Quando a infância vira espetáculo digital

Físico e divulgador de ciência no canal Ciência Nerd
Universidade Federal de Juiz de Fora

Exposição de crianças e adolescentes na internet tornou-se prática comum, mas pode trazer problemas graves para sua saúde, segurança e bem-estar, o que reforça a importância da educação digital para conscientizar responsáveis e minimizar esses riscos

CRÉDITO: ADOBE STOCK

Você provavelmente já se deparou na internet com algum vídeo de criança fazendo birra para não tomar banho, chorando e gritando, ou algum vídeo fofo de uma criança bem novinha brincando na piscina de biquíni. Esse tipo de conteúdo é o que chamamos de sharenting – um fenômeno que transformou a infância em entretenimento digital e levanta uma questão importante: quando o amor parental se torna espetáculo, quem realmente se beneficia?

Fusão das palavras em inglês ‘compartilhar’ (share) e ‘paternidade/maternidade’ (parenting), sharenting se refere à prática de pais que publicam informações, fotos e vídeos sobre seus filhos nas redes sociais e que hoje é amplamente estudada e discutida no meio acadêmico e na mídia. Para você ter ideia, nos Estados Unidos, aproximadamente 77% dos pais já compartilharam fotos, histórias ou vídeos dos seus filhos on-line, e mais de 80% usam os nomes reais das crianças. Pais britânicos compartilham, em média, quase 1.500 fotos de seus filhos antes mesmo de completarem 5 anos de idade.

Uma das motivações para a prática de sharenting é a busca por conexão e validação social. Sabe aquela sensação que você sente quando uma postagem sua faz muito sucesso (vários likes, elogios, compartilhamentos)? Para muitos pais, essa validação de outras pessoas é quase como um ‘Oscar de melhor pai/mãe do ano’, um atestado de que estão fazendo um bom trabalho. 

Há também o desejo de se construir uma espécie de álbum de família do século 21. No passado, os pais e avós guardavam álbuns de fotos e filmes caseiros para preservar memórias preciosas dos filhos e netos, seus marcos de desenvolvimento e suas conquistas. Hoje, para muitas pessoas, são as redes sociais que cumprem esse papel. 

Outro motivo importante é a busca por apoio. Muitos pais encontram na internet algo que perderam na vida real: uma tribo, um grupo de amigos, uma comunidade. Presos em casa, devido aos compromissos da paternidade, esses pais veem nas redes um espaço propício para estabelecer novas conexões, para interagir com pessoas que vivem situações similares às suas, para trocar conselhos e receber suporte.

Por fim, existe também sharenting profissional, quando a exposição da vida familiar vira um negócio. Crianças e adolescentes se transformam em influenciadores mirins, as casas se transformam em grandes estúdios de filmagem e o dia a dia da família vira um verdadeiro reality show. Isso pode ser tão lucrativo que, em alguns casos, os filhos podem se tornar a principal (ou mesmo a única) fonte de renda de uma família inteira. 

Já sabemos que todas essas motivações tornam o sharenting uma prática muito atrativa para os adultos. Mas, e para os jovens? Será que eles também colhem benefícios dessa exposição?

O preço do engajamento

Quando você posta um conteúdo na internet, ele é instantaneamente arquivado e replicado em inúmeros servidores, computadores e celulares ao redor do mundo. A cada visualização, reação e compartilhamento, essa informação se espalha exponencialmente, tornando-se cada vez mais difícil de ser completamente removida da rede. Um conteúdo com grande engajamento pode se tornar praticamente impossível de ser apagado em questão de horas.

Essas informações criam o que pesquisadores chamam de pegada digital ou tatuagem digital – um rastro permanente que pode acompanhar uma criança pelo resto de sua vida. Diferentemente do álbum de família guardado em casa, esse registro digital é público, inalterável e acessível a qualquer pessoa com conexão à internet. As consequências futuras podem ser devastadoras: desde a perda de oportunidades profissionais até constrangimentos pessoais que se estendem por décadas.

No campo da privacidade e segurança, a exposição digital infantil abre portas para uma série de ameaças que muitos pais sequer imaginam. Postagens aparentemente inofensivas podem ser um catalisador para ciberbullying, roubo de identidade e assédio on-line. Por meio de fotos e vídeos familiares, predadores digitais conseguem coletar informações detalhadas sobre onde uma criança mora e estuda, seus horários, hábitos e rotina diária. 

Crescer sob a incessante luz dos holofotes digitais é extremamente exaustivo. Para uma criança ou adolescente, que passa por uma fase crucial de construção de identidade e de busca por validação externa, essa pressão pode ser devastadora. 

Estudos indicam que a vergonha, a ansiedade e a baixa autoestima relacionadas a publicações antigas são sentimentos comuns. Os filhos podem se sentir envergonhados ou desconfortáveis com o que os pais compartilham on-line, enquanto a constante pressão por engajamento e aprovação pode culminar em sentimentos de inadequação, comparações sociais incessantes e, em casos mais graves, levar a quadros de ansiedade e depressão duradouros.

A criança que hoje se diverte gravando um vídeo, aparentemente inocente e feito com as melhores intenções, pode se tornar um adulto que amanhã se arrependerá amargamente, preso a uma imagem ou a uma história que já não o representa mais. 

Nos Estados Unidos, aproximadamente 77% dos pais já compartilharam fotos, histórias ou vídeos dos seus filhos on-line, e mais de 80% usam os nomes reais das crianças. Pais britânicos compartilham, em média, quase 1.500 fotos de seus filhos antes mesmo de completarem 5 anos de idade

Vítimas da viralização

Em novembro de 2015, uma menina de apenas 12 anos foi filmada durante uma briga na saída da escola em Alto Jequitibá, Minas Gerais. A frase ‘Já acabou, Jéssica?’, proferida por ela, tornou-se instantaneamente viral. O que parecia ser só mais um vídeo engraçado na internet se transformou em um pesadelo para a adolescente, que passou a ser reconhecida em todos os lugares. A fama indesejada fez com que ela abandonasse os estudos, desenvolvesse depressão severa e adotasse comportamentos autodestrutivos como forma de lidar com a dor emocional. 

Outro caso igualmente devastador foi o de uma menina que, aos 15 anos, tornou-se o meme ‘Diva da Oakley’, após compartilhar uma selfie inocente no Facebook em 2012. A imagem, feita durante uma confraternização familiar onde ela usava óculos do primo, viralizou de forma cruel, transformando-a em alvo de piadas sobre sua aparência física e comentários racistas. O impacto psicológico foi devastador: a adolescente abandonou a escola, isolou-se socialmente e chegou a tentar tirar a própria vida.

Ambos os casos ilustram situações extremas de adolescentes que tiveram suas vidas completamente destruídas por conteúdos que escaparam do seu controle. Uma precisou de tratamento psiquiátrico intensivo; outra levou anos para reconstruir sua autoestima e retomar os estudos. As duas jovens relatam que, mesmo anos depois, ainda enfrentam reconhecimento público e comentários ofensivos, demonstrando como a internet preserva e perpetua esses momentos de vulnerabilidade.

Sharenting e adultização infantil

Em 2025, o youtuber Felca trouxe à tona uma discussão ainda mais perturbadora sobre a exposição infantil na internet. Em um vídeo que rapidamente viralizou, ele denunciou como os algoritmos das plataformas digitais favorecem conteúdos que promovem a sexualização precoce de crianças, expondo-as a ambientes completamente inapropriados para sua idade.

Felca mostrou exemplos chocantes de perfis no Instagram onde crianças eram expostas – muitas vezes de forma inadequada – e recebiam comentários de perfis de adultos com frases aparentemente inocentes, como ‘que linda’ ou ‘princesa’, mas acompanhadas de emojis com conotação sexual. Além das curtidas e comentários, esses conteúdos ainda haviam sido salvos por milhares de estranhos.

O impacto do vídeo de Felca foi imenso, gerando uma onda de conscientização que levou à apresentação de dezenas de projetos de lei para prevenir e combater a exposição indevida e a exploração de crianças e adolescentes na internet.

É evidente que há uma diferença enorme entre uma mãe que compartilha momentos inocentes de seu filho brincando no parque e canais no YouTube que publicam conteúdos envolvendo jovens em situações questionáveis ou com comportamentos sensualizados. Mesmo assim, independentemente das intenções por trás dessas postagens, não temos controle sobre quem está do outro lado da tela. Uma foto ou vídeo aparentemente inofensivos podem ser acessados por indivíduos mal-intencionados, que podem utilizar esse material de maneiras prejudiciais, salvá-lo em dispositivos pessoais ou até editá-lo com inteligência artificial para satisfazer seus interesses.

Os filhos podem se sentir envergonhados ou desconfortáveis com o que os pais compartilham online, enquanto a constante pressão por engajamento e aprovação pode culminar em sentimentos de inadequação, comparações sociais incessantes e, em casos mais graves, levar a quadros de ansiedade e depressão duradouros

Proteção à infância na era digital

Quando exploramos o universo do sharenting e temos contato com pesquisas científicas na área, fica claro que não estamos diante de uma prática simplesmente boa ou ruim. Trata-se, na verdade, de um fenômeno complexo, que possui a capacidade de criar laços e memórias valiosas, mas também de expor crianças a riscos invisíveis e duradouros. 

O que se busca, na verdade, não é eliminar o sharenting, mas transformá-lo em uma prática consciente e responsável. As pesquisas apontam para um caminho claro: a educação digital é a nossa ferramenta mais poderosa. Pais e responsáveis precisam compreender profundamente como a internet funciona, os perigos da nossa pegada digital e a importância de sempre envolver as crianças nas decisões sobre o que é publicado a seu respeito.

Alguns pesquisadores destacam a importância do consentimento da criança ao se postar uma foto ou vídeo dela. No entanto, é evidente que uma criança não possui a capacidade plena de avaliar todos os riscos e o impacto futuro de suas escolhas digitais. Mesmo que ela demonstre entusiasmo em ser filmada e queira sua imagem circulando nas redes, a responsabilidade legal e moral por sua proteção e bem-estar recai sobre os pais. 

Antes de publicar qualquer conteúdo envolvendo seus filhos, os pais devem fazer uma pausa e refletir honestamente sobre quatro perguntas essenciais: 1) meu filho concordou com isso? Busque o consentimento genuíno da criança, explicando onde e como a imagem será compartilhada; 2) essa imagem pode constrangê-lo no futuro? Imagine seu filho aos 16, 25 ou 35 anos vendo esse conteúdo; 3) estou expondo informações pessoais? Verifique se a postagem revela localização, escola, rotina ou outros dados que possam comprometer a segurança; 4) qual é minha verdadeira motivação? Seja honesto sobre se está compartilhando para preservar uma memória familiar ou buscando validação, engajamento, elogios para si.

Nosso objetivo deve ser construir um ciberespaço onde a infância possa ser vivida e celebrada com segurança e respeito. Isso significa reconhecer que cada clique, cada compartilhamento e cada postagem envolvendo uma criança têm o poder de moldar seu futuro digital. As memórias que criamos hoje na internet devem ser um legado positivo, não um fardo que nossos filhos carregarão pela vida toda. Somente por meio de práticas conscientes e responsáveis poderemos garantir que cada criança seja a verdadeira autora da sua própria história digital, quando chegar a hora certa para isso.

A proteção da infância na era digital não é apenas uma responsabilidade individual dos pais – é um compromisso coletivo que exige de todos nós maior consciência, empatia e respeito pelos direitos fundamentais das crianças. O futuro digital que construímos hoje determinará o tipo de sociedade que deixaremos para as próximas gerações. Cabe a nós escolher se esse futuro será construído sobre o respeito à dignidade infantil ou sobre as ruínas de infâncias sacrificadas nas vitrines do entretenimento digital.

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