Infecções neonatais ou na gestação e doenças neurodegenerativas

Pesquisadora da UFRJ fala sobre relação entre os fatores ambientais presentes no início da vida e o desenvolvimento de doenças no futuro.

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Como as experiências nos estágios iniciais da vida podem influenciar nosso comportamento e o desenvolvimento de doenças no futuro? A busca por respostas a essa pergunta é o que move o trabalho de Julia Clarke, pesquisadora e professora adjunta da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Nesta entrevista à Ciência Hoje, ela, que é uma das coordenadoras do Núcleo de Neurociências da Faculdade de Farmácia (NNeFFar), fala sobre quais fatores ambientais podem estar relacionados ao desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson, e revela que a epidemia de Zika no Brasil pode ter consequências mais sérias do que o esperado: “Vimos que uma infecção perinatal pelo Zika causa alterações de longo prazo no comportamento, como prejuízo de memória e motor, diminuída interação social, que é um traço característico do autismo, e maior susceptibilidade a apresentar crises epilépticas. É preciso que haja um acompanhamento dos bebês expostos ao vírus, mesmo aqueles que não apresentaram malformações detectáveis ao nascimento, como microcefalia, pois uma série de outras complicações pode surgir conforme eles forem crescendo”, explica a pesquisadora, de 34 anos.

CIÊNCIA HOJE: Qual o ponto de partida para pesquisar a relação entre fatores ambientais aos quais fetos e recém-nascidos estão expostos e o desenvolvimento de doenças neuropsiquiátricas e neurodegenerativas?

JULIA CLARKE: As primeiras evidências de que os acontecimentos durante o período perinatal são capazes de influenciar a saúde do indivíduo a longo prazo vieram da observação das consequências da privação alimentar durante a gestação, num episódio que aconteceu ao final da Segunda Guerra. No inverno (no hemisfério Norte) do final de 1944 e início de 1945, uma região no norte da Holanda, ocupada pelos nazistas, passou por um racionamento extremo de alimentos. Muitas pessoas morreram de fome, e a população sobrevivente foi acompanhada durante anos num conjunto de estudos clássicos chamados “The DutchHungerWinterStudies”. Diversas associações foram estabelecidas entre a redução drástica da ingestão de alimentos durante períodos específicos da gestação e como isso afetou a saúde das crianças que estavam na barriga da mãe, até que elas atingissem a idade adulta. Dependendo do período da gestação em que essa fome extrema ocorreu, era observada maior propensão a obesidade, doenças cardiovasculares e, também, esquizofrenia, nos filhos. A partir do estudo dessa população, diversos outros estudos em pacientes e em animais buscaram compreender as associações entre eventos no período perinatal (que compreende o final da gestação e os primeiros anos de vida da criança) e a saúde no indivíduo adulto. Depois vieram evidências da associação entre autismo e infecções na mãe durante a gestação ou no início da vida. Ainda se conhece muito pouco sobre como esses eventos se relacionam, e ainda há muito para ser pesquisado nesse campo.

 

CIÊNCIA HOJE: De que forma é desenvolvida a pesquisa?

JULIA CLARKE: Nós utilizamos modelos animais para tentar mimetizar aquilo que acontece nos pacientes. Por exemplo, temos modelos de exposição dos animais a vírus ou bactérias no período intrauterino ou logo após o nascimento. Temos modelos que mimetizam a exposição a altos níveis de glicose e insulina, por exemplo, como acontece durante o diabetes gestacional, que também tem consequências sobre a saúde dos bebês. Depois acompanhamos esses animais até a vida adulta, vemos se apresentam alguma alteração no comportamento ou na estrutura ou função do cérebro. Por fim, buscamos encontrar um ponto em que seja possível fazer alguma intervenção, com um medicamento, por exemplo, para prevenir o desenvolvimento dessas consequências a longo prazo. Além disso, muitas vezes também buscamos explicar alguns eventos utilizando células isoladas destes animais e que são mantidas in vitro.

Nós já vimos que infecções bacterianas no período perinatal, por exemplo, são capazes de modular a susceptibilidade ao desenvolvimento de Alzheimer

CIÊNCIA HOJE: Sobre quais resultados já é possível falar?

JULIA CLARKE: Nós já vimos que infecções bacterianas no período perinatal, por exemplo, são capazes de modular a susceptibilidade ao desenvolvimento de Alzheimer. Acreditamos que essas infecções sejam capazes de alterar a forma como as células da microglia, que são células de defesa no nosso cérebro, respondem às toxinas que causam a doença de Alzheimer. Esses efeitos de uma infecção bacteriana parecem ser específicos de uma janela temporal durante o desenvolvimento, onde nosso cérebro é mais sensível àquilo que acontece no nosso organismo, já que uma infecção bacteriana de mesma intensidade durante a adolescência ou idade adulta não influenciou a susceptibilidade a desenvolver a doença, no nosso modelo. Recentemente, ainda, nos interessamos em estudar quais seriam os efeitos a longo prazo de uma infecção pelo vírus Zika em indivíduos que não apresentam malformações físicas, como microcefalia, detectáveis ao nascimento.

 

CIÊNCIA HOJE: Pode falar mais sobre essa pesquisa sobre Zika, que será publicada na Science Translational Medicine, e os resultados dela?

JULIA CLARKE: O nosso trabalho (desenvolvido por uma equipe grande que conta com outros pesquisadores da UFRJ, da Unifesp e do Instituto Estadual do Cérebro do RJ) foi focado em estudar as alterações a longo prazo associadas a infecções pelo vírus Zika em indivíduos que não apresentam malformações físicas em consequência da infecção, como a microcefalia. Usamos modelos animais neste estudo, e vimos que a infecção está associada com prejuízo motor e cognitivo e comportamento do tipo autista de forma persistente, até que os animais atinjam a idade adulta. Ocorre também um desbalanço neuroquímico persistente, que faz com que haja uma maior susceptibilidade ao desenvolvimento de crises epilépticas. Isso tudo foi observado em animais que não apresentavam microcefalia ou qualquer alteração física evidente, sugerindo que, mesmo aquelas crianças expostas ao vírus que não tiveram consequências detectáveis ao nascimento podem vir a apresentar uma variedade de problemas no futuro. É preciso estar atento, pois é possível que estejamos subestimando as reais consequências da epidemia de Zika que ocorreu no Brasil em 2015.

 

CIÊNCIA HOJE: Diante dessas informações sobre a Zika, há algo que os pais possam fazer? Há como precisar quais as chances de os recém-nascidos expostos ao vírus desenvolverem essas doenças?

JULIA CLARKE: Os pais e profissionais da saúde devem estar atentos ao surgimento de qualquer alteração ou atraso no desenvolvimento, incluindo capacidade motora grosseira, capacidade motora fina, desenvolvimento da linguagem, habilidades sociais e capacidade de autocuidado, por exemplo. Cada caso deve ser avaliado isoladamente, mas pode ser indicado um acompanhamento por especialistas como neurologistas, fisioterapeutas e psicólogos. Não há como extrapolar diretamente nossos resultados em camundongos para estipular a porcentagem de crianças que desenvolverão essas alterações. As crianças expostas ao vírus, durante a epidemia de 2015-2016, estão hoje completando 2-3 anos. Nestas crianças, mesmo as que não apresentam microcefalia, já se observaram prejuízos motores e de memória, e mais de 60% delas têm crises epilépticas. Para outras desordens como autismo e esquizofrenia, por exemplo, ainda não é possível estimar o real impacto da epidemia.

Nas crianças expostas ao vírus Zika, mesmo as que não apresentam microcefalia, já se observaram prejuízos motores e de memória, e mais de 60% delas têm crises epilépticas

CIÊNCIA HOJE: Segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, o número de casos de crianças com Transtorno do Espectro Autista aumentou nos últimos anos. O interesse do público pelo assunto, naturalmente, cresce. Há muita desinformação sobre o tema? Até os anos 1980, muito se falava sobre influência do ambiente e chegava-se ao cúmulo de responsabilizar os pais. Hoje, se fala em contribuição de fatores genéticos. O que sua pesquisa aponta sobre autismo? 

JULIA CLARKE: Sim, há muita desinformação e boatos que se espalham e causam confusão. Um exemplo é a suposta associação entre vacinas e o desenvolvimento de autismo, que fez com que muitos pais na Europa e Estados Unidos deixassem de vacinar seus filhos. Não há nenhuma evidência contundente de que vacinas possam causar autismo, e o prejuízo para a saúde do bebê caso ele pegue alguma dessas doenças que seriam prevenidas pelas vacinas é muitíssimo maior. Para alguns pacientes é possível, sim, identificar uma predisposição genética. Mutações em determinados genes já foram relacionadas com o desenvolvimento de autismo, porém mesmo indivíduos que não apresentam essas mutações podem desenvolver a doença. O fator ambiental é importante também, mas o que se falava de que a rejeição da mãe tinha relação com o desenvolvimento da doença não tem o menor sentido. As pesquisas no meu laboratório neste tema ainda estão em estágio muito inicial, infelizmente, mas nosso objetivo é estudar em maiores detalhes quais fatores ambientais contribuem mais para o desenvolvimento de autismo e como é possível intervir antes que surjam os primeiros sintomas.

 

CIÊNCIA HOJE: O que mais é possível falar sobre as conclusões a respeito de Alzheimer e Parkinson? Os resultados podem influenciar de alguma forma na busca pelo tratamento dessas doenças?

JULIA CLARKE: Para a doença de Parkinson, estudos em pacientes já mostraram uma associação entre infecções no período perinatal e o surgimento da doença. Para a doença de Alzheimer, especificamente, há evidências clínicas e experimentais que sugerem que não somente infecções, mas também outras experiências nesse período da vida, tais como estresse, separação materna, trauma crânio-encefálico, entre outros, podem influenciar o desenvolvimento da doença anos mais tarde. Outras condições que nos afetam ao longo da nossa vida, como obesidade, diabetes, hipercolesterolemia, privação de sono, entre outras, podem também influenciar o desenvolvimento de Alzheimer, sendo consideradas fatores de risco para a doença. Como não existe medicamento capaz de frear a neurodegeneração progressiva que acontece na doença de Alzheimer, um número cada vez maior de pesquisadores defende que a população deve ser informada sobre formas de prevenir o desenvolvimento da doença, que envolve, por exemplo, bons hábitos de vida, prática regular de atividade física e manter o cérebro sempre ativo.

 

CIÊNCIA HOJE: Poderia falar mais sobre os patógenos e agentes inflamatórios que se relacionam com o desenvolvimento de doenças no futuro? 

JULIA CLARKE: Como qualquer um pode observar, não são todas as infecções que levam ao desenvolvimento de doenças neuropsiquiátricas ou neurodegenerativas na vida adulta. Porém não existe tampouco um ou outro tipo de patógeno conhecido que esteja associado com essas doenças. Ainda são necessários mais estudos para entender o que faz com que um patógeno esteja associado ao desenvolvimento de uma doença neurológica em um caso e, em outro caso semelhante, não. Já foram descritas consequências negativas de infecções por diversos tipos de vírus e bactérias, e é possível que a combinação entre fatores do ambiente seja mais determinante para o resultado final do que cada um dos agentes em separado.

Já foram descritas consequências negativas de infecções por diversos tipos de vírus e bactérias, e é possível que a combinação entre fatores do ambiente seja mais determinante para o resultado final do que cada um dos agentes em separado

CIÊNCIA HOJE: Hoje já é possível pensar em algum tipo de prevenção ou ainda é muito cedo? 

JULIA CLARKE: Ainda é cedo para falar de medicamentos que ajudem a prevenir essas doenças, porque, para cada substância que se prova eficaz em modelos in vitro ou in vivo, ainda são necessárias várias etapas clínicas e pré-clínicas antes que a substância se torne um medicamento e possa ser comercializada.

 

CIÊNCIA HOJE: Saindo um pouco da pesquisa propriamente dita, como vê o papel da mulher na ciência atualmente? Acredita que ainda são grandes os obstáculos? 

JULIA CLARKE: Na área das ciências médicas e biológicas, é bastante grande o número de mulheres fazendo pesquisa, principalmente em estágios mais iniciais da carreira, durante a graduação ou pós-graduação. Infelizmente, conforme avançamos na carreira, existe uma proporção cada vez menor de mulheres com relação aos homens. Eu acredito que, pelo menos em parte, isso seja fruto de preconceito de gênero. Ainda são poucas as oportunidades de financiamento, por exemplo, que levam em consideração o impacto do nascimento de um filho na produtividade da mãe. A licença-maternidade remunerada para as bolsistas de pós-graduação e pós-doutorado é outra conquista muito recente e, ainda assim, poderia ser melhorada. O valor das bolsas de aperfeiçoamento fora do país, para as mães que querem levar os filhos consigo, ainda é muito baixo. Tudo isso é desencorajador para que as mulheres persistam na carreira científica. Acho que precisamos de mais iniciativas desse tipo para permitir que mais mulheres avancem na carreira científica e assumam postos de liderança.

 

CIÊNCIA HOJE: Você é uma pesquisadora jovem e que já está alcançando reconhecimento. Pode falar um pouco sobre sua carreira?

JULIA CLARKE: A minha família teve muita influência na minha decisão de seguir a carreira científica. Meus pais e meu irmão são professores e pesquisadores e sempre foram muito apaixonados pelo seu trabalho. Acho que isso me inspirou. Bem cedo, na graduação, procurei estágio no Instituto de Bioquímica da UFRGS, onde trabalhei com os professores Ivan Izquierdo e Martín Cammarota. Ali me apaixonei de vez pela neurociência e pelo trabalho no laboratório.

 

CIÊNCIA HOJE: É difícil fazer ciência no Brasil atualmente? Você recomendaria essa profissão para um jovem? Gostaria que sua filha fosse cientista?

JULIA CLARKE: É bastante difícil, sim, principalmente com relação a obter financiamento e, especialmente, para os jovens pesquisadores. No Brasil, não se tem uma consciência de que fazer ciência é importante, isso não é visto como uma coisa essencial. Por isso, em momentos de crise, o orçamento destinado a financiar pesquisas acaba quase desaparecendo, como é o caso agora. Além disso, nós dependemos constantemente de importação de equipamentos e reagentes para desenvolver nossas pesquisas. Sofremos muito com trâmites burocráticos para as importações, e os sistemas de entrega também são falhos. Tudo isso atrasa muito a entrega destes insumos, além dos impostos altos que são cobrados. Apesar dessas dificuldades, é uma profissão extremamente gratificante, enxergo como uma forma de melhorar a qualidade de vida da nossa população, pois nosso objetivo é encontrar formas de prevenir ou tratar doenças.

No lado pessoal, é uma profissão onde quase não existe rotina, é necessário ter um conjunto bem diverso de qualidades, que temos possibilidade de desenvolver ao longo da nossa carreira. Outra grande vantagem é a mobilidade que a vida de cientista proporciona, pois estamos constantemente colaborando com pessoas do mundo todo, o que nos permite viajar muito e conhecer outras culturas. Eu acredito que ciência não se faz sozinho no laboratório, pois a pesquisa fica muito mais rica quando existe troca e interação entre pessoas de diferentes grupos e com diferentes expertises. Então também é uma profissão que está acompanhada de muita interação social. Eu gostaria sim que a minha filha fosse cientista, e tento ensiná-la a ver o mundo com olhar de curiosidade, de perguntas, para estimular esse lado nela. Mas não acho que irei influenciar as suas decisões.

Valquiria Daher
Jornalista

Zô Guimarães
Fotógrafo

Matéria publicada em 25.05.2018

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