Educação, uma vacina contra as Fake News

Alimentado por notícias falsas, o movimento anti-imunização cresce. Como a escola pode contribuir para combater a desinformação?

 

Uma insurreição popular transformou a cidade do Rio de Janeiro num campo de batalha, com um rastro de mortos e feridos, entre os dias 10 e 16 de novembro de 1904. O motivo da rebelião foi a determinação do presidente Rodrigues Alves (1848-1919) de tornar a vacinação contra a varíola obrigatória, medida que foi revogada temporariamente após o levante. Mais de 100 anos depois, não resta dúvida de que a Revolta da Vacina foi consequência da falta de informação da população. Em pleno século 21, ninguém é capaz de discordar de que muitas doenças estão sob controle, graças aos avanços da medicina no desenvolvimento de vacinas, certo?

Infelizmente, não. Presenciamos um crescimento de movimentos antivacina em todo o mundo, inclusive no Brasil. Famílias de classes média e alta têm negligenciado a vacinação de seus filhos, mas a razão é o excesso de ‘informação’, ou melhor, de informação incorreta.

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Nem só os meios de comunicação confiáveis podem combater as notícias falsas. Uma alternativa para combater as fake news que alimentam os movimentos anti-imunização é investir em divulgação científica mais ampla e acessível. E é urgente incluir o espaço escolar na disseminação de informações corretas a respeito da ação protetora das vacinas.

Os boatos relacionados aos temas de saúde encontram nas redes sociais um ambiente fértil para reprodução, e sua propagação tem tomado proporções alarmantes. Diante disso, o combate à desinformação é também um dos grandes desafios dos professores. E quais estratégias podem ser aplicadas?

Analisar notícias referentes ao tema em sala de aula, estimulando os alunos a avaliarem criticamente as fontes das informações que circulam na internet é uma forma de combater esses boatos. Conheça alguns deles e saiba como desmenti-los:

O boato: A vacina tríplice viral (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola) estaria provocando o aumento no número de casos de autismo.


A verdade: Essa história começou em 1998, quando um médico inglês publicou um artigo na revista britânica The Lancet, no qual afirmava que a vacina provocava autismo nas crianças. Anos mais tarde, ficou comprovado que os dados do trabalho foram forjados, e o texto foi retirado de circulação. Mas o estrago já tinha sido feito.Grupos antivacina começaram a espalhar a notícia e podemos ver os efeitos até hoje, com várias pessoas recusando a vacinação.

 

O boato: O site americano Your News Wire publicou, em 15 de janeiro de 2018, a seguinte manchete: “Médico quebra o silêncio: a vacina contra a gripe é o que está causando um surto mortal de gripe”. A informação foi rapidamente traduzida para o português e chegou por aqui. De acordo com o texto, um médico do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos teria afirmado que a vacina da gripe aplicada neste ano estaria matando as pessoas.


A verdade: A notícia já foi desmentida, mas o boato pode estar impactando os índices de imunização por aqui.

 

O boato: As vacinas não funcionam para prevenir doenças.


A verdade: A maioria das vacinas tem altas taxas de eficácia – a tríplice viral, por exemplo, apresenta proteção acima dos 95%. A imunização em larga escala possibilitou que hoje os jovens conheçam doenças como poliomielite, varíola e sarampo apenas de ouvir falar.

 

O boato: Há efeitos tóxicos para o organismo de uma substância usada como conservante na produção de vacinas, o timerosal, composto que contém mercúrio.


A verdade: Poucas vacinas ainda usam o timerosal. Nenhuma das vacinas para crianças e adolescentes contém o composto. As raras vacinas que têm esse conservante na formulação apresentam uma quantidade ínfima dele, que não oferece risco ao ser humano (se você consome pescado, provavelmente ingere índices superiores aos contidos na vacina).

 

 

Além da escola

O combate à desinformação pode acontecer na sala de aula, mas também ir muito além dela. Um exemplo? Eventos de esclarecimento aos pais, em que os alunos exponham o que foi aprendido, com o auxílio dos professores, poderiam ser muito úteis para conscientizar sobre a importância da imunização. Confira alguns pontos importantes sobre o tema:

 

Perigo é não vacinar

Segundo a pesquisadora Clarissa Damaso, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, “a chance de uma pessoa morrer por causa de uma doença é infinitamente maior do que ela morrer por causa da vacina contra essa mesma doença”. As vacinas podem ser produzidas de diferentes formas, mas, geralmente, envolvem o uso de partículas virais inativadas (como é o caso da vacina contra gripe) ou usam o vírus atenuado, ou seja, em uma forma pouco virulenta (é o caso das vacinas contra sarampo, rubéola, caxumba e varíola).

 

Decisão individual, prejuízo coletivo

Quando alguém decide não se vacinar ou não vacinar uma criança, está prejudicando toda a população, pois essa atitude compromete o que chamamos de imunidade de rebanho, que ocorre quando existe uma alta cobertura vacinal em determinada região. Se muitas pessoas estão vacinadas, aquelas que não podem se vacinar (devido a alergias, faixa etária, gravidez) ficam protegidas, pois, com muitas pessoas imunizadas, não há como o microrganismo circular naquela população. Ao contrário, se a cobertura vacinal for baixa, as pessoas não vacinadas terão maior risco de contraírem a doença. Esse é um dos grandes perigos do movimento antivacina.

A volta de doenças do passado

Doenças que já estavam erradicadas ou quase, podem ressurgir, como aconteceu recentemente. É o caso do sarampo, que causa grande preocupação devido a sua facilidade de transmissão. Em países como a Romênia e outros do leste europeu, o número de casos da doença tem aumentado bastante. Pouco tempo atrás, houve registro de surto em um parque temático nos Estados Unidos. Outra doença preocupante é a poliomielite, erradicada no Brasil em 1989. Em 2014, um dos subtipos do vírus foi encontrado no esgoto de um aeroporto em Campinas e, caso o Brasil não tivesse uma alta cobertura vacinal, poderia ter havido um surto, já que a doença não está erradicada no mundo todo.

A educação, portanto, é uma ótima vacina para combater a epidemia de fake news. E você, como lida com o tema em sala de aula?

Michele Gravina
Aluna do Mestrado Profissional em Ensino de Biologia em Rede Nacional (ProfBio)
*Artigo resultante de entrevista com a pesquisadora Clarissa Damaso, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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