O escritor na visão de seus contemporâneos

A crítica literária brasileira do final do século 19 acreditava que uma análise mais completa dos livros de Machado de Assis – ou de qualquer outro escritor – dependia da capacidade do crítico em identificar as correspondências entre a obra e o autor. Os livros então recém-lançados eram comumente apresentados ao público em resenhas literárias publicadas nos jornais, e, em curto espaço, traçava-se, em linhas gerais, a unidade entre obra e autor, normalmente designada como ‘temperamento artístico’ ou ainda ‘gênio literário’.

Ao ser delineado o gênio literário, ainda era frequente um passo além: julgar o valor desse temperamento em face do contexto social e político. Criavam-se, assim, perfis do escritor, ‘imagens’ ético/morais baseadas nessa correlação entre nuanças dos escritos e da figura pública, identificadas por cada crítico.

O quadro de correspondências entre a personalidade do autor, a obra e o contexto histórico – as quais compunham a descrição do temperamento artístico –, muitas vezes, dissimula o entrelaçamento de interpretações multifacetadas. Essas interpretações oscilam pelos mais variados motivos, desde o critério teórico empreendido pelo crítico, seus ideais políticos até as relações estabelecidas com o escritor analisado. Desse modo, seria uma tarefa difícil compor uma imagem coerente e íntegra do próprio Machado a partir dessa grande variedade de qualificações que lhes foram atribuídas.

Em vez de buscar uma imagem ‘real’ do temperamento artístico machadiano – ou qual perfil estaria ou não mais próximo da ‘exatidão’ –, talvez, o caminho mais interessante seja explorar justamente essa diversidade de perfis criados pelos críticos, e identificar elementos que ajudam a compreender tais ‘retratos’ de Machado de Assis. Portanto, por meio das resenhas críticas e poucos livros com maior densidade, não encontraremos especificamente Machado, mas as tentativas de ‘retratá-lo’.

Esboçar algumas dessas tentativas de retrato nos permite entender um pouco o contexto artístico e intelectual no qual estava imerso o próprio Machado e com quem sua literatura dialogou imediatamente. Para isso, serão tratados aqueles que mais condensaram em seus escritos certas formas de compreender o temperamento artístico de Machado e que, além disso, oferecem um panorama interessante do final do século 19 e início do seguinte. São eles os historiadores da literatura e críticos literários mais ilustres, o paraense José Veríssimo (1857-1916) e o sergipano Sílvio Romero (1851-1914).

 

Conflitos de olhares

Os perfis de Machado de Assis elaborados por Veríssimo e Romero expõem parâmetros divergentes de compreensão da crítica literária. No entanto, essa divergência não estava propriamente relacionada às escolhas teóricas. Ambos surgem no cenário público no bojo dos entusiasmos da tradição intelectual fundada pela Escola de Recife em 1870, que adaptava as teorias correntes, como o evolucionismo biológico e o racionalismo historiográfico, para os mais diversos ramos das humanidades e também para análise da literatura.


Sílvio Romero
(foto: Domínio Público)

Portanto, Romero e Veríssimo desenvolveram-se intelectualmente com afinidades teóricas que formaram a base para o naturalismo, devido às pretensões em relacionar as categorias de compreensão das sociedades e dos indivíduos com as obras literárias. Inclusive, os interesses desses dois críticos, muitas vezes, extrapolam a análise literária, dirigindo-se, em vários momentos de suas carreiras, para áreas de conhecimento mais próximas ao que viria a se tornar a antropologia, com estudos sobre formação racial e étnica, bem como do folclore brasileiro.

Essa incursão nos estudos da sociedade brasileira – especialmente, da população do campo – não era despropositada. Ao contrário; pois, na verdade, o estudo da literatura era um dos meios de conhecimento da realidade nacional, uma forma de compreender o próprio povo. Contar a história da literatura nacional significava, para eles, descrever a evolução da sociedade brasileira – principalmente, sua formação racial e moral.

Nesse contexto intelectual, o romantismo torna-se a escola a ser combatida. Logo no início de suas atividades intelectuais, Veríssimo, em  A literatura brazileira: sua formação e destino (1877), e Romero, em A poesia das Phalenas, publicado em 1870, no jornal A crença, caracterizaram a escola literária romântica como representante de uma literatura sem critérios racionais de apreensão da realidade, com idealizações a respeito dos índios e da sua importância histórica para a formação racial – portanto, com pretensões de escrever ficcionalmente a história nacional sem bases empíricas precisas.


José Veríssimo
(foto: Domínio Público)

Machado de Assis, identificado por ambos como um tardio representante desse gênero, foi alvo dos textos críticos de Veríssimo e Romero, sendo acusado nesses escritos de excesso de subjetivismo e descompasso com a estética científica emergente. Seus romances eram sempre urbanos e quase não tocavam em questões da miscigenação ou qualquer base ‘popular’.

Machado responderá às críticas em um dos seus ensaios mais célebres, A nova geração, de 1879, no qual defende o valor histórico do romantismo e ironiza os arroubos “radicais” da juventude – essa ironia recai principalmente sobre a poesia científica de Romero –, afirmando que, apesar de buscarem com tanto afinco a ruptura drástica com o romantismo, alguns membros dessa nova geração ainda “cheiram ao mais puro leite romântico”.

Esse primeiro perfil de Machado de Assis – como um romântico tardio de pendor subjetivista – é alterado em 1882 com a publicação do livro que define um marco entre os seus romances, Memórias póstumas de Brás Cubas, compreendido por alguns de seus contemporâneos como seu afastamento da escola romântica. É justamente a partir desse momento que é possível sinalizar a distinção entre as interpretações empreendidas por Romero e Veríssimo a respeito de Machado de Assis.

 

Dois descompassos

Romero procurou manter o sentido de sua perspectiva inicial, mas aguçou em muitas páginas a crítica depreciativa, em um livro inteiramente dedicado à análise da obra de Machado de Assis em comparação com a de Tobias Barreto (1839-1889), o grande nome da Escola de Recife e da geração de 1870, segundo o próprio Romero.

O livro, intitulado Machado de Assis, foi publicado originalmente em 1897, mas, apesar da distância de 18 anos em relação ao ensaio A nova geração, não consegue dissimular o ressentimento das reprimendas que sofreu. Independentemente da motivação vingativa do livro, Romero e seu pendor por “falar verdades” nos oferece um bom panorama das relações de compadrio da vida literária e seu mundo de críticas sem substância, apenas para “inglês ver”.

Segundo Romero, as relações pessoais ou interesse por ascensão social e status prevalecem sobre o mérito, esvaziando o rigor necessário à crítica literária. Ataca-se ou elogia-se apenas movido por interesses. Essa definição do ambiente intelectual brasileiro lhe fornece a base para identificar a consagração de Machado de Assis. Romero o descreve como um “mulato” sem grandes talentos e de desenvolvimento artístico tardio. Sua obra é vista como um projeto de ascensão social, sem nenhuma análise e com fumaças de pretensões filosóficas.

Mas, talvez, o desenho geral e decisivo de seu retrato seja a feição de inautenticidade que Romero confere ao temperamento artístico de Machado de Assis. O humorismo e o pessimismo frequentes na obra madura revelariam o descompasso de Machado com a realidade nacional no processo de formação racial. Descompasso em dois sentidos. Em primeiro lugar, destaca o descompromisso de Machado com a ação pública, para ele indispensável aos artistas e intelectuais. Em segundo, indica como o temperamento de Machado foi artificialmente modelado.

Para Romero, o brasileiro não é pessimista – pelo contrário. Apesar da raça em formação, o comportamento típico do brasileiro já dava sinais de ter afeição pela alegria, sem as tendências melancólicas dos pessimistas. E, além disso, os intelectuais e artistas teriam o compromisso de apresentar o quadro de desenvolvimento da nação, orientando – na medida das limitações que essas interferências possuem – para que a raça em formação consiga desenvolver suas potencialidades características.

Nada da postura cética que os narradores machadianos representavam, a observarem o mundo sem a energia e interesse para a ação. Machado de Assis, para Romero, seria a manifestação das inseguranças do processo de formação racial, pois teria se apoiado em modelos exógenos, como o pessimismo e humorismo característicos das raças germânicas. Esse estilo inautêntico decorreria de sua recusa em buscar em si e no seu entorno os elementos que corroborassem uma manifestação artística mais condizente com o brasileiro e, ainda, com os desafios políticos e sociais da época – pelo menos, tal como ele a compreendia.

 

Nova alternativa

O perfil de Machado passa por alterações mais radicais nos retratos tardios de Veríssimo. Isso não significa que o crítico de origem paraense tenha abandonado inteiramente suas influências naturalistas e deixado de considerar as categorias de raça e meio para compreender o pensamento e a imaginação nacionais. As categorias povo e nação ainda são referenciais importantes, pois Veríssimo empreendeu, assim como Romero, a pesquisa e escrita da História da literatura brasileira – aliás, título dado às principais obras de ambos –, com pretensão em encontrar traços comuns que conferissem unidade à literatura ‘brasileira’, bem como à formação nacional.


O jovem Machado aos 25 anos, em 1864.
(foto: Insley Pacheco / Domínio Público)

O curioso em relação ao projeto da História da literatura brasileira de Veríssimo é o lugar ocupado por Machado de Assis nessa narrativa da formação do espírito nacional. Ele é o último literato retratado, como se todo o desenvolvimento da literatura brasileira se encaminhasse na direção de Machado. Mas não é bem assim.

Repetindo comentários já delineados desde a resenha que escreve no Jornal do Brasil em 11 de janeiro de 1892, Veríssimo afirma que Machado ocupa “um lugar especial na literatura brasileira”, não por ser o principal nome ou mais importante nome dessa literatura, mas por ter características literárias e de temperamento incomuns, que não devem ser medidas por nenhum “critério nacionalístico”. No entanto, ao contrário da feição negativa conferida a Machado por Romero – o qual enxerga nesse ‘desvio’ a manifestação do temperamento inseguro e tendente à imitação –, Veríssimo considera Machado um gênio.

É necessário esclarecer a forma distinta como ambos compreendiam a genialidade. Para Romero, ela significa a expressão de um povo e momento histórico condensados em algum artista, pensador ou até mesmo em polemistas e oradores. Assim, a discrepância entre o temperamento de Machado e o nacional seria uma evidência de seu caráter comum e medíocre para a literatura.

Quando Veríssimo descreve Machado como gênio, sua intenção é bem diferente. Ele compartilha da mesma percepção de Romero sobre o caráter deslocado de Machado de Assis em relação ao temperamento nacional. Entretanto, esse ‘desvio’ ganha contornos positivos para Veríssimo, pois demonstraria a capacidade de Machado preservar e desenvolver sua individualidade autêntica, indiferente ao ambiente moral refratário ao culto estético e à leitura.

Desse modo, uma das modalidades de genialidade é justamente essa estranheza frente ao meio, por ter temperamento destoante em relação à cor local. Considerar Machado como um gênio peculiar e, mesmo assim, colocá-lo no final de sua narrativa da história literária brasileira cria nova alternativa à crítica e historiografia literárias, pois aponta para a possibilidade, ainda que incomum, de a arte não significar necessariamente um meio de compreensão do povo, ainda mais por meio de referenciais teóricos, como raça e miscigenação.

 

Imitador ou gênio?

O debate a respeito do temperamento literário de Machado de Assis – primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras – trata, indiretamente, do papel do escritor no cenário público. Quais são os compromissos do literato com a sociedade?

Para Romero, esses compromissos passam pela atuação sistemática na vida política. O gênio, por ser a forma concentrada das características do povo, de sua autenticidade, guia o movimento das transformações raciais e sociais por meio de ideais mais fortes e mais bem adaptados. Luta constantemente contra tudo aquilo que lhe seria exógeno e artificial. Machado de Assis, portanto, seria apenas um desvio a ser superado e esquecido no processo de seleção histórico.

Para Veríssimo, Machado de Assis simboliza a autonomia da literatura frente à sociedade. Apesar de condicionada pela nacionalidade, há outro caminho possível para a literatura, ainda que raro: a individualidade que mantém sua autenticidade em contraponto ao temperamento nacional. Desse modo, a genialidade não adviria apenas da raça; ela poderia brotar das experiências subjetivas e peculiares. Nessa via de expressão da genialidade, a luta é pela autonomia, um ato de defesa contra a mediania que residiria na sociedade. E, para vencer essa expansão, é necessário o recolhimento, com controle do próprio ímpeto ou, pelo menos, a aparência de imparcialidade.

Esse embate na interpretação de Machado de Assis – entre o imitador e o gênio independente – aponta para as próprias possibilidades de ser artista na sociedade brasileira do período, uma disputa pelos modelos que dão outro significado às simpatias e antipatias pessoais desses importantes intelectuais em relação a Machado.

 

Sugestões para leitura

AGUIAR, M. M. ‘Machado de Assis em perspectiva:os olhares divergentes de Sílvio Romero e José Veríssimo’. Sociologia & Antropologia, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, pp. 269-296, abril 2015.

 

Maurício Maia Aguiar
Unidade Acadêmica de Ciências Sociais
Universidade Federal de Campina Grande (PB)

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