Crimes reais em foco: o fascínio pelo obscuro

Físico e divulgador de ciência no canal Ciência Nerd
Universidade Federal de Juiz de Fora

A explosão de popularidade de séries, filmes e podcasts sobre assassinatos e outros atos criminosos que chocaram a sociedade reflete o lado sombrio da curiosidade e do comportamento humanos e desperta importantes dilemas éticos

CRÉDITO: DIVULGAÇÃO

A série de TV ‘Dahmer: O Canibal Americano’, da Netflix, conta a história de um dos maiores assassinos em série dos Estados Unidos, Jeffrey Dahmer, destacando o ponto de vista
das vítimas e as falhas da polícia nas investigações

Você já se pegou maratonando uma série documental sobre um caso de assassinato antigo, ouvindo horas de um podcast que detalha cada aspecto de um crime sem solução ou mergulhando em um livro que dissecou a mente de um serial killer? Então você é adepto de um fenômeno global que tem atraído muitas pessoas no mundo todo: o ‘true crime’ (ou ‘crime real’, em tradução livre). 

O true crime é um gênero narrativo que explora crimes reais e diversos, mas geralmente envolve histórias de assassinato. São livros, séries, filmes e podcasts que narram e investigam os fatos, as vítimas, os criminosos e até o sistema judicial. 

Com narrativas envolventes e doses altas de sensacionalismo, o true crime explodiu em popularidade nos últimos anos, especialmente no formato de podcasts e séries de streaming. Mas o que nos atrai tanto nessas histórias muitas vezes sombrias e perturbadoras? E quais são as reais consequências desse fascínio, tanto para quem consome quanto para as vítimas e a própria justiça?

Crimes e violência são atraentes?

A curiosidade humana por coisas macabras e assustadoras é bem mais antiga do que as pessoas imaginam. Na Inglaterra do século 16, a cobertura jornalística de crimes era tão popular que se difundia na forma de panfletos – pequenos livros que detalhavam assassinatos chocantes. Nos séculos 17 e 18, as punições públicas (como os enforcamentos) eram verdadeiros espetáculos que reuniam a população para assistir aos criminosos pagarem por seus atos. Era uma espécie de ‘true crime ao vivo’, uma forma de ver a justiça sendo feita em tempo real.

No século 19, peças de teatro recriavam crimes famosos em Londres, e lembrancinhas com a imagem de assassinos eram vendidas após execuções. No século 20, a obsessão por casos como os dos assassinos em série Ted Bundy ou Jeffrey Dahmer, nos Estados Unidos, com seus julgamentos televisionados e a exibição de artefatos de crime em museus, apenas confirmou que o fascínio pelo crime real é uma constante em nossa história, adaptando-se às tecnologias e mídias de cada era.

É evidente que nossa atração por esse tipo de conteúdo é antiga. Mas de onde ela vem? O que faz as pessoas gostarem tanto desse gênero narrativo? 

As pesquisadoras Amanda Vicary e R. Chris Fraley descobriram que mulheres são mais atraídas por histórias de true crime do que homens e o que as motiva é uma busca, ainda que inconsciente, por conhecer maneiras de evitar ou sobreviver a crimes violentos. Conhecer as táticas de um agressor ou fatores que levaram uma pessoa a se tornar vítima pode trazer a sensação de estar se preparando para um possível acontecimento no mundo real e adquirindo um repertório mental de defesa, o que as faz se sentirem mais seguras.

Outro fator importante é o desejo de compreender a mente criminosa. Atos de violência extrema são profundamente perturbadores e fazem com que a gente se pergunte ‘por quê?’. O que leva um ser humano a cometer crimes tão horríveis? Será que são mesmo humanos, como eu? Nesse sentido, o true crime oferece uma espécie de janela para o abismo, um vislumbre do que deve se passar na cabeça dessas pessoas.

E, claro, existe também o elemento do mistério e da emoção. O suspense de um caso sem solução, a tensão de uma investigação, a catarse ao ver a justiça sendo feita (ou não) – tudo isso gera uma experiência afetiva que nos prende.

Efeitos do true crime na mente

A cientista Corinna Perchtold-Stefan, do Departamento de Psicologia da Universidade de Graz, na Áustria, tem feito diversas pesquisas sobre o lado mais obscuro do comportamento humano. Em um de seus estudos recentes, 199 participantes foram avaliados por um período de duas semanas a partir de registros em diários. Ela percebeu que a ansiedade experimentada pelos participantes ao longo de um dia os impulsionou a buscar conteúdos de true crime mais violentos no dia seguinte. Da mesma forma, quem consumia true crime em um dia tendia a ter níveis mais baixos de ansiedade no próximo.

Corina acredita que a busca por esse tipo de conteúdo poderia funcionar como um mecanismo de regulação emocional, uma espécie de ‘campo de treinamento’, um espaço seguro para lidar com nossos próprios medos. As histórias contadas nas mídias de true crime, por mais violentas e sombrias que sejam, podem ser pausadas a qualquer momento, podem ser assistidas com as luzes acesas ou na presença de companhias. Esse controle total da situação pode servir como uma maneira de exercitar a mente em um cenário de ameaça controlada, resultando em uma melhora do humor e redução da ansiedade e podendo até aumentar a resiliência contra ameaças da vida real.

Esse ‘treinamento emocional’ é particularmente evidente entre as mulheres. Ao observar os detalhes de como os crimes acontecem e como as pessoas reagem, elas buscam estratégias para aumentar sua segurança. E isso tem um efeito positivo no cérebro, porque as ajuda a processar a ansiedade de modo mais adaptativo, desenvolvendo uma capacidade maior de reavaliação cognitiva (ou seja, de mudar a forma de pensar sobre algo assustador) e de encontrar novas maneiras de lidar com as emoções.

Além do lado pessoal, Corina e sua equipe notaram que o consumo de true crime, especialmente em podcasts e redes sociais, pode gerar um forte senso de comunidade. As pessoas se reúnem on-line para discutir os casos, compartilhar suas teorias e oferecer apoio umas às outras. Para quem já sofreu algum tipo de violência, encontrar outros com experiências parecidas pode ser muito reconfortante.

Mas até que ponto essa atração pelo true crime é saudável? Existem efeitos negativos quando se consome esse conteúdo com muita frequência?

Um dos efeitos mais preocupantes é o possível aumento do medo, da ansiedade e da paranoia. A exposição constante a histórias de crimes pode levar à chamada ‘síndrome do mundo mau’, um viés cognitivo que nos faz pensar que o mundo é muito mais hostil e sombrio do que realmente é.

Para quem já foi vítima de crimes violentos, o true crime pode ser especialmente doloroso. Reviver mentalmente situações semelhantes ao seu próprio trauma pode levar a um processo chamado ‘retraumatização’, quando feridas emocionais são reabertas e provocam sintomas de ansiedade e depressão, podendo até levar ao transtorno de estresse pós-traumático.

Outro ponto negativo é a desconfiança no sistema de justiça. Ao ver casos de corrupção policial, erros judiciais ou falhas na investigação, muitas pessoas perdem a fé nas instituições que deveriam proteger a sociedade. Isso pode gerar raiva, frustração e uma sensação de impotência, afetando nossa percepção sobre a eficácia da justiça. O mesmo não ocorre quando se consome conteúdos ficcionais.

Por fim, alguns estudos também apontam para uma possível ligação entre o consumo de true crime e características de personalidade mais antagônicas, como agressividade, narcisismo (muito amor próprio) e maquiavelismo (tendência a manipular os outros). Não se sabe ao certo se o true crime alimenta essas características ou se pessoas que já as possuem são mais atraídas por esse tipo de conteúdo. De qualquer forma, é um sinal de alerta de que essa imersão pode, para alguns, fomentar uma visão menos empática do mundo.

O podcast ‘O caso Evandro’, do Projeto Humanos, conta a história do assassinato brutal de um menino de 6 anos, suspeito de ter sido sacrificado em um ritual satânico no Paraná

Dilemas éticos

As formas como as mídias de true crime são produzidas e consumidas levantam algumas questões éticas muito importantes. Uma das críticas mais fortes que se fazem é a exploração das vítimas e de suas famílias. Pense nas famílias dos casos retratados em séries como a do assassino em série norte-americano Jeffrey Dahmer. Muitas delas não foram consultadas ou deram consentimento para o uso de nomes e detalhes gráficos dos crimes. 

Shirley Hughes, mãe de uma das vítimas, expressou sua raiva e descrença por ver a história de seu filho explorada sem sua permissão. É justo forçar essas pessoas a reviverem seus traumas publicamente, a terem a história de seus familiares contada de maneira sensacionalista (e, muitas vezes, equivocada), a terem a sua dor monetizada e transformada em entretenimento para os outros?

Outra questão ética é a elevação dos criminosos a um status de celebridade. Alguns desses assassinos em série são glorificados, possuem fã-clubes e recebem cartas e até propostas de casamento na prisão. Essa admiração doentia apaga completamente o ponto de vista das vítimas e desrespeita o sofrimento que elas passaram e que passam suas famílias.

E o impacto do true crime também se estende ao próprio sistema de justiça. Por um lado, esse tipo de conteúdo pode atrair a atenção da mídia para casos arquivados sem solução ou investigações controversas, podendo inclusive gerar novas pistas e reabrir discussões, como ocorreu com o podcast ‘O caso Evandro’, sobre o assassinato brutal de um menino de 6 anos no Paraná em 1992, entre muitos outros.

No entanto, essa mesma atenção da mídia pode se tornar um obstáculo para a justiça. A grande visibilidade de um caso pode gerar muitas pistas falsas e até prejudicar o direito a um julgamento justo, ao criar preconceitos no júri ou influenciar a opinião pública antes mesmo que as evidências sejam apresentadas no tribunal. Além disso, sob o pretexto de se construir uma narrativa mais interessante, a realidade dos eventos pode ser distorcida e fatos importantes podem ser omitidos, a ponto de interferir na percepção da culpa ou inocência de uma pessoa.

A série de TV ‘Tremembé’, sucesso da Prime Video, retrata a relação entre criminosos famosos dentro do presídio em que cumpriam ou ainda cumprem pena, alçando muitos deles ao status de celebridade

Vilão ou mocinho?

Nossa curiosidade por histórias de crimes reais nos mostra como a mente humana é complexa e como as pessoas são tão diferentes, respondendo de formas opostas a um mesmo tipo de conteúdo. Apesar dos problemas éticos e das possíveis consequências psicológicas negativas, não há nada que diga que essa curiosidade pelo sombrio é ruim para nós. O importante não é lutar contra essa curiosidade e parar de consumir esses conteúdos, mas sim prestar atenção em seus efeitos. 

Precisamos entender de que maneiras as histórias de true crime nos afetam, o que elas causam em nossas mentes e como elas mudam a nossa forma de enxergar o mundo e as pessoas ao nosso redor.

É claro que contar e consumir essas histórias de crimes não são ações sem consequências. A forma como elas são apresentadas pode mudar nosso sentimento de compaixão pelos outros, nossa confiança em quem nos governa e até nossa visão sobre a dor de quem passou por algo terrível. Então o limite entre curiosidade, exploração da dor alheia e insensibilidade pode se tornar uma linha tênue. Você já deve ter visto nas redes sociais, por exemplo, alguma postagem de luto informando o falecimento do um ente querido e, nos comentários, várias pessoas fazendo perguntas e colocações insensíveis e invasivas, como a causa da morte. 

Por isso, o mais importante é termos como norte a ética e a empatia, a capacidade de nos colocar no lugar das vítimas e de refletir se a dignidade das pessoas está sendo violada.

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