Um mar de microplásticos no Brasil

Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano, Rede Ressoa Oceano

Estudo divulgado durante a COP30 analisou 14 dos 17 estados costeiros do país, e resultado apontou contaminação por resíduo plástico de 70% das amostras animais

CRÉDITO: ESCOLA AZUL

Para além das salas e plenárias das zonas azul e verde, os espaços oficiais da COP30 realizada em novembro em Belém (PA), ocorreram debates essenciais que ampliaram a compreensão sobre a crise climática, entre eles a centralidade das mulheres e do oceano. Este último, por ser o ambiente mais impactado pelas mudanças climáticas, finalmente recebeu um lugar de destaque na agenda global. Ainda que tardiamente e aquém do necessário, a COP30 marcou a primeira vez em que o oceano foi tratado como prioridade.

Paralelamente às ações oficiais, a Família Schurmann, protagonistas da iniciativa Voz dos Oceanos, abriu ao público um espaço na Casa das Onze Janelas, em uma área histórica de Belém às margens da baía do Guajará. Ali, arte, ciência, cultura e tecnologia se encontraram para aproximar as pessoas da realidade oceânica. Entre as atividades apresentadas, uma delas destacou o avanço alarmante da poluição plástica, fenômeno global que compromete ecossistemas, altera cadeias alimentares marinhas e, inevitavelmente, afeta também os seres humanos.

Diversos tipos de plásticos circulam no cotidiano, como Politereftalato de etileno (PET), Polietileno de alta densidade (HDPE), Policloreto de vinila (PVC), Polietileno de baixa densidade (LDPE), Polipropileno (PP) e Poliestireno (PS). Com o tempo, esses materiais podem se fragmentar até atingir dimensões microscópicas, tornando-se microplásticos (0,001 a 5 mm) ou até nanoplásticos, ainda menores (menos de 1 µm).

A origem dessas partículas pode ser primária, quando já são produzidas em tamanho reduzido, como glitters ou esfoliantes, ou secundária, quando resultam da degradação de itens maiores como uma garrafa PET. Isso significa que, mesmo sem perceber, contribuímos para essa dispersão: roupas sintéticas liberam microfibras a cada lavagem; pneus se desgastam nas estradas; utensílios plásticos se deterioram lentamente. Essas partículas entram no ciclo da água e se espalham pelo planeta, alcançando ambientes extremos — do topo de montanhas às fossas oceânicas — e aparecendo na água, no solo, nos alimentos e, cada vez mais, dentro dos organismos vivos, inclusive nós.

Estudo brasileiro inédito

Uma pesquisa conduzida pela Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Instituto Voz dos Oceanos revelou dados preocupantes sobre a contaminação por microplásticos em frutos do mar amplamente consumidos no Brasil, mais especificamente moluscos bivalves — animais invertebrados que possuem uma concha formada por duas valvas que protegem a parte mole do seu corpo, como mexilhões e ostras.

O estudo, divulgado durante a COP30 analisou amostras de mexilhões, ostras e sururus coletados em 14 dos 17 estados costeiros do Brasil (SC, PR, SP, RJ, ES, BA, SE, AL, PE, PB, RN, CE, MA e PA). O resultado foi contundente: 100% dos locais apresentaram animais contaminados, e 70% das amostras continham resíduos plásticos.

A expedição, realizada por uma equipe exclusivamente feminina entre maio e julho de 2024, teve apoio do Instituto Oceanográfico da USP e do Centro de Referência para Quantificação e Tipificação do Lixo do Mar (CeLMar – CNPq), sob coordenação do professor Alexander Turra. Equipamentos de microscopia e espectroscopia avaliados em cerca de R$ 1 milhão, fornecidos pela empresa Shimadzu, permitiram análises precisas.

Os resultados revelam diferenças regionais significativas. Regiões como Recife (PE) e Fortaleza (CE) apresentaram as maiores concentrações, chegando a 5 partículas por grama de alimento. Já cidades como Santos (SP), Aracaju (SE) e Maceió (AL) registraram entre 3 e 4 partículas por grama — que se aproximam ou superam os níveis europeus e globais de contaminação. Já em cidades como Itajaí (SC), Paranaguá (PR), São Sebastião (SP), Angra dos Reis (RJ), Vitória (ES) e Natal (RN), os índices ficaram abaixo de 0,5 partícula por grama de alimento.

Foram identificados 14 tipos de polímeros, com predominância de Etileno acetato de vinila (EVA), Polietileno, Poliéster e PVC. Aproximadamente 85% das partículas eram fragmentos antigos, resultado da degradação de resíduos lançados há décadas. Em cidades como João Pessoa (PB), Recife (PE), Caravelas (BA), Vitória (ES), São Sebastião (SP) e Paranaguá (PR), fibras plásticas representaram mais de 50% das amostras, indicando forte contribuição da lavagem de roupas sintéticas e da deterioração de equipamentos de pesca abandonados.

Diante de um cenário tão alarmante, os dados sugerem que o consumo humano de frutos do mar pode estar associado à ingestão significativa de microplásticos. Para ilustrar o impacto, Turra exemplificou: um pastel de 100 g recheado com moluscos contaminados pode conter até 500 partículas plásticas.

A produção global de plástico ultrapassa 400 milhões de toneladas por ano e responde por cerca de 3,4% das emissões de gases de efeito estufa, segundo estudo da revista Nature. Mesmo assim, nenhuma plenária oficial da COP30 teve a poluição plástica como tema central

Partículas plásticas no corpo humano

Esses resultados se somam a dados internacionais. Um artigo de revisão publicado em 2024 na revista Science identificou microplásticos em mais de 1.300 espécies — crustáceos, moluscos, peixes, insetos, mamíferos e também seres humanos. No corpo humano, eles já foram encontrados em diversas partes, como saliva, sangue, placenta, sêmen, leite materno, fezes, pulmões, fígado, rins, intestinos, testículos, endométrio e até no cérebro — um dos órgãos mais protegidos.

As principais rotas de entrada são pela respiração (das partículas suspensas no ar), ingestão (de alimentos e bebidas contaminados), e contato com a pele (capazes de atravessar camadas protetoras). Quando absorvidas pelo corpo, essas partículas atingem os vasos sanguíneos, se distribuem pelo sistema circulatório até que chegam em determinados órgãos. Embora haja muitas lacunas dos efeitos dessas partículas plásticas, usando testes animais foi observado que elas provocaram reações como inflamação e morte celular. Em 2024, um estudo mostrou que pacientes com micro e nanoplásticos em ateromas tinham risco 4,53 vezes maior de sofrer eventos cardiovasculares.

Mudanças climáticas e plástico

A produção global de plástico ultrapassa 400 milhões de toneladas por ano e responde por cerca de 3,4% das emissões de gases de efeito estufa, segundo estudo da revista Nature. Mesmo assim, nenhuma plenária oficial da COP30 teve a poluição plástica como tema central.

A indústria do plástico está diretamente ligada aos combustíveis fósseis, já que o petróleo é sua principal matéria-prima. Embora o plástico tenha usos essenciais — como esterilidade em hospitais, barateamento de produtos e materiais leves — sua produção massiva e descartabilidade transformaram-no em um problema ambiental sem precedentes. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) estima que 10 milhões de toneladas de plástico alcancem o mar todos os anos.

Em agosto, durante uma rodada de negociações em Genebra sobre o Tratado Global para Poluição Plástica, representantes de 183 países, após dez dias de discussões, não chegaram a um consenso, adiando novamente uma decisão crucial.

O que pode ser feito

Até que a ciência esclareça totalmente os efeitos dessas partículas sobre a saúde humana — o que já se encaminha para não trazer boas notícias —, é fundamental agir. O Brasil, oitavo maior produtor mundial de lixo plástico, precisa avançar tanto em ações individuais quanto governamentais.

Entre as ações cotidianas estão: priorizar roupas de fibras naturais; reduzir o uso de plásticos descartáveis; preferir embalagens adequadas para alimentos; usar recipientes apropriados para aquecer alimentos no micro-ondas; descartar resíduos corretamente.
Mas ações individuais não bastam. É urgente somá-las a medidas de governança, como: políticas nacionais de redução da produção e consumo de plástico; incentivos reais à reciclagem; redesign de produtos para que sejam recicláveis; sistemas eficazes de coleta e retenção de resíduos; ecobarreiras em rios; mecanismos de responsabilização para indústrias e governos.

Esse cenário reforça um diagnóstico claro: a poluição plástica é um dos maiores desafios ambientais do século, e enfrentá-la exige mudanças profundas — na sociedade, na política e na relação humana com a natureza.

*A coluna Cultura Oceânica é uma parceria do Instituto Ciência Hoje com a Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano da Universidade de São Paulo e com o Projeto Ressoa Oceano, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

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