Terras-raras: perigos ocultos da mineração

Departamento de Química Analítica
Instituto de Química
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Nos últimos anos, as terras-raras deixaram o campo da ciência para ingressar na seara da geopolítica. Razão: o valor estratégico para a indústria de alta tecnologia desse conjunto de 17 elementos químicos, cujas propriedades são únicas e insubstituíveis. Mas pouco se fala dos perigos inerentes à sua mineração, deletérios para os seres vivos e o meio ambiente. Mais: os minerais de onde são extraídos podem ser radioativos. Quando o assunto são terras-raras, o Brasil precisa de uma política de Estado para que não cometa os erros do passado.

CRÉDITO: ADOBE STOCK

O termo ‘terras-raras’ (TR) engloba 17 elementos químicos, todos pertencentes ao grupo 3 da Tabela Periódica. São eles: escândio, ítrio e um grupo de 15 elementos comumente denominados lantanídeos, que vão do lantânio, o que explica o nome dado a eles, ao lutécio – geralmente indicado como um desdobramento à parte na apresentação da Tabela Periódica.

Característica notável dos lantanídeos: as propriedades químicas desses elementos guardam grande semelhança entre si – o que explica por que eles e o ítrio são encontrados nas mesmas fontes minerais e se comportam como se fossem uma única entidade química. Quimicamente, eles são tão parecidos que foi preciso mais de 150 anos de trabalho e esforço para isolá-los e identificá-los.

No século 19, os elementos componentes das terras-raras eram conhecidos na forma de seus óxidos, cuja aparência se assemelhava aos materiais conhecidos como ‘terras’ – designação adotada à época para os óxidos metálicos (figura 1).

Apesar do qualificativo ‘raras’, hoje sabe-se que a abundância desses elementos na crosta terrestre é maior do que a dos chamados ‘metais do grupo da platina’ (platina, ródio, rutênio, ósmio, irídio e paládio). Mesmo o túlio, o mais raro entre as terras-raras, é tão abundante como o bismuto e mais do que o arsênio, o cádmio e o mercúrio.

Figura 1. Série de óxidos dos lantanídeos, com suas cores características, todos de procedência chinesa. Da esquerda para a direita, óxidos de: lantânio, cério, praseodímio, neodímio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio e lutécio

CRÉDITO: CEDIDO PELO AUTOR

Onde são encontradas?

As terras-raras – também chamadas elementos das terras-raras (ETRs) – podem ser encontradas em uma variedade de minerais (figura 2). Mas, hoje, três fontes respondem por quase a totalidade do que é extraído da natureza: 

i) bastnasita: fluorocarbonato com altos teores de óxidos de terras-raras – principalmente, lantânio, cério, praseodímio e neodímio, os elementos iniciais do grupo dos lantanídeos; 

ii) monazita: quimicamente, um fosfato, também rico em lantânio, cério, praseodímio e neodímio; 

iii) xenotímio: fosfato de ítrio, rico nos elementos finais do grupo dos lantanídeos. 

Mais recentemente, certos tipos de argilas – denominadas iônicas – se mostram promissoras. São mais fáceis e baratas de minerar – porque, geralmente, estão próximas à superfície – e não requerem processos de detonação, britagem ou moagem, com uso intensivo de energia. 

As jazidas de minerais das terras-raras estão concentradas em poucos lugares do planeta. A China tem, hoje, a maior reserva mundial, seguida por Brasil, Índia, Austrália, Rússia e Vietnã.

Figura 2. À esquerda, amostra de areia monazítica de Buena (RJ), contendo tório e urânio; à direita, amostra de xenotímio (áreas rosas) de Pitinga (AM), com tório (áreas mais avermelhadas)

CRÉDITO: CEDIDO PELO AUTOR

Apesar do qualificativo ‘raras’, hoje sabe-se que a abundância desses elementos na crosta terrestre é maior do que aquela dos chamados ‘metais do grupo da platina’ (platina, ródio, rutênio, ósmio, irídio e paládio)

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