A biotecnologia tem sido cada vez mais usada para conter o declínio da vida selvagem. Mas a efetividade das ações de conservação da biodiversidade depende da proteção e restauração de hábitats naturais e ecossistemas
A biotecnologia tem sido cada vez mais usada para conter o declínio da vida selvagem. Mas a efetividade das ações de conservação da biodiversidade depende da proteção e restauração de hábitats naturais e ecossistemas
CRÉDITO: IMAGEM ADOBESTOCK

A crise atual da biodiversidade é marcada por extinções aceleradas (veja coluna da CH 429), que resultam do colapso populacional das espécies e da degradação contínua dos ecossistemas. Nesse cenário, a biotecnologia – antes associada majoritariamente à agricultura, saúde e indústria – emerge como um conjunto de ferramentas para proteger e restaurar a natureza. Mas essas inovações realmente representam soluções reais ou são apenas promessas exageradas repletas de riscos?
Nesta última década, alguns processos biotecnológicos deixaram o campo da ficção científica e passaram a compor o arsenal de estratégias para conter o declínio da vida selvagem. Testemunhamos o advento de técnicas inovadoras, como clonagem, edição gênica, nanotecnologias ambientais e ressurreição de espécies extintas (a chamada desextinção). No entanto, seu uso suscita debates intensos, tanto entre especialistas quanto entre o público leigo, que se divide entre fascínio e preocupação. Para alguns, a biotecnologia é vista como ‘cura mágica’, desviando atenção das medidas estruturais de conservação, como a proteção dos hábitats e ecossistemas.
A última novidade nessa área foi o anúncio, feito em 2025 por uma empresa dos Estados Unidos, da desextinção do lobo-terrível (Aenocyon dirus), extinto no fim do última Era do Gelo (há 12 mil anos). O marketing inicial foi rapidamente corrigido após críticas de vários especialistas: não eram lobos-terríveis, eram três lobos-cinzentos (Canis lupus) com menos de 20 genes derivados da espécie extinta e modificados por clonagem e edição gênica. Esse evento inédito levou a inúmeros questionamentos sobre o papel dessa inovação biotecnológica na conservação e o uso de uma enorme quantidade de recursos que seriam mais efetivos na preservação dos ambientes naturais de espécies silvestres, muitas delas em extinção.
Além da questão financeira, sabe-se que gerar indivíduos geneticamente modificados em laboratório não basta e pode ter outros impactos. Sem hábitats protegidos, sem conectividade ecológica e sem controle das ameaças, animais ‘desextintos’ não têm qualquer valor nos ecossistemas, assim como outras iniciativas de clonagem com ou sem edição gênica para recuperar a diversidade genética perdida. Existem também questões éticas sobre esse tipo de manipulação artificial, principalmente em relação a animais que se extinguiram antes do Antropoceno (era atual sob domínio devastador do Homo sapiens), que, para muitos especialistas, começou há um ou dois séculos.
A principal causa da extinção global de espécies é a perda de hábitats, que pode ser combatida pela preservação dos ecossistemas que ainda existem e pela restauração de alguns ambientes degradados. A segunda causa principal é a introdução de espécies exóticas em ambientes naturais, feita, direta ou indiretamente, pelo ser humano, tal como aconteceu no Brasil com muitos gatos, cachorros, javalis, porcos, tilápias etc. Infelizmente, grande parte da sociedade desconhece a real importância dessas duas causas antrópicas principais, algumas vezes deturpando as evidências científicas para negar a realidade.
Novas tecnologias têm propiciado uma compreensão mais detalhada do ambiente natural e permitido diagnósticos da degradação de ecossistemas, inclusive os do passado do nosso planeta, a partir de dados de paleogenética. Isso permite entender, por exemplo, como a composição de espécies mudou entre diferentes épocas sob efeito de mudanças climáticas do passado e o que podemos projetar para o futuro dos ecossistemas em diversos cenários de mudanças climáticas antropogênicas.
Além disso, outras aplicações biotecnológicas menos glamourosas têm demonstrado potencial significativo na preservação ambiental. Entre elas, está a biorremediação de áreas poluídas com plantas e microrganismos modificados ou selecionados para degradar poluentes ou desintoxicar, abolir ou diminuir o uso de agrotóxicos.
Na perspectiva da biologia da conservação, a biotecnologia pode ser eficaz quando integrada a abordagens ecológicas e políticas ambientais que priorizem a proteção de hábitats naturais, combatam a destruição dos ecossistemas e promovam a redução das emissões de carbono. As escolhas biotecnológicas afetam toda a sociedade e não podem ficar restritas a laboratórios e empresas com interesses financeiros. O caminho mais promissor está na interseção entre ciência de ponta de várias disciplinas integrada à prática, guiada por princípios éticos, responsabilidade socioambiental e compromisso com a complexidade ecológica.
A biotecnologia pode, sim, contribuir para um futuro mais sustentável – mas somente se usada como ferramenta complementar, jamais como substituta das ações fundamentais de proteção ambiental. O desafio não é apenas técnico: é político, cultural e ético. E a solução dependerá não de ressuscitar o passado, mas de reinventar as formas de convivência com a vida que ainda resiste ao nosso lado.
Sem hábitats protegidos, sem conectividade ecológica e sem controle das ameaças, animais ‘desextintos’ não têm qualquer valor nos ecossistemas
O que um resultado que parecia ser uma 'descoberta fantástica' em um laboratório de física no Brasil e um experimento com resultado negativo feito nos Estados Unidos cerca de 100 anos antes podem nos ensinar sobre os cuidados necessários ao fazer pesquisa científica?
O que aquela refeição que acaba queimada numa panela e o envelhecimento têm a ver? Ao longo da vida, nosso organismo também sofre uma ‘fervura’ silenciosa que pode causar várias doenças. Boa notícia: a ciência já é capaz de entender e diminuir essa ‘chama’.
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