Novos censos para desvendar o Brasil

Jornalista, especial para a Ciência Hoje

Coordenador de Geografia do IBGE detalha os desafios da primeira pesquisa nacional com a população em situação de rua, destaca inovações do décimo-segundo levantamento agropecuário e enfatiza a importância da coleta de dados para políticas públicas e gestão do país

CRÉDITO: FOTO: DIVULGAÇÃO MMA

Na reta final de 2026, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) trabalha em três levantamentos simultâneos que podem guiar ações e políticas públicas para muito além deste ano. Enquanto divulga os últimos microdados do Censo Demográfico de 2020/2022, o IBGE finaliza os testes-piloto para o 12º Censo Agropecuário, realiza as provas iniciais em cinco cidades para o primeiro Censo Nacional da População de Rua e se prepara para planejar o próximo Censo Demográfico, a ser lançado em 2030. Tantos levantamentos e dados têm um objetivo bem representado no lema do IBGE: “Retratar o Brasil com informações necessárias ao conhecimento de sua realidade e ao exercício da cidadania”. Ou seja, embasamento para avançar com decisões e políticas públicas respaldadas em dados.
“O Brasil não só tem uma heterogeneidade cultural enorme como uma disparidade social das maiores do mundo. Então, se não fizermos o levantamento casa a casa, não temos como saber disso. Não veremos aquelas famílias sem gás encanado, tampouco aquelas que acessam drones pelo celular para acompanhar o crescimento de uma sementinha de arroz. Quando vamos à rua, vemos diferentes perfis. Muitas vezes, um do lado do outro”, afirma Felipe Mendes Cronemberger, coordenador de Geografia da Diretoria de Geociências do IBGE. Em entrevista à CH, ele explica particularidades dos diferentes censos em andamento, e a riqueza de ações que podem ser extraídas dos dados e informações gerados a partir desses retratos.

CIÊNCIA HOJE: Quando falamos em “censo”, muitas vezes pensamos apenas no Censo Demográfico. Mas o IBGE realiza diferentes levantamentos e recentemente começou um piloto em cinco capitais brasileiras para um mapeamento nacional inédito da população em situação de rua. Qual é o tamanho desse desafio?

FELIPE CRONEMBERGER: O IBGE já vem em um trabalho para trazer à luz os setores mais esquecidos da sociedade. Temos falado de populações quilombolas, indígenas, de favelas e comunidades urbanas. Tivemos um avanço significativo em abordagem e acesso a esses lugares nos últimos censos. Mais recentemente, iniciamos o Censo Nacional da População em Situação de Rua, que é novo e traz uma complexidade muito grande. A começar pelo fato de que os censos até hoje são feitos sobre domicílios ou, no caso do Censo Agropecuário, sobre estabelecimentos agropecuários. Para a população em situação de rua, precisamos pensar numa abordagem totalmente diferente. Iniciamos em cinco cidades brasileiras, que captam as diferenças regionais do país: Belo Horizonte, Goiânia, Florianópolis, Manaus e Salvador. Estabelecemos rotas para percorrer essas cidades, sempre no turno da noite, quando essa população costuma parar em um local para dormir. E encurtamos significativamente o período de realização do censo, dada a mobilidade mais frequente dessa população. Enquanto num Censo Demográfico os cientistas coletam dados de três a nove meses, no caso deste o período é inferior a uma semana, para evitar que haja uma maior movimentação dessas populações. Tivemos também que pensar na questão de segurança, considerando que os recenseadores passam por locais em que não há apenas pessoas em situação de rua, mas também usuários de drogas, proximidade com bocas de fumo etc. Então os recenseadores saem em vans, em equipes maiores do que nos censos tradicionais. E têm a opção de abordar ou não um grupo ou pessoa, de acordo com a percepção do local no momento. Eles vão às ruas e aos estabelecimentos dormitórios, geralmente ligados aos municípios, aos estados ou a entidades privadas e igrejas. Um ponto importante para a equipe em campo é o apoio das secretarias de assistência social, em geral, dos municípios. Estamos estudando ainda a possibilidade de delimitar o recorte geográfico desse censo para cidades com mais de 50 mil habitantes, com base em pesquisas que fazemos sobre a região de influência dos municípios e maior ocorrência de população em situação de rua em grandes centros. Mas temos feito estudos para entender se precisaremos estender também a municípios na borda de regiões metropolitanas que apresentem esse contexto de forma significativa, mesmo que tenham menos de 50 mil habitantes.

CH: Como esse tipo de levantamento pode ajudar a revelar desigualdades e vulnerabilidades que números absolutos não mostram? Que tipo de questões são contempladas nesse sentido?

FC: O questionário desse censo ainda está em construção, mas incluímos questões básicas de idade, raça ou cor, gênero etc., que nos darão uma ideia estatística da população de rua. Também devem entrar detalhes como quantas dessas pessoas se identificam como população negra, indígena, ou quais são as principais faixas etárias que dormem na rua. Também vamos abordar o nível de escolaridade e a questão alimentar, para entender qual é o risco de insegurança alimentar. Perguntaremos ainda sobre as condições em que as pessoas vivem, e como chegaram às ruas, que tipo de situação ou violência as levaram àquela condição. Outra questão interessante está relacionada ao gênero com o qual as pessoas se identificam. Sabemos que há uma quantidade importante de população transexual vivendo marginalizada nas ruas, e a coleta desse tipo de informação permitirá ter um retrato mais fiel desse grupo. É algo totalmente novo.

Para a população em situação de rua, precisamos pensar numa abordagem totalmente diferente. Iniciamos em cinco cidades brasileiras, que captam as diferenças regionais do país

CH: Quais foram as maiores dificuldades observadas até agora, considerando o primeiro trabalho de campo nas cidades piloto? Há algo que se considere mudar?

FC: Pensando no recorte de municípios com mais de 50 mil habitantes, falamos de um universo de cerca de 682 cidades brasileiras. Mas isso ainda está sendo revisto. Passamos por uma primeira prova piloto do censo de população em situação de rua, nas cinco capitais que mencionei. Ainda teremos uma segunda prova piloto, que normalmente inclui uma área maior, e um censo experimental, com um município de cada estado, até a efetiva realização deste censo, em âmbito nacional, prevista para 2028. Ainda veremos a exata definição da área geográfica para as fases prévias dessa pesquisa. É algo inédito e não é simples. Muitas soluções ainda não foram testadas em âmbito nacional, então estão sendo criadas com a prova piloto em andamento. Há uma grande preocupação de como será possível coletar todas essas informações em menos de uma semana, em todo o território. Muitos dados estão sendo analisados. Tem sido um processo interessante, mas também complicado. Por exemplo, na semana da prova piloto, estava chovendo e fazendo muito frio em Florianópolis, o que dificultou a contabilização. Em outros censos, com mais tempo, os recenseadores podem se adaptar, voltar outro dia. Mas num censo de população de rua, com período reduzido para coleta de dados, a questão climática, por exemplo, pode ser limitante. De todo modo, é uma iniciativa inédita que nos permitirá ter um perfil bem detalhado. Já houve iniciativas pontuais de alguns municípios para mapear essa população. Mas agora teremos uma comparabilidade a nível regional, com base num mesmo critério para todas as cidades e com os mesmos métodos de coleta de informação.

CH: Outras novidades serão inovações no 12º Censo Agropecuário. O que esse censo permite compreender sobre o campo brasileiro que outras pesquisas não conseguem revelar?

FC: Um dos aspectos mais interessantes desse levantamento é que ele não entra só na parte da agroindústria, pega também as populações locais, como comunidades quilombolas, indígenas, pequenos agricultores. O que vemos é que o agro brasileiro não é só a grande indústria, ele é a vida de muita gente. Pode não ter a mesma representatividade econômica de grandes setores como o da exportação de soja, e outros, mas existe uma população ali. O IBGE já tem pesquisas mensais sobre agricultura e pecuária, que nos permitem ter ideia dos quantitativos de grãos produzidos, áreas e valores de exportação. Agora, para o Censo Agropecuário, entre outras inovações, criamos três módulos que não estavam nas edições anteriores. Um deles é sobre o destino da produção. Agora, para cada pequeno ou grande agricultor, vamos saber qual é o destino da produção, se é para o mesmo município, para um grande centro etc. Isso nos dará uma ideia dos gargalos logísticos do agro no Brasil, que é muito interessante. Também teremos uma pesquisa sobre o entorno das fazendas, das estradas, do tamanho delas, se têm pavimentação, não tem, qual sua condição, se a produção sai por terra, por água. Isso se combina um pouco com os dados do destino da produção. E há outro módulo que estudará se houve alguma perda de produção em razão de questões climáticas ou desastres naturais nos últimos dez anos. Essas novidades se unem a abordagens que já estavam nas últimas edições, relacionadas ao perfil dos agricultores, presença de comunidades tradicionais, dimensão da agricultura familiar, uso de agrotóxicos e defensivos agrícolas, condições dos produtores, raça, sexo, idade.

Sabemos que há uma quantidade importante de população transexual vivendo marginalizada nas ruas, e a coleta desse tipo de informação permitirá ter um retrato mais fiel desse grupo. É algo totalmente novo

CH: Quando foi o último Censo Agropecuário realizado pelo IBGE? Existe alguma expectativa ou previsão sobre o que a nova edição pode apontar com base nas edições anteriores?

FC: O primeiro Censo Agropecuário foi realizado em 1920, antes mesmo do surgimento do IBGE, que tem 90 anos. A edição mais recente foi em 2017. De 2007 a 2017, houve um salto no perfil da população rural brasileira: há um envelhecimento da condição dos produtores agrícolas, uma passagem cada vez mais acelerada do pequeno fazendeiro e produtor para a agroindústria, ao mesmo tempo em que há maior presença de mulheres e pessoas negras nessa área. No Censo de 2017, os produtores negros e pardos totalizaram 53,4% dos estabelecimentos, superando os produtores brancos pela primeira vez histórica no setor. Também há um aumento nas grandes fazendas, na posse de terra por grupos menores. Outro ponto marcante foi a entrada de maquinária agrícola. A quantidade de tratores no campo, por exemplo, disparou exponencialmente. E acredito que de lá para cá vamos ver isso mais e mais intensamente. Há uma questão de evolução de tecnologia, evolução da própria Embrapa e de necessidade de evoluir pela crise climática. Com isso, há também um crescimento de produtividade no campo, embora o impacto das mudanças climáticas se faça presente. Acreditamos que essa tendência deve seguir. Faremos uma etapa da preparação, o chamado censo agro experimental, agora em novembro, e o levantamento oficial em julho de 2027.

CH: Quando olhamos os dados demográficos em escala nacional, algumas desigualdades podem desaparecer dentro das médias. Por que é importante produzir informação em diferentes escalas territoriais e sociais?

FC: O Brasil não só tem uma heterogeneidade cultural enorme como uma disparidade social das maiores do mundo. Então, se não fizermos o levantamento casa a casa, não temos como saber disso. Não veremos aquelas famílias sem gás encanado, tampouco aquelas que acessam drones pelo celular para acompanhar o crescimento de uma sementinha de arroz. Quando vamos à rua, vemos diferentes perfis. Muitas vezes, um do lado do outro. Uma pequena propriedade recebida de herança perto de uma fazenda imensa. Às vezes se coloca em xeque essa capilaridade do IBGE de ir a todos os cantos do país. Há quem defenda que deveríamos usar questionários pré-preenchidos. Mas não é uma possibilidade para a realidade de um país do tamanho do Brasil, com toda a diversidade cultural, econômica e climática. Esse reconhecimento da nossa população, de quem somos, é interessantíssimo e essencial. A diferença local, principalmente nas cidades pequenas, é impressionante. Os censos envolvem muitas histórias: histórias dos moradores, de quem faz o recenseamento, de um café que alguém oferece, de um caso contado antes de iniciar as perguntas. Em alguns lugares, as pessoas têm mais tempo, se permitem um pouco mais de prosa. Isso tudo vai além da estatística.

Há um envelhecimento da condição dos produtores agrícolas, uma passagem cada vez mais acelerada do pequeno fazendeiro e produtor para a agroindústria, ao mesmo tempo em que há maior presença de mulheres e pessoas negras nessa área

CH: Como os dados produzidos pelo IBGE chegam aos gestores públicos e se transformam, ou  deveriam se transformar, em políticas públicas?

FC: Muitas leis já se baseiam no trabalho do IBGE, como o próprio fundo de participação municipal, que parte dos números de população para a transferência de recursos aos municípios. Nossos bancos de dados e plataformas são abertos a consultas e pautam, também, ações públicas. Recentemente, tivemos um caso com o Cadastro Único, em relação à exigência de cadastro biométrico para populações que vivem em regiões longínquas. Essa definição de “regiões longínquas” se estabelece, por exemplo, a partir de dados produzidos pelo IBGE. Também produzimos estatísticas para apoiar políticas públicas. Além disso, os dados servem de consultoria para diferentes indústrias, como a do agro. Com base nas nossas pesquisas, empreendedores e integrantes da indústria podem ter ideia da produção brasileira, sua localização, quais setores avançam melhor etc. Somos um norte para a definição do crescimento brasileiro. Fazemos cooperações com órgãos internacionais, como FAO, ONU Habitat, entre outros. Nossa produção é para todos, sempre apoiando a população brasileira.

CH: Como o IBGE consegue acompanhar mudanças que acontecem entre um censo e outro, muitas vezes de maneira muito rápida? E como o avanço da tecnologia influencia na maneira de o IBGE fazer e divulgar seus levantamentos?

FC: Temos evoluído cada vez mais na questão do sensoriamento remoto. Aumentamos os dispositivos móveis de coleta, hoje do tamanho de tablets, e os aparelhos vêm com imagens de satélite de altíssima resolução para todas as áreas a serem levantadas. É um trabalho enorme, mas estamos criando uma base de dados, como se fosse um Google Earth próprio do censo. Com isso, conseguimos definir as melhores rotas a seguir e como otimizar nosso tempo. O levantamento ainda é feito sobre setor censitário, com definição de áreas mínimas para pesquisa. E cada censo tem questões específicas. No Censo Agropecuário, por exemplo, grande parte dele é feito de forma offline. Em muitas áreas rurais não há sinal de internet ou telefone. Por isso investimos em soluções de banco de dados, informações e big data. Temos também usado inteligência artificial para checagem e revisão do levantamento. Ela nos ajuda criando alertas caso detecte alguma inconsistência. Mas não substitui o trabalho presencial, até porque temos que chegar a todas as pessoas em igualdade, não só àquelas que possuem acesso à internet. Também temos evoluído em tecnologia de ferramentas para captação de imagens e informações. E sempre tentamos melhorar o nível de abordagem para chegar em detalhes e aos diferentes pedaços do nosso território. Mas temos um cuidado constante aí, principalmente em tempos de IA, para que não seja possível identificar moradores ou dados específicos de domicílios. Por isso, por exemplo, atrasamos a divulgação de microdados do Censo Demográfico, para garantir esse reforço de segurança. Seguimos a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), nossos dados sempre são anonimizados, e monitoramos setores sensíveis, com áreas de divulgação, de forma que nunca uma propriedade possa ser identificada ali. Há, por exemplo, no mínimo 50 domicílios para definir um setor censitário padrão, o urbano, coberto por um recenseador, preservando o sigilo. Além disso, o IBGE oculta variáveis em setores com menos de cinco domicílios permanentes, protegendo a identidade dos moradores. Não há como alguém saber se em determinada região censitária da pesquisa há cinco ou 20 domicílios, 20 ou 40 pessoas. São várias medidas de segurança para que os dados nunca sejam divulgados de maneira personalizada.

Há quem defenda que deveríamos usar questionários pré-preenchidos. Mas não é uma possibilidade para a realidade de um país do tamanho do Brasil, com toda a diversidade cultural, econômica e climática

CH: Que outras populações ou fenômenos acredita que ainda precisam ser mais bem compreendidos e ainda parecem invisíveis ao país? E qual é a expectativa em relação aos próximos levantamentos e à responsabilidade dos próximos governantes de transformar toda essa informação estatística em serviços e benefícios necessários à população?

FC: Estamos já com três censos em andamento. O Censo Agropecuário, o da população em situação de rua e a divulgação dos microdados do último Censo Demográfico, já preparando o planejamento para o próximo demográfico, de 2030, cuja prova piloto acontecerá em 2028. Mas buscamos, claro, sempre nos aperfeiçoar. Temos trabalhado na definição de favelas e comunidades urbanas e estudado como chegar mais a esses territórios. Da mesma forma, estudamos como chegar a mais comunidades ribeirinhas, povos tradicionais e aldeias indígenas. Essas populações já estão lá, o que buscamos é ter mais acesso a essas pessoas e áreas difíceis, longínquas, às vezes com questões também de segurança. Outro ponto é a ampliação da variabilidade das questões, de temas ainda não abordados. No censo de 2022, tivemos como novidade a inclusão de uma pergunta sobre autismo. Para próximos levantamentos, seria importante, por exemplo, alguma questão relacionada à percepção da falta de segurança pelas mulheres. Quando iniciamos as discussões sobre o que vai entrar nos questionários de censos, sempre começamos com dezenas de perguntas, que são analisadas por especialistas de dentro e fora do IBGE, e parte delas é cortada ao longo do processo. Há uma questão de custo, claro, e de otimização de tempo no trabalho dos recenseadores. Mas sempre podemos ir além. Independentemente do próximo governo eleito, será dele a incumbência de fazer os próximos censos. É importante que se coloque isso no orçamento, e que se faça cumprir, porque o Censo 2020/22 quase não foi cumprido pelo governo federal na ocasião, e o tema teve de chegar ao Supremo Tribunal Federal. Se desejamos uma democracia, precisamos de dados e conhecimentos sobre quem é a população brasileira. Isso é o que o Censo faz, o IBGE é uma das representatividades do Estado, afinal. E, para isso, é preciso garantir as condições de realização desses levantamentos. É responsabilidade dos governantes buscarem esse retrato do Brasil. E a partir daí, de fato, melhorar políticas públicas, entender erros e acertos e de posse dessas “fotografias” definir os melhores rumos para o país.

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