As ‘sinhás pretas’ que o Brasil pouco conhece

Jornalista, especial para a Ciência Hoje

Livro revela modos de vida e trabalho de africanas libertas que conquistaram bens, prédios urbanos, investiram no comércio de escravizados e moldaram uma cultura de poder feminino no Brasil

Sinhás pretas, damas mercadoras: as pretas-minas nas cidades do Rio de Janeiro e de São João del Rey (1700-1850)

Sheila de Castro Faria

Editora Cosac, 2025, 358 p

Na ampla historiografia sobre o tráfico atlântico de pessoas africanas para o Brasil, há histórias muitas vezes esquecidas ou ainda pouco exploradas. Uma delas é a das mulheres escravizadas que conseguiram a alforria, conquistaram bens, terras, joias, viraram comerciantes e chefes de domicílio. São as “Sinhás Pretas”. Embora não apareça em documentos do período colonial, nem haja confirmação de que “sinhá” fosse de fato usado por escravizados em referência à “senhora”, o termo foi escolhido pela autora como melhor referência para esse grupo tão particular de mulheres: a maioria sem filhos, mulheres pretas libertas oriundas da Costa da Mina, na África Ocidental, atuaram no comércio ambulante e eram até proprietárias de bancas no mercado, que investiram em escravizadas e se tornaram senhoras ou proprietárias de outras pessoas. “Sinhás Pretas, damas mercadoras” (Cosac) abre as portas para entrarmos em suas casas, que reuniam crianças, outras mulheres livres e escravizadas e, vez ou outra, homens escravizados também. 

O livro compõe a série Crioula, da mesma editora, e parte de uma pesquisa iniciada em 2004 pela autora, Sheila de Castro Faria, que também coordena a série editorial, em documentos do Rio de Janeiro e de São João del Rei (MG) dos séculos 18 e metade do 19. Os estudos seriam apresentados como requisito para um concurso de professora titular em História do Brasil da Universidade Federal Fluminense (UFF). Enquanto mergulhava no material, Sheila constatou uma presença significativa de mulheres chefiando domicílios, relacionada, por sua vez, à ascendência africana. Intrigada, a autora resolveu se debruçar mais sobre o modo de vida delas. E se surpreendeu. 

“Já tinha ideia de trabalhar com mulheres daquela época, pela falta de produções sobre elas. Busquei então estudos com mapeamentos populacionais e eles mostravam grande quantidade de domicílios chefiados por mulheres nas zonas urbanas. Muitas pesquisas apresentavam esse mesmo cenário na América Espanhola, no Brasil também, até hoje, mas sempre associado à pobreza”, conta Sheila. “Quando passei aos inventários, testamentos e alforrias dessas mulheres, apareceu uma multidão de mulheres da África alforriando outras pessoas. E eram mulheres que conseguiram acumular bens: prédios urbanos, escravizadas, crias da casa, joias, sedas. Essas mulheres me acharam”.

Sheila foi aprovada no concurso da UFF, e a repercussão foi tremenda, com o material sendo mencionado em muitos trabalhos posteriores. Recentemente, convidada pelo editor Charles Cosac a transformar sua pesquisa em livro, a autora voltou às sinhás pretas nesta edição atualizada, mais madura e antimisógina, diz ela, com enfoque na importância dessas mulheres no comércio urbano e na historiografia e cultura brasileiras. 

“A documentação mostra muita coisa que historiadores homens, principalmente, até então não enxergavam. Não eram necessariamente mulheres pobres. Elas eram hierarquicamente inferiores, porque viviam em uma sociedade machista e patriarcal. Mas, para muitas, não havia pobreza. Algumas dessas mulheres eram proprietárias de até dez escravizados; não podiam ser consideradas pobres”, diz Sheila.

“Quando passei aos inventários, testamentos e alforrias dessas mulheres, apareceu uma multidão de mulheres da África alforriando outras pessoas. E eram mulheres que conseguiram acumular bens: prédios urbanos, escravizadas, crias da casa, joias, sedas. Essas mulheres me acharam”

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