O DNA do povo brasileiro

Instituto de Biociências
Universidade de São Paulo

Quando pensamos no Brasil, é comum lembrar da mistura cultural típica de nossa música, culinária, sotaques e tradições. Essa diversidade também se reflete no nosso DNA. Um estudo recente, envolvendo mais de uma dezena de pesquisadores de diferentes instituições brasileiras, apresenta, pela primeira vez, um retrato detalhado dessa riqueza genética, com implicações diretas para a saúde e para a compreensão da história do nosso povo.

CRÉDITO: JOSÉ PEDRO BORTOLONI

O Brasil abriga hoje a maior população miscigenada do mundo. Desde a chegada dos colonizadores europeus, há mais de 500 anos, nosso território se tornou palco de encontros e desencontros demográficos sem precedentes.

Antes da chegada dos colonizadores, viviam aqui mais de 10 milhões de indígenas, falantes de mais de mil línguas diferentes, com modos de vida adaptados a cada região, da floresta amazônica aos pampas do sul. Esse universo humano foi profundamente abalado pelo encontro com os europeus, que trouxeram doenças, disputas e um modelo de exploração que reduziu drasticamente a população nativa.

Nos séculos seguintes, milhões de africanos foram trazidos à força para trabalhar nas lavouras de cana-de-açúcar, minas de ouro e fazendas de café. Cada navio negreiro que chegava trazia não apenas pessoas, mas também fragmentos de culturas, línguas e histórias familiares que se entrelaçaram no Brasil.

Já no final do século 19 e início do 20, novas levas de imigrantes europeus, dessa vez mais diversos, compreendendo italianos, alemães, espanhóis, portugueses, se instalaram principalmente nas regiões Sul e Sudeste, atraídos por políticas de colonização e pela promessa de um futuro melhor.

Essa mistura étnica e cultural criou um dos maiores movimentos de miscigenação da história humana. Hoje, todos nós carregamos em nossos genomas essa tapeçaria de encontros, conflitos e reconstruções. Cada genoma pode ser visto como um fio colorido, que se entrelaça com outros e forma o grande tecido do povo brasileiro.

Apesar dessa enorme diversidade, o Brasil permanecia pouco representado em estudos genômicos internacionais. Isso significava que diagnósticos médicos e pesquisas em saúde e evolução baseados em dados de DNA estavam sendo feitos, em grande parte, a partir de informações vindas da Europa e da América do Norte.

Esse viés poderia comprometer tanto a pesquisa quanto questões relacionadas à saúde de nosso povo. Para mudar esse cenário, o projeto DNA do Brasil sequenciou 2.723 genomas completos de alta qualidade, cobrindo todas as regiões do país e incluindo comunidades urbanas, rurais e ribeirinhas. O resultado é o maior banco de dados genômico já produzido sobre brasileiros.

Tecnologia a serviço da diversidade

Diferentemente de estudos baseados em testes genéticos parciais, o sequenciamento de genomas completos permite identificar tanto variantes genéticas comuns quanto raras; inclusive, aquelas nunca antes descritas em bancos de dados internacionais.

Esses genomas foram analisados com ferramentas da genética populacional capazes de estimar ancestralidades, reconstruir eventos demográficos do passado e detectar sinais de seleção natural. A integração entre dados genéticos, localização geográfica e contexto histórico foi essencial para interpretar os padrões observados.

A análise revelou mais de 8,7 milhões de variantes genéticas nunca antes descritas em bancos internacionais (figura ). Entre elas, milhares estão associadas a doenças metabólicas, cardiovasculares ou infecciosas. Isso mostra como estudar populações diversas é fundamental para entender a saúde humana de forma global.

Figura 1. A imagem mostra como a diversidade genética do Brasil foi formada ao longo dos últimos 500 anos. A partir do sequenciamento completo do DNA de 2.723 pessoas de diferentes regiões do país, o estudo revela um retrato detalhado da miscigenação entre povos indígenas, europeus, africanos e, em menor grau, asiáticos

CRÉDITO: NUNES ET AL. 2025 (SCIENCE)

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