É domingo, e você está preparando um almoço para a família e sem querer esquece uma panela em fogo baixo. Aos poucos, o caldo na panela vai ficando espesso, vai secando, e, então, o ar é tomado pelo cheiro de queimado. Nesse momento, a comida queimou e perdeu o sabor original.
Agora, imagine esse processo acontecendo lentamente dentro de seu corpo, à medida que você envelhece. Esse ‘fogo’ de baixa intensidade – que persiste por muito tempo em nosso organismo – tem nome técnico derivado da língua inglesa: inflammaging.
À medida que envelhecemos, nosso corpo passa por diversas mudanças. Algumas delas são visíveis, como rugas e cabelos brancos, mas muitas acontecem por dentro, de forma silenciosa. A palavra inflammaging foi criada na década de 2000, pelo pesquisador italiano Claudio Franceschi, da Universidade Estadual de Lobachevsky (Rússia).
Esse termo é a união das palavras em inglês ‘inflammation’ (inflamação) e ‘aging’ (envelhecimento). Em português, podemos usar a expressão ‘envelhecimento inflamatório’, que designa o processo de inflamação crônica de baixa intensidade que se instala no corpo ao longo da vida.
O inflammaging não é aquela inflamação aguda, como a que ocorre quando torcemos o tornozelo ou pegamos gripe. Esta é útil e faz parte da defesa do organismo: o inchaço que se forma numa torção é uma tentativa do organismo para cicatrizar os vasos e o tecido lesionado. Numa infecção, como a gripe viral, a inflamação é essencial para ajudar nosso sistema de defesa a impedir a proliferação do patógeno. Esses são exemplos de processos inflamatórios agudos, de curta duração, e, geralmente, autorresolutivos, ou seja, se curam naturalmente.
No inflammaging, a inflamação é persistente e discreta, ocorrendo mesmo quando não há uma infecção ou lesão clara. É como um ‘ruído’ inflamatório constante que, com o tempo, provoca desgaste nas células e nos tecidos.
Esse conceito foi revolucionário, porque possibilitou a visão de que o processo inflamatório, ao longo da vida, poderia, no fim das contas, ser benéfico ou prejudicial. Essa dicotomia entre a inflamação ser boa ou ruim é facilmente influenciada por fatores genéticos e ambientais. Isso porque a teoria criada por Franceschi diz que existem agentes estressores que afetam o organismo, podem influenciar seus próprios mecanismos de retroalimentação e, em conjunto, contribuir para o envelhecimento.