Corpo em chamas: o que é o envelhecimento inflamatório?

Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro

O que aquela refeição de domingo que, por descuido, acaba queimada numa panela em fogo baixo tem a ver com o envelhecimento de nosso organismo? Pode soar estranho, mas há similaridades entre esses dois processos tão díspares. O envelhecimento pode ser entendido como um ‘banho-maria’ que está na base do surgimento de inflamações que levam ao aparecimento de várias doenças. A boa notícia é que a ciência já tem como diminuir os efeitos dessa ‘fervura’ persistente e silenciosa, por meio de terapias ou manipulação celular.

CRÉDITO: ILUSTRAÇÃO RAFAELA PASCOTTO

É domingo, e você está preparando um almoço para a família e sem querer esquece uma panela em fogo baixo. Aos poucos, o caldo na panela vai ficando espesso, vai secando, e, então, o ar é tomado pelo cheiro de queimado. Nesse momento, a comida queimou e perdeu o sabor original. 

Agora, imagine esse processo acontecendo lentamente dentro de seu corpo, à medida que você envelhece. Esse ‘fogo’ de baixa intensidade – que persiste por muito tempo em nosso organismo – tem nome técnico derivado da língua inglesa: inflammaging.

À medida que envelhecemos, nosso corpo passa por diversas mudanças. Algumas delas são visíveis, como rugas e cabelos brancos, mas muitas acontecem por dentro, de forma silenciosa. A palavra inflammaging foi criada na década de 2000, pelo pesquisador italiano Claudio Franceschi, da Universidade Estadual de Lobachevsky (Rússia). 

Esse termo é a união das palavras em inglês ‘inflammation’ (inflamação) e ‘aging’ (envelhecimento). Em português, podemos usar a expressão ‘envelhecimento inflamatório’, que designa o processo de inflamação crônica de baixa intensidade que se instala no corpo ao longo da vida. 

O inflammaging não é aquela inflamação aguda, como a que ocorre quando torcemos o tornozelo ou pegamos gripe. Esta é útil e faz parte da defesa do organismo: o inchaço que se forma numa torção é uma tentativa do organismo para cicatrizar os vasos e o tecido lesionado. Numa infecção, como a gripe viral, a inflamação é essencial para ajudar nosso sistema de defesa a impedir a proliferação do patógeno. Esses são exemplos de processos inflamatórios agudos, de curta duração, e, geralmente, autorresolutivos, ou seja, se curam naturalmente. 

No inflammaging, a inflamação é persistente e discreta, ocorrendo mesmo quando não há uma infecção ou lesão clara. É como um ‘ruído’ inflamatório constante que, com o tempo, provoca desgaste nas células e nos tecidos. 

Esse conceito foi revolucionário, porque possibilitou a visão de que o processo inflamatório, ao longo da vida, poderia, no fim das contas, ser benéfico ou prejudicial. Essa dicotomia entre a inflamação ser boa ou ruim é facilmente influenciada por fatores genéticos e ambientais. Isso porque a teoria criada por Franceschi diz que existem agentes estressores que afetam o organismo, podem influenciar seus próprios mecanismos de retroalimentação e, em conjunto, contribuir para o envelhecimento.

O inflammaging não é aquela inflamação aguda, como a que ocorre quando torcemos o tornozelo ou pegamos gripe

Nossa panela no fogo

Em seu estudo, Franceschi empregou o sistema imunológico como modelo para tentar explicar como fenômenos isolados do corpo humano podem ser integrados a um sistema complexo e, por sua vez, impactar o organismo como um todo. 

Imagine que os estressores desse sistema são vírus, bactérias, fungos ou parasitos. À medida que crescemos, nosso organismo é frequentemente exposto a esses micro-organismos, e, a cada nova exposição, nosso sistema imunológico pode se comportar de duas formas possíveis: i) inflamar de forma comedida e adequada, controlando esse estresse. Ii) subverter-se e responder de forma exagerada, provocando uma inflamação sustentada em longo prazo. 

Em ambos os casos, em grande parte, o organismo controla a inflamação em algum grau, mas sempre restam células de defesa de memória a postos, caso uma nova exposição a esse estresse ocorra – esse fenômeno é denominado imunobiografia. 

A imunobiografia é o conjunto de todas as experiências imunológicas de uma pessoa ao longo da vida (infecções, vacinas, exposições ambientais), que moldam o funcionamento de seu sistema imunológico. 

Portanto, com base nesse mecanismo, garantimos a diminuição do número de doenças evitáveis pela vacinação, com a qual estressamos de forma controlada o organismo para que, quando haja novo encontro com o patógeno, o corpo esteja preparado. 

O que acontece com o envelhecimento é que parte dessas células – que um dia responderam a um estressor – se torna senescente ou exausta. Isto é, as células caducas se tornam disfuncionais, mas seu metabolismo segue ativo, produzindo de forma persistente baixos níveis de radicais livres e moléculas que inflamam o organismo ao longo do tempo. 

É a nossa panela que está em fogo baixo no almoço de domingo.

O que acontece com o envelhecimento é que parte dessas células – que um dia responderam a um estressor – se torna senescente ou exausta

Pano de fundo

Atualmente, há grande interesse da comunidade científica em entender, de fato, quais são os estressores que deflagram o inflammaging e o quanto cada um deles contribui para a evolução desse processo. 

A base de toda essa inflamação silenciosa está diretamente relacionada ao processo de senescência (envelhecimento) celular e aos mecanismos que a induzem. Esses estressores podem ser divididos em três grandes grupos: 

  1. i) estressores celulares intrínsecos: fenômenos comuns em células senescentes que danificam suas estruturas (telômeros, mitocondriais, DNA etc.); 
  2. ii) estressores sistêmicos e ambientais: um exemplo é o chamado estresse oxidativo crônico – danos causados nas células, proteínas e no DNA, por moléculas muito reativas quimicamente, como os radicais livres de oxigênio. Esse processo é desencadeado por exemplo, por poluição, tabagismo ou exposição solar, bem como infecções latentes, desequilíbrio da flora intestinal, sedentarismo e obesidade; 

iii) falhas do organismo na remoção das células caducas.

 

E por que o inflammaging é tão importante? Porque é um dos principais motores de doenças relacionadas ao envelhecimento. A inflamação crônica de baixa intensidade aumenta o risco de problemas como doenças cardiovasculares (como infarto e AVC); diabetes tipo 2; doenças neurodegenerativas (como Alzheimer e Parkinson); osteoporose (degeneração óssea); artrites e dores musculoesqueléticas, bem como certos tipos de câncer. 

Por isso, se diz que o inflammaging é ‘o pano de fundo’ de grande parte das doenças crônicas modernas. Além disso, o estudo dessa inflamação crônica em baixo grau permite a descoberta precoce de biomarcadores (‘sinais’ moleculares) que podem indicar a ‘idade biológica’ de uma pessoa – algo importante para o aperfeiçoamento da medicina personalizada e a extensão da longevidade.

Do ponto de vista socioeconômico, retardar doenças crônicas, por meio do entendimento desse processo, significa reduzir custos exacerbados com saúde e promover o desenvolvimento de uma população idosa mais ativa e independente

E por que o inflammaging é tão importante? Porque é um dos principais motores de doenças relacionadas ao envelhecimento

Rede antiestresse

Agora, as boas notícias. Já se sabe que o próprio organismo é capaz de minimizar o impacto desses estressores, por meio de uma rede antienvelhecimento natural que inclui os processos antioxidantes, anti-inflamatórios e antitumorais. Portanto, o próprio sistema imunológico age como uma rede antiestresse. 

Mais notícias tranquilizadoras. Pesquisadores têm dado grande atenção ao inflammaging como alvo terapêutico, na tentativa de reduzir seus efeitos deletérios no organismo. Uma dessas iniciativas é o estudo dos senolíticos – medicamentos que eliminam células senescentes do organismo – e senomórficos – medicamentos que suprimem a inflamação celular, modulando o comportamento das células senescentes, sem matá-las. 

No caso da abordagem senolítica, a terapia mais promissora atualmente provém do uso da combinação de compostos denominados dasatinibe, quercetina e fisetina. 

Apesar de os estudos para o uso dessas substâncias contra o inflammaging ainda estarem em fase clínica inicial, o dasatinibe já é amplamente usado no tratamento de alguns cânceres. Esse fármaco bloqueia proteínas que enviam sinais para que células cancerosas cresçam e se multipliquem, levando à inibição da proliferação e à morte delas, sendo usado principalmente no tratamento da leucemia mieloide. 

A quercetina e a fisetina são flavonoides naturais encontrados em frutas, como morango, maçã e caqui, e em vegetais, como brócolis e cebola. 

Flavonoides são compostos naturais de origem vegetal que fazem parte de outro grupo de moléculas, os polifenóis, responsáveis por pigmentos, proteção e defesa das plantas. No organismo humano, os flavonoides atuam principalmente como antioxidantes e moduladores de processos inflamatórios e imunológicos. 

Portanto, uma alimentação natural e saudável traz benefícios à saúde, por causa da ingestão dessas substâncias. Mas, para seu uso contra o inflammaging, os flavonoides devem ser manipulados para que tenham pureza e concentração adequadas.

Portanto, uma alimentação natural e saudável traz benefícios à saúde, por causa da ingestão dessas substâncias

Modulando o comportamento

Atualmente, os principais compostos com potencial senomórfico contra o inflammaging são a rapamicina, a metformina e o ruxolutinibe. Todos têm sua segurança clínica comprovada, porque são usados para o tratamento de outras doenças. 

A rapamicina (ou sirolimo) é um medicamento imunossupressor e modulador do metabolismo celular, que inibe uma proteína chamada mTOR, a qual controla o crescimento, a proliferação, o metabolismo e o envelhecimento das células. 

Com isso, a rapamicina reduz a ativação e proliferação de células do sistema imune – daí ser tão usada para evitar rejeição de transplantes. Essa molécula também diminui o crescimento celular (inclusive, de células tumorais) e estimula processos de autofagia, ou seja, a remoção de componentes celulares danificados que geram inflamação. 

Ou seja, a rapamicina ‘desacelera’ o crescimento e a ativação celular, ao bloquear a mTOR. Por isso, está sendo estudada por seu potencial efeito na longevidade e no envelhecimento imunológico. 

Usada amplamente no controle do diabetes, a metformina também funciona como freio da senescência celular, atuando em mecanismos centrais do envelhecimento metabólico e imunológico, reduzindo a inflamação crônica sem causar imunossupressão direta. 

Diferentemente da metformina ou da rapamicina, o ruxolitinibe é um imunomodulador potente, com risco de imunossupressão. Por isso, isso não é usado como estratégia preventiva, mas, sim, só em contextos clínicos bem definidos. Ele inibe a ação de moléculas (citocinas) responsáveis pela comunicação da inflamação entre células.

Evidências crescentes indicam que aumentar a diversidade das bactérias intestinais – favorecendo espécies benéfi cas para nosso organismo – diminui marcadores infl amatórios em idosos

Alvo: intestino

Outra frente importante é a modulação do micro-organismos (microbiota) do intestino. Como esse órgão exerce papel central na regulação da imunidade, pesquisadores investigam se probióticos, prebióticos e até transplantes fecais de microbiota podem ajudar a reduzir a inflamação crônica sistêmica.

Evidências crescentes indicam que aumentar a diversidade das bactérias intestinais – favorecendo espécies benéficas para nosso organismo – diminui marcadores inflamatórios em idosos. 

Também há grande interesse em terapias que buscam ‘rejuvenescer’ o sistema imunológico, com base no estímulo da produção de novas células de defesa, bem como a correção de disfunções em células já existentes e o uso de terapias celulares para melhorar a vigilância imunológica. 

Essa vigilância de nosso sistema imunitário é sua capacidade de reconhecer e eliminar continuamente micro-organismos e células anormais, como aquelas infectadas por vírus ou tumorais, antes que causem doença. Portanto, o objetivo das terapias baseadas no sistema imunológico é restaurar o equilíbrio das respostas inflamatórias e tornar o organismo mais eficiente em sua própria proteção. 

Paralelamente, cresce o reconhecimento científico do impacto das intervenções no estilo de vida, que hoje são consideradas estratégias de primeira linha contra o inflammaging. Exercícios físicos regulares ajudam a reduzir marcadores inflamatórios; dietas anti-inflamatórias favorecem a saúde celular; o sono adequado regula o sistema imunológico; e o manejo do estresse diminui a liberação de hormônios que alimentam a inflamação crônica. 

Em muitos casos, esses hábitos mostram resultados tão relevantes quanto alguns tratamentos farmacológicos em estudo. Além disso, um novo campo vem ganhando destaque na terapia contra o inflammaging: o futuro das intervenções consolida-se no paradigma da chamada gerociência de precisão, que substitui abordagens genéricas por estratégias personalizadas e minimamente invasivas. 

Esse avanço integra o desenvolvimento de senolíticos de próxima geração, como conjugados de uma proteína (anticorpo) e um fármaco, bem como de pró-fármacos ativados seletivamente no ambiente das células senescentes de tecidos de difícil acesso – aos quais são levados por meio de nanopartículas.

Assim, a gerociência de precisão não é uma solução única, mas, sim, uma integração de diagnósticos avançados e terapias altamente direcionadas, visando ao rejuvenescimento sistêmico de forma personalizada

Integração e combinação

Paralelamente, os senomórficos evoluem para uma modulação seletiva das células que, guiada por inteligência artificial, suprime componentes inflamatórios danosos, enquanto preservam sinais reparadores.

Assim, a terapia combinada torna-se central, ao articular pré-tratamentos senomórficos, eliminação seletiva de células caducas (senólise), terapias regenerativas e intervenções de estilo de vida. Tudo isso para que haja sinergia entre os efeitos terapêuticos. 

No diagnóstico, a integração da chamada multiômica – ou seja, integração de dados de múltiplas camadas moleculares de uma única célula – e de biomarcadores sanguíneos ou genéticos – que medem a idade biológica do paciente – permite mapear a heterogeneidade da senescência e orientar intervenções personalizadas com base no perfil molecular individual de envelhecimento. 

Assim, a gerociência de precisão não é uma solução única, mas, sim, uma integração de diagnósticos avançados e terapias altamente direcionadas, visando ao rejuvenescimento sistêmico de forma personalizada.

Por fim, as terapias de longevidade e reparo celular representam uma área emergente de grande potencial para a pesquisa básica e clínica médica. Elas incluem o uso de ativadores das sirtuínas, proteínas envolvidas no reparo de nosso DNA; de compostos que melhoram a função mitocondrial; e de técnicas de reprogramação celular parcial, capazes de devolver às células características mais jovens, sem comprometer sua identidade. 

Em conjunto, essas estratégias visam a desacelerar o envelhecimento biológico e, como consequência, reduzir o inflammaging. Afinal, minimizar os danos externos causados pelo envelhecimento é importante, mas mitigar os efeitos deletérios internos sobre nossas células e nossos tecidos é o que vai nos levar à longevidade com saúde.

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