Baunilha: ancestralidade, química e farmacologia

Instituto de Química
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Uma história sobre valorização do conhecimento tradicional demonstrou que a ciência não se constrói apenas por métodos consagrados e resultou num Prêmio Nobel

CRÉDITO: ADOBE STOCK

Densas florestas tropicais cortadas pelo rio Mekong, clareiras onde despontam linhas verdes bem traçadas sobre os córregos que irrigam as plantações de arroz, helicópteros, intensas trocas de tiros e a bravura daqueles que protegiam seu território em contraste com o heroísmo apático de soldados que, muitas vezes a contragosto, deixaram seu país e suas famílias para se juntar ao combate. Para a maior parte da população ocidental, a Guerra do Vietnã (1955-1975) foi relatada por meio de cenas e diálogos apresentados em produções estadunidenses icônicas, como Apocalypse Now (1979) e Platoon (1986). Pouca gente sabe, porém, que, apesar das bombas lançadas de forma indiscriminada e das minas terrestres que ainda hoje são encontradas sob o solo do sudeste asiático, a malária, doença causada por protozoários do gênero Plasmodium e transmitida pelo mosquito Anopheles, despontou como uma das principais causas de morte durante o conflito.

No final da década de 1960, a cloroquina, principal arma disponível para o combate à malária, começava a perder sua força em razão da resistência desenvolvida pelo Plasmodium. Ambos os lados tentavam soluções, e os vietnamitas voltaram-se para a China em busca de ajuda. Reza a lenda que Mao Tsé-tung (1893-1976) em pessoa atendeu ao chamado, lançando o programa de pesquisa que depois seria nomeado de 523, em referência à sua data oficial de início, 23 de maio de 1967.

Cerca de 60 pesquisadores civis e militares se juntaram ao projeto, e duas frentes foram abertas: parte foi para regiões onde a malária era endêmica, buscando informações sobre tratamentos tradicionais, outra parte seguiu uma abordagem mais moderna, por meio do desenho de novas moléculas e da realização de testes em laboratório. Nos primeiros dois anos do projeto, mais de 20 mil moléculas foram testadas. Porém, nada se mostrava promissor.

A história da artemisinina mostra, de forma clara, que a ciência não se constrói apenas por meio de seus métodos consagrados. Ela depende, sobretudo, do acúmulo de conhecimento e da valorização das descobertas daqueles que vieram antes.

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