Cooperação materna entre aracnídeos

Programa de Pós-Graduação em Ciências Aplicadas a Produtos para a Saúde
Universidade Estadual de Goiás
Laboratório de Diversidade, Comportamento e Conservação de Aracnídeos
Universidade Estadual de Goiás
Laboratório de Diversidade, Comportamento e Conservação de Aracnídeos
Universidade Estadual de Goiás

No cerrado brasileiro, pequenas criaturas revelam um segredo evolutivo: mães que cuidam de filhotes com ajuda de outras fêmeas garantem uma maior sobrevivência da próxima geração. Trata-se dos pseudoescorpiões da espécie Paratemnoides nidificator. Pesquisas mostram que esse trabalho em equipe é fundamental para manter coesas as raras sociedades de pseudoescorpiões.

CRÉDITO: FOTO DE JOSÉ ROBERTO PERUCA, LICENCIADA COMO CC BY 2.0

Figura 1. Colônia de Paratemnoides nidificator em casca de árvore. Na imagem, as fêmeas grávidas estão construindo seus ninhos de seda

CRÉDITO: EVERTON TIZO PEDROSO

Imagine um pequeno aracnídeo de poucos milímetros, escondido sob a casca rugosa de uma árvore viva, no calor do cerrado. Para encontrá-lo, é preciso paciência, atenção e um olhar treinado. Essa é a morada do Paratemnoides nidificator, um pseudoescorpião social que desafia as expectativas: em vez de viver sozinho e ser agressivo, como a maioria das espécies do seu grupo, constrói sociedades cooperativas.

Mas o/a leitor/a já viu um desses aracnídeos? Os pseudoescorpiões pertencem à ordem Pseudoscorpiones e, como o nome indica, não são escorpiões. Medem apenas alguns milímetros (geralmente, de 1 a 4 mm), têm pinças semelhantes às de escorpiões na parte frontal do corpo, mas não possuem cauda nem ferrão.

Muitas vezes passam despercebidos, vivendo em ambientes como solo, folhiço ou sob cascas de árvores, onde caçam pequenos insetos e ácaros. Apesar do tamanho diminuto, desempenham papel importante no equilíbrio dos ecossistemas, controlando populações de invertebrados menores.

Podem ter ou não glândulas de veneno associadas às suas pinças; porém, são inofensivos aos humanos. O veneno é usado para capturar suas presas. Embora esses aracnídeos sejam pouco conhecidos pela maioria das pessoas, existem mais de 4.100 espécies de pseudoescorpiões em todo o mundo e cerca de 190 espécies no Brasil.

A grande maioria das espécies é solitária, vive em micro-hábitats, e os indivíduos se encontram durante a reprodução. Contudo, para a espécie Paratemnoides nidificator, o comportamento é diferente. Esse aracnídeo é bem distribuído pela América do Sul e é muito abundante sob as cascas de árvores do cerrado.

Muitas árvores desse bioma têm cascas rugosas, favorecendo que os pseudoescorpiões, por serem pequenos, se abriguem nesses micro-hábitats. Sob as cascas das árvores, esses aracnídeos podem constituir colônias com dezenas ou centenas de indivíduos – fêmeas reprodutoras, machos, jovens e indivíduos ajudantes –, todos trabalhando de forma coordenada para proteger e alimentar a próxima geração.

Tal comportamento é tão raro entre os pseudoescorpiões que, até hoje, P. nidificator é a única espécie conhecida com vida social permanente e organizada. O que torna esse animal tão especial não é apenas sua estrutura social incomum, mas a forma como divide a tarefa mais importante de todas: garantir que os filhotes sobrevivam.

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