Na Estante

A estranha trajetória do húbris

A expressão em inglês ‘histórias do tipo just-so’é atribuída ao escritor Rudyard Kipling e significa que se cria uma história para justificar uma hipótese qualquer. É mais um desiderato do que uma explicação propriamente dita. Tudo se encaixa direitinho porque a narrativa que confirma cada detalhe da proposta foi elaborada posteriormente em relação às observações iniciais. As histórias just-so, em geral, não podem ser comprovadas ou falseadas porque essencialmente não têm base na realidade.

O livro de António Damásio A estranha ordem das coisas: as origens biológicas dos sentimentos e da cultura(Companhia das Letras, 2018) representa um bom exemplo de histórias do tipo just-so. O autor defende a ideia de que os sentimentos compreendem um mecanismo homeostático que atuaria ao nível do complexo sistema nervoso dos humanos. A homeostase significa, em biologia, o conjunto de mecanismos que mantém constantes as condições de um organismo frente a um ambiente variável.

Essa tese é desenvolvida por meio de argumentos que se baseiam mais na imaginação do autor do que em fatos e cuja premissa não é transparente, pois depende muito de acompanhar o raciocínio de Damásio. Ele abusa de definições que, em muitos casos, não são muito claras. Por exemplo, já no início do livro, o leitor aprende a diferenciar emoção de sentimentos. Segundo Damásio, um sentimento é: “a experiência invisível sobre a reação a um determinado estímulo”. E por aí vai. O resultado geral é que o estilo empregado por Damásio nesse livro se torna quase tão convoluto como o próprio cérebro.

Em resumo, A estranha ordem das coisas pretende mostrar que são os sentimentos que, entre outras coisas, deram início às culturas humanas, o que inclui as artes, a filosofia, as crenças religiosas, as regras morais, a justiça, o sistema de governança política, as instituições econômicas e a própria ciência. Uma proposta ambiciosa, não há dúvida, mas que, no contexto do imaginário, se encaixa muito bem. A rigor, vale tudo quando se dá livre vazão à especulação.

Damásio segue uma trajetória linear que começa com a origem da vida. Apesar da originalidade da hipótese, quando se trata de discutir a origem da vida, Damásio não escapa dos lugares comuns de sempre e aborda etapas cruciais de maneira muito resumida, adotando artifícios que passam ao largo das perguntas e respostas seminais. Mas, o objetivo não é esse e, assim, devemos perdoar o autor por deixar a origem da vida em segundo plano.

No entanto, logo ao abordar a questão da homeostase, central à sua obra, Damásio atribui a esta a “formidável tarefa de administrar a energia”, como se a homeostase fosse uma invenção evolutiva. Essa é uma questão que ilude o autor e o leitor. A homeostase não deve ser entendida como um dispositivo teleonômico, ou seja, dotado de intencionalidade provocada pelo aumento do raciocínio.Em termos termodinâmicos, a homeostase é apenas uma manifestação de sistemas complexos. Isto é, a homeostase é espontânea nesses sistemas. Aliás, a teleologia parece estar disseminada por todo o texto.

Enfim, o leitor fiel de Damásio que conseguir seguir seu raciocínio rebuscado e ultrapassar as definições anatômicas do sistema nervoso vai, finalmente, se dar conta de que o binômio sentimentos/homeostase apresenta proverbiais respostas para tudo, inclusive o sentido da vida. O binômio adquire no livro o mesmo status da pedra filosofal.

Mas, a leitura de A estranha ordem das coisas tem propostas interessantes, como, por exemplo, a menção de que o sistema digestório poderia ter sido o sistema nervoso central de muitos organismos.Há também alguns errinhos que, se foram tipográficos, perdoam-se. Caso contrário, vão deixar o leitor ainda mais perplexo. Na página 33, em vez de “há 100 milhões de anos”,está grafado “100 bilhões de anos”, um passado mais antigo que o próprio universo.

A estranha ordem das coisas: as origens biológicas dos sentimentos e da cultura
António Damásio; Tradução: Laura Teixeira Motta.
São Paulo, Companhia das Letras
344 p., R$ 64,90; e-book: R$ 39,90

Franklin Rumjanek

Instituto de Bioquímica Médica
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Matéria publicada em 07.01.2019

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