‘O pampa é terra negra em sua essência’

Estagiária de jornalismo, Instituto Ciência Hoje*

Historiadora e uma das autoras do enredo do carnaval da Portela, Fernanda Oliveira combate apagamento histórico das populações afro-brasileiras no Rio Grande do Sul

CRÉDITO: FOTO ARQUIVO PESSOAL/FERNANDA OLIVEIRA

Neste carnaval de 2026, a Portela leva à Marquês de Sapucaí o enredo “O mistério do Príncipe do Bará — a oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, uma homenagem à cultura negra no estado do Rio Grande do Sul contada a partir da figura do Príncipe Custódio (1832-1935), imigrante africano que veio ao Brasil no fim do século 19 e teve grande impacto nas tradições afro-gaúchas. Uma das autoras é Fernanda Oliveira, professora do curso de graduação e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Referência em estudos sobre a população negra no Sul do Brasil no contexto do pós-abolição da escravidão, a pesquisadora se dedica ao letramento histórico antirracista dentro e fora da sala de aula. Ao assinar o enredo, ela pretende unir seu trabalho com o poder e o alcance do carnaval, divulgando essas histórias não contadas para o país.

Custódio Joaquim de Almeida, conhecido como Príncipe Custódio, é uma das figuras mais importantes e conhecidas por quem pratica religiões de matriz africana no Rio Grande do Sul, principalmente pela memória oral. Segundo Fernanda, ele foi responsável por popularizar o Batuque, crença tradicional e essencial na cultura negra no estado, atuando como sacerdote de Sapatá, orixá relacionado à cura, e realizando diversos assentamentos de Bará, orixá também conhecido como Exú, pela cidade de Porto Alegre. Esses são locais onde se assenta a energia do orixá, podendo ser utilizados  elementos diversos, como búzios, pedras e recipientes de barro.

“Ele furou bolhas e, efetivamente, entrou no universo da elite e colocou o Batuque em um lugar que não se ocupava quando ele chegou no estado. Foi um sujeito negro, africano, que chegou aqui em liberdade, bastante jovem, ainda nos anos 1870 do século 19 e uma figura bastante conhecida no Rio Grande do Sul, mas desconhecida fora do Grande do Sul”, conta. 

Convidada pelo carnavalesco André Rodrigues para atuar como enredista, Fernanda diz que esse processo tem sido uma grande aventura. Mas não foi por acaso que a Portela chegou até a pesquisadora. Desde o início de sua carreira, e atualmente como parte do grupo de pesquisa Emancipações e Pós-Abolição, vinculado à Associação Nacional de História, ela se debruça sobre a experiência negra no “Sul do Sul”, como ela se refere à região do Rio Grande do Sul, incluindo a fronteira com o Uruguai. 

O foco de estudo é o associativismo negro após a abolição da escravidão até a década de 1960, que, segundo a professora, foi a “forma que a população encontrou de expressão pública e de possibilidades de construir existências plenas”. “A ideia é observar quais foram os espaços e as estratégias de liberdade criados por sujeitos escravizados, como irmandades, batismos etc., até chegar na contemporaneidade”, explica. 

As duas vertentes principais de pesquisa são os clubes e a imprensa organizados pela população afro-gaúcha nesse período. Esses espaços, diz Fernanda, surgem como resposta ao racismo e se configuram como lugares “onde podem definir suas próprias regras e viver sem constrangimento, além de criar redes de solidariedade”. 

Foi um sujeito negro, africano, que chegou aqui em liberdade, bastante jovem, ainda nos anos 1870 do século 19 e uma figura bastante conhecida no Rio Grande do Sul, mas desconhecida fora do Grande do Sul

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