Qual o risco de o vírus Nilo Ocidental provocar surtos como os de dengue e zika? E qual a relação dele com as mudanças climáticas?

Departamento de Patologia
Centro de Ciências Biológicas e da Saúde
Universidade do Estado do Pará

CRÉDITO: FOTO JAMES GATHANY/DOMÍNIO PÚBLICO/WIKIMEDIA COMMONS

O vírus do Nilo Ocidental (VNO) é um arbovírus (vírus transmitido biologicamente pela picada de mosquitos infectados do gênero Culex, em particular do Culex pipiens quinquefasciatus). Esse vírus foi isolado em uma região do alto Rio Nilo (daí o seu nome), em Uganda, na África, em 1937. Em 1999, o VNO foi introduzido nos Estados Unidos a partir de aves importadas pelo Zoológico de Nova York. O VNO rapidamente se disseminou por lá e, aos poucos, chegou às Américas Central e do Sul e ao Caribe.

O primeiro caso documentado de VNO no Brasil foi registrado no Piauí em 2013. Depois outros casos começaram a ser descritos no país, e o primeiro isolamento viral do VNO ocorreu em 2018, depois que um cavalo morreu de encefalite no estado do Espírito Santo. Posteriormente, houve diversos casos e pequenos surtos em Minas Gerais, Ceará, Tocantins, Goiás e, mais recentemente, em Santa Catarina e São Paulo. Além disso, o VNO foi isolado em Carajás, no Pará, em plena Floresta Amazônica. Essas ocorrências mostram que o VNO está se espalhando no Brasil, indicando que, possivelmente, em um futuro não muito distante, poderemos ter de conviver com surtos maiores ou mesmo epidemias no país.

O impacto do VNO, no entanto, deve ser bem menor do que o dos vírus causadores da dengue e da zika, mas não pode ser ignorado nem desprezado. Aos poucos está aumentando a sua dispersão dentro do território nacional, onde é frequente o vetor potencial do VNO, o mosquito comum noturno (pernilongo) Culex quinquefasciatus.

No Brasil, há vários vírus “aparentados” ao VNO (gênero orthoflavivirus) circulantes, como causadores da dengue, da zika e da febre amarela (que também conta com o vírus atenuado na vacina em uso em no país). Não sabemos ainda se o VNO terá reatividade cruzada, ou seja, se esse grupo que já teve contato com esses outros orthoflavivirus apresentará anticorpos. A questão é: isso aumentará sua capacidade de o VNO causar doença neurológica grave ou essa reatividade cruzada atuará para atenuar ou conter a gravidade da maioria dos quadros clínicos? Só o tempo e estudos de coortes epidemiológicas poderão esclarecer.

Hoje sabemos que o aumento da temperatura global no planeta tem tornado o clima desfavorável às populações humanas, especialmente às pessoas com menor poder econômico, em geral mais expostas aos vírus e seus vetores. As mudanças climáticas, representadas pelo aumento das temperaturas médias, favorecem a proliferação dos insetos, incluindo os mosquitos vetores, transmissores potenciais de arbovírus, como é o caso do VNO e de muitos outros. Portanto, não resta dúvida que o aquecimento do planeta, em maior escala e com mais impacto na região tropical, favorece as doenças transmitidas por vetores como os arbovírus, incluindo dengue, zika, VNO etc.

Por que a maioria dos infectados pelo VNO não apresenta sintomas, mas uma minoria desenvolve doença neurológica grave?

Toda doença infecciosa tem um espectro clínico em que ocorrem infecções sem sintomas (formas assintomáticas), quadros clínicos leves, moderados e graves. É assim com doenças virais, como a dengue e a zika, bem como com doenças bacterianas como leptospirose etc. No caso do VNO, as ocorrências graves são infecções do sistema nervoso central como as encefalites.

É possível que essa ocorrência tenha, em parte, relação com a genética: ou seja, um reduzido número de pessoas (e famílias) com herança genética seriam mais suscetíveis ao vírus do que a maioria da população, que apresentaria resistência ao VNO. Acredita-se que, para cada caso de doença neurológica invasiva (encefalite, meningoencefalite etc.), ocorram até 350-400 infecções leves ou assintomáticas. No entanto, dependendo da intensidade do surto ou epidemia, poderemos ter dezenas ou mesmo centenas de casos graves.

É importante lembrar que, de 1999 (ano da introdução do VNO nos EUA) até 2025, um total de 63.173 casos de febre do Nilo Ocidental foram notificados, com 25.240 hospitalizações e 3.320 mortes registradas, segundo dados do Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), disponíveis em Historic Data (1999-2025) | West Nile Virus | CDC). Não é desprezível. Por outro lado, na Europa, este ano mais de 600 casos de febre do Nilo Ocidental foram notificados somente na Itália, com o registro de 41 mortes.

Assim, é importante que a vigilância do VNO no Brasil seja fortalecida para acompanhar se há aumento do número de casos identificados. Uma das principais preocupações é a saúde pública veterinária, já que, em outros países onde o VNO foi introduzido, morreram muitos animais. Foram atingidas aves silvestres, mas também domésticas, o que aumenta as chances de o mosquito vetor Culex quinquefasciatus se infectar e transmitir o vírus para os humanos e, também, para outros animais.

Seu Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Outros conteúdos desta edição

725_480 att-103019
725_480 att-102839
725_480 att-103010
725_480 att-102732
725_480 att-103079
725_480 att-103052
725_480 att-103058
725_480 att-103106
725_480 att-103001
725_480 att-103071
725_480 att-103088
725_480 att-102890
725_480 att-102884
725_480 att-102872
725_480 att-102878

Outros conteúdos nesta categoria

725_480 att-100128
614_256 att-27650
614_256 att-27650
614_256 att-27650
725_480 att-95082
614_256 att-27650
614_256 att-27650
614_256 att-27650
614_256 att-27650
614_256 att-27650
614_256 att-27650
614_256 att-27650
614_256 att-27650
614_256 att-27650
614_256 att-27650