à sua campanha de arrecadação. De fato, apurou-se que a associação havia recebido 6 milhões de dólares da Exxon Mobil ao longo da década anterior e que a petroleira tinha um membro no conselho diretor da associação. Não é um caso de ativismo político, é ativismo empresarial mesmo; mas esse pode.

A recepção ao filme nos circuitos oficiais dos EUA foi de frieza ou hostilidade. Perguntado sobre sua opinião sobre a mensagem do filme, o então presidente George Bush declarou laconicamente: “Duvido”. Que surpresa! Bush fez sua carreira na indústria do petróleo e o filme promove Al Gore, seu adversário nas confusas eleições para a presidência americana, que Bush venceu em 2000 no tribunal, e não nas urnas.

Essa fria recepção ilustra, mais uma vez, como se fosse necessário, o fosso abismal que separa a ciência e a política. Na época do lançamento do filme, uma revisão de cerca de 1.000 trabalhos científicos sobre clima em revistas indexadas e com conselho editorial indicou que seus autores apoiavam majoritariamente a tese da interferência humana no clima. Já um levantamento da cobertura midiática sobre o tema, na mesma época, mostrava um empate técnico entre conteúdos a favor e contra, demostrando que é mais fácil ignorar cientistas do que anunciantes peso-pesado e financiadores de campanhas, idem.

 

Missão cumprida

O documentário cumpriu sua missão de conscientizar milhões de cidadãos sobre a emergência ambiental do aquecimento global e deu novo impulso ao movimento ambientalista também global. Mas motivou uma contraofensiva do musculoso lobby dos setores empresariais responsáveis pelas maiores emissões de carbono. O filme foi taxado de polêmico e alarmista e qualquer cético do clima – de preferência, cientista e, melhor ainda, climatologista –, por mais isolado e pouco expressivo que fosse, passou a ser pesadamente apoiado, incensado e divulgado.

Mas, depois de mais relatórios do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), mais conferências internacionais sobre o clima e mais recordes de temperatura, emissão de carbono, seca, chuva e todo tipo de extremo climático, esse lobby mudou de estratégia. Após anos negando a existência do aquecimento e outros tantos contestando que ele fosse causado pelas emissões de carbono, passaram a glorificar o CO2 como composto natural, atóxico para o homem, exceto em altas concentrações, e benéfico para a produção agrícola, chegando a afirmar que as gerações futuras nos seriam gratas pela abundante emissão do gás.

Seria engraçado se não fosse trágico. Mas parece que os próprios lobistas reconheceram ter exagerado, e sua reação à sucessão de desastres climáticos foi um eloquente silêncio. Enquanto isso, rebatizaram as petroleiras como empresas de energia, e seus comerciais, agora, mostram intrépidos e sorridentes funcionários instalando… painéis fotovoltaicos! A mensagem? As petroleiras estão na liderança da conversão para uma economia de baixo carbono. Não sei se Josef Goebbels, funesto ministro da propaganda nazista, ficaria roxo de inveja diante disso ou se, ao contrário, sentiria o orgulho do mestre que vê seus discípulos mandando bem.

 

Triste rotina

Seja como for, o acúmulo de novas evidências científicas e a experiência pessoal em todos os recantos do planeta são inequívocos: o clima está cada vez mais extremo, imprevisível e perigoso. As notícias sobre as sucessivas quebras de recordes de temperatura – em geral para cima, mas às vezes para baixo – perderam a graça e o espaço, porque viraram triste rotina e ninguém mais questiona a sério a realidade das mudanças climáticas e a gravidade de suas consequências.


No Brasil, a baixa umidade na capital federal muda hábitos e provoca incêndios no cerrado.
foto: Renato Araújo / Agência Brasil)

No Brasil, tivemos nos últimos anos sucessivas secas, crise de abastecimento hídrico e elétrico, aumento de emissões de carbono devido ao acionamento de termoelétricas, enchentes e secas históricas na Amazônia, marés vermelhas e verdes, sucessivos verões escaldantes, quase um mês de sensação térmica de 40°C a 41°C em pleno outono carioca e, depois de chuvas torrenciais em pleno junho (mês historicamente seco), escrevo, no Rio de Janeiro, vestindo boné de lã e duas camadas de roupas quentes.

Já perguntaram diversas vezes aos produtores de Uma verdade inconveniente se não pensam fazer uma sequência atualizada. Costumam responder que sim, que seria bom e que têm um monte de ideias a respeito. Mas, duas décadas depois, ainda não há nada concreto. Dá para entender. Quem vai bancar um filme que reafirme o que já se disse há 10 anos, em mensagem que foi polêmica um tempo e agora é considerada um fato da vida pela maioria da população, com o agravante de que, nesse tempo todo, não se tomou nenhuma medida prática digna de nota para mitigar ou evitar suas piores consequências?

O problema para os produtores da eventual versão 2.0 começaria já na escolha do título. Uma verdade mais inconveniente ainda? Uma verdade constrangedora? Mudanças climáticas: eu avisei?

Não vale a pena. O tempo se encarregou de provar que os cientistas do clima e seu porta-voz, Al Gore, estavam certos, e o tempo é rei.

Assim como as mudanças climáticas agudas, o bem e o mal são invenções humanas. O livre-arbítrio também. Dependendo do rumo que tomarmos, podemos chegar a um equilíbrio negociado com a biosfera e durar um bom tempo como civilização. Ou podemos seguir destruindo nossos sistemas de suporte na voragem desenfreada do consumo e voltar rapidamente a ser só mais uma espécie pouco relevante e nada fotogênica.

Seja como for, temos bastante tempo para pensar. Nosso modesto planeta será engolido por um sol agonizante, mas só daqui a uns 5 bilhões de anos.

 

Jean Remy Guimarães
Instituto de Biofísica
Universidade Federal do Rio de Janeiro

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