Jurassic Park: 25 anos depois

Museu Nacional
Academia Brasileira de Ciências

Novo filme da série traz belas reconstruções de dinossauros, mas perde a chance de se atualizar com os avanços mais recentes da paleontologia.

Foto: Divulgação

A estreia do filme Jurassic World – Reino Ameaçado causou bastante expectativa entre os aficionados por dinossauros e outros seres extintos. Também não é para menos: esse novo longa-metragem marca os 25 anos da franquia iniciada em 1993 como Jurassic Park. Eu certamente sou um dos que aguardavam ansiosamente as novidades. Porém, confesso certa decepção ao sair do cinema…

Claro que uma iniciativa como essa tem como objetivo principal divertir o espectador, notadamente formado pelo público infantil e juvenil (apesar do meu convencimento de que boas produções interessariam também aos adultos). Qual é a minha principal restrição? A falta de, digamos, atenção ou ‘carinho’ com algumas questões científicas, que não teriam inviabilizado a trama central ou diminuído o interesse do público-alvo. Muito pelo contrário…

Diferentemente do que aconteceu em Jurassic Park (1993), onde novas descobertas foram apresentadas em grande estilo, fascinando não apenas os que gostam dos dinos, mas também os amantes de um bom filme, a nova película deixou a desejar. Para começar, não houve uma atualização dos enormes avanços científicos obtidos pelos paleontólogos neste último quarto de século. Por exemplo, já sabemos há muito tempo que os velociraptores – ou espécies proximamente relacionadas – tinham estruturas filamentosas (consideradas antecessoras das penas) e não apenas escamas. São dezenas de achados, particularmente da China, que poderiam (e, sinceramente, deveriam) ter sido levados em conta. Já imaginaram o efeito visual de um dinossauro coberto de ‘penas’ avançando nas pessoas?

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Esqueleto de Carnotaurus montado no Museu Argentino de Ciências Naturais, em Buenos Aires. Essa espécie sulamericana aparece no filme Jurassic World – Reino Ameaçado.
Foto: Alexander Kellner

Também sabemos que os pterossauros (répteis alados) não levantariam presas de 60-80 kg, sobretudo as formas apresentadas no filme, que não deveriam pesar mais de 30 kg. Algumas boas ‘bicadas’ já teriam produzido os efeitos desejados.

Além disso, faltou um personagem representando um paleontólogo ou paleontóloga na trama, um detalhe que tira a graça de ter alguém dando crédito ao espectador da informação apresentada – o que foi majestoso no Jurassic Park. É algo como ter um jogo de futebol sem jogador profissional. O filme ainda abusa dos clichês, como o ‘russo malvado’ querendo comprar dinossauros para usá-los como armas de guerra. Um político de ‘topete amarelo’ talvez fosse mais atual. Não vou nem falar das diversas (e desnecessárias) cenas piegas…

 

Pontos positivos

Mas nem tudo está perdido! O filme traz uma novidade legal: pelo menos uma espécie da América do Sul foi (finalmente!) incluída. Trata-se do Carnotaurus, procedente de rochas cretáceas da Argentina. Aliás, seria muito bacana que novas versões do filme (certamente vão existir, a julgar pelo sucesso de bilheteria – a meta de US$ 1 bilhão deve ser alcançada!) incluíssem mais formas maravilhosas sul-americanas, inclusive brasileiras, como os pterossauros! E temos para todos os gostos: desde animais com dentes e aspecto feroz, como o Anhanguera, até formas com expressões mais dóceis, como o pequeno Tapejara. Sem contar com répteis

alados que dispõem de cristas majestosas, como o Tupandactylus e o Thalassodromeus! Certamente traria originalidade às novas tramas.

Outro aspecto que chamou a atenção foi a explicitação, no novo filme, sobre os perigos relativos à questão da manipulação genética. Essa temática sempre esteve presente na série, mas nunca foi apontada de forma tão clara como na última fala do Dr. Ian Malcom (interpretado pelo famoso ‘homem-mosca’ – Jeff Goldblum –, que aparece como matemático em diversos episódios): a do surgimento de uma nova era.

Nesse longa, o foco é a convivência dos dinossauros com o homem, mas o que se encontra em discussão hoje em dia é o enorme potencial da manipulação dos genes e o que isso poderá representar para o futuro da humanidade. Já se fala, inclusive, na ‘desextinção’ (do inglês: de-extinction). Essa expressão curiosa está sendo empregada não para os dinossauros, mas sim para alguns mamíferos extintos, como o mamute. Esse fascinante tema – que, em tese, não está tão longe assim – certamente será abordado por esta coluna no futuro.

Mas agora sugiro que todos os interessados assistam a essa nova versão de Jurassic World. Independentemente das críticas, é um bom entretenimento, apresentando reconstruções fantásticas de algumas das mais fascinantes criaturas que já viveram na face do nosso planeta! Só esse aspecto já vale o ingresso. Divirtam-se!

Alexander W. A. Kellner

Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro
Academia Brasileira de Ciências

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