Ano decisivo para o combate à emergência climática

Jornalista, especial para a Ciência Hoje

Com pesquisa que mostra perda preocupante da capacidade de absorção de carbono pela Floresta Amazônica, cientista climática Luciana Gatti alerta sobre gravidade dos desafios ambientais e defende mais participação da ciência na política para enfrentar a crise climática

CRÉDITO FOTO: SECOM/ INPE/ DIVULGAÇÃO

No auge de uma onda de calor, fenômeno que assola cada vez mais as cidades, a cientista climática Luciana Gatti decidiu pintar de branco o telhado da casa onde mora em São José dos Campos, em São Paulo. As telhas de cimento também foram lavadas depois de anos de acúmulo de lama e poeira. E o quintal, originalmente coberto com cimento, ganhou uma pequena floresta particular de árvores frutíferas. As ações aparentemente simples reduziram significativamente a temperatura na casa, hoje mais fresca e com sombra. E reforçam a importância da questão ambiental na vida da pesquisadora, muito antes de ela se graduar em Química na Universidade de São Paulo (USP) e se tornar uma das maiores especialistas em medidas de alta precisão de gases de efeito estufa, utilizando aviões de pequeno porte. São mais de duas décadas dedicadas ao estudo das mudanças climáticas, com foco em entender o papel da Amazônia na emissão e absorção de gases de efeito estufa e o impacto das variáveis climáticas nesses balanços.
Recentemente, Luciana submeteu à revista britânica Nature um novo artigo baseado em 15 anos de análises de emissões e absorções de gases de efeito estufa na Amazônia. O resultado é perturbador. “A Floresta Amazônica não só não está mais com toda sua capacidade de absorver CO2 como perdeu a condição de uma floresta tropical úmida. Seu modo normal de funcionamento não existe mais”, explica a coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa (LaGEE) e pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Os dados coletados mostram que os anos em que a Amazônia registrou uma boa absorção de CO2 durante a estação chuvosa foram marcados pela presença da La Niña. Sem esse fenômeno climático, o nível de absorção foi reduzido.
“O governo deveria decretar estado de emergência, estabelecendo programas para redução de áreas plantadas de soja e pastagem na Amazônia. Mas o que acontece é o contrário. As áreas de plantação de soja estão em aumento acelerado, assim como esse modelo de uma economia baseada na troca da natureza pela monocultura. E não é por falta de informação ou evidência científica. É negacionismo”, lamenta. Em entrevista à CH, a pesquisadora comenta os debates ocorridos na COP30, em Belém, os desafios ambientais à vista e afirma que 2026 será um ano decisivo para o combate efetivo à emergência climática.

CIÊNCIA HOJE: Meio ambiente foi um tema amplamente discutido em 2025, e um dos maiores destaques foi a realização da COP30, no Brasil. A  visibilidade conquistada conseguiu expor a urgência e a ambição necessárias para enfrentar a crise climática?

LUCIANA GATTI: O grande ganho da COP foi levar a discussão à sociedade. Foi popularizar o que se sabe, os desafios que estão colocados com a crise climática, as consequências de não a enfrentar e de que maneira devemos enfrentá-la. Tudo isso chegou nas pessoas em uma série de eventos pré-COP, a partir dos municípios e em diferentes instâncias, e na própria COP e na quantidade de pavilhões, salas e eventos simultâneos em Belém. A mobilização da sociedade civil foi imensa, e a discussão teve ampla repercussão. Mas não basta. A tarefa que precisava ser feita não aconteceu. Quem tem riqueza e poder continua sem querer abrir mão deles. Enquanto isso, muita gente morre dos efeitos dessa crise. As ondas de calor são um exemplo. Cerca de 500 mil pessoas morrem no mundo por ano em decorrência das ondas de calor. Sofrem com problemas de pressão, AVC, ataques cardíacos intensificados pelas altas temperaturas. O corpo não aguenta. Principalmente idosos, e populações mais vulneráveis, que moram em favelas, em casas que não têm nem forro e absorvem muito calor. Então, houve discussões altamente relevantes e com gente muito capacitada na COP, que são positivas e contam como mobilização e engajamento, mas não suficientes.

No ano passado, submeti meu quarto artigo como primeira autora na revista Nature. Foi nas vésperas da COP30. Meu objetivo foi provar que a ação humana na Amazônia está impactando mais a floresta do que as mudanças climáticas globais

CH: Houve avanços na construção de acordos de preservação? Qual é o efeito prático do anúncio de fundos como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês) na busca por reduzir desmatamento e emissões?

LG: É possível reunir uma quantidade enorme de dinheiro para preservar e restaurar, mas sem parar de desmatar e sem reduzir as emissões, serão décadas até que aquele ambiente devastado se recupere. E o fundo não alcançou todo o sucesso esperado. Além disso, faltam ações para combater a causa dessa emergência. A emissão de CO2, seja de qual país for, significa mais CO2 na atmosfera, e representa aceleração da mudança climática. É frustrante ver o negacionismo que persiste. No ano passado, submeti meu quarto artigo como primeira autora na revista Nature. Foi nas vésperas da COP30. Meu objetivo foi provar que a ação humana na Amazônia está impactando mais a floresta do que as mudanças climáticas globais. Sempre fica esse discurso de que “vamos perder a floresta de qualquer jeito”, “o mundo não vai parar de usar petróleo”, “vamos ganhar dinheiro com a floresta antes que ela acabe”. E minha pesquisa publicada no artigo queria combater essas ideias. Quem mais está impactando na Floresta Amazônica é a ação humana direta na floresta Amazônica.

CH: O estudo abrange a análise de 15 anos de medições de balanço de carbono na Amazônia. Como foi realizada a pesquisa? 

LG: Os dados mostraram que a Amazônia está muito pior do que sabemos. Muito pior. A maior parte dos estudos científicos desse tipo usa métodos indiretos, medindo desmatamento, queimadas, áreas degradadas, e aplica-se uma taxa de emissão e modelagem. Essas taxas são calculadas a partir de dados médios e mais antigos, em função de uma ciência que já tem muitos mais anos. Nós fizemos coletas de amostras e medições diretas, para ver a Amazônia de hoje. A primeira coisa que me chamou muito a atenção foi que, em 2023, a Amazônia teve uma emissão de CO2 muito menor do que a média que conhecíamos e esperávamos. Em 2023 foi quando houve o super El Niño e uma anomalia de temperatura alta no oceano Atlântico Norte. Vivemos a superseca na Amazônia, morreram mais de 200 botos no Lago Tefé. Foi uma catástrofe, com rios secando, e ainda assim a Amazônia fez a maior absorção de carbono que tínhamos medido desde 2010. A estação seca está cada vez mais seca, quente e longa, e as árvores nesse período vão parando de fazer fotossíntese conforme a temperatura vai subindo, para não entrar em colapso. Pensei então que a floresta por estar fazendo cada vez menos fotossíntese na estação seca e pudesse estar aprendendo a fazer mais fotossíntese na ausência de estresse climático. Essa era minha teoria, e ainda não a descartei completamente. As medições de 2024, mostraram que aquele foi um ano recorde de emissões de CO2 pela floresta, desde 2010. Foi um ano em que, na média anual, não houve El Niño, apenas a temperatura alta do Oceano Atlântico Norte (TNA), e a Amazônia quase não teve absorção de CO2 e as emissões de queimadas foram as mais altas dos 15 anos, mas dizer que a culpa é da condição climática, que deixa a floresta mais inflamável, não é verdadeiro. O El Niño ou TNA não taca fogo nas árvores. A quantidade de queimadas criminosas foi absurda no país naquele ano, e a Amazônia pegou fogo, tudo que é lugar pegou fogo como meio usado para desmatar. As árvores da Floresta Amazônica não são iguais às árvores do Cerrado. Não têm aquela casca grossa que as ajuda a sobreviver. As árvores da Amazônia morrem com a queimada. Os criminosos descobriram que bastava atear fogo que sua ação seria potencializada por essa condição climática. As fotos que temos mostram imagens de queimadas quadradinhas no meio da floresta virgem. Então, as emissões daquele ano não aconteceram porque houve um evento climático extraordinário. A catástrofe de 2024 aconteceu porque os grileiros e desmatadores que querem roubar terras públicas usaram fogo como meio de desmatamento, e o clima estava propício para isso.

A Amazônia, tida como o pulmão do mundo, já não tem a mesma capacidade de absorver CO₂

CH: O que sua análise indicou sobre a capacidade de absorção de CO2 da floresta e sobre o temido ponto de não retorno na Amazônia?

LG: A Amazônia, tida como o pulmão do mundo, já não tem a mesma capacidade de absorver CO2. Eu tinha ficado intrigada para entender o que tinha levado à grande absorção de carbono em 2023. Então analisei o balanço mensal de carbono dos últimos 15 anos, a partir das medidas mensais que fazemos (duas coletas com avião por mês em cada um dos quatro locais de estudo). Coloquei no mesmo gráfico os fluxos de CO2 mensais e o índice ONI (El Niño e LaNina) e a anomalia de temperatura do Oceano Atlântico Norte (TNA), e em outro gráfico os fluxos de CO2 e os dados do DETER de desmatamento e área queimada mensal. Neste gráfico observamos que os três anos anteriores a 2023 (2020, 2021 e 2022) tiveram uma ação intensa do fenômeno climático La Niña que traz muita chuva e temperaturas amenas, e ele terminou justamente no início de 2023. Foram anos de grande disponibilidade de água, temperatura amena, fotossíntese a toda. Essa é uma condição de floresta tropical úmida. Foi essa condição que proporcionou a absorção muito intensa da estação chuvosa de 2023. Comprovei que todos os anos em que a Amazônia fez uma boa absorção de CO2 durante a estação chuvosa foram anos de La Niña. Em anos sem esse fenômeno, em anos “normais”, esse nível de absorção não aconteceu. A floresta não só não está mais com toda sua capacidade de absorver CO2 como perdeu a condição de uma floresta tropical úmida em várias regiões da Amazônia. Seu modo normal de funcionamento não existe mais, só em anos extraordinários de La Niña em toda a Amazônia em função do desmatamento. Isso é muito sério. Estamos realmente muito perto do ponto de não retorno. O governo deveria decretar estado de emergência, estabelecendo programas para redução de áreas plantadas de soja e pastagem na Amazônia. Mas o que acontece é o contrário. As áreas de plantação de soja estão em aumento acelerado, assim como esse modelo de uma economia baseada na troca da natureza pela monocultura. E não é por falta de informação ou evidência científica. É negacionismo.

CH: De que forma esse cenário reforça a necessidade de desmatamento zero até 2030, como vários estudos prévios já indicavam?

LG: Em 2030, a Amazônia talvez já tenha chegado ao ponto de não retorno. Fico irritada quando escuto pessoas, inclusive cientistas, falando em 2030. O desmatamento zero precisa ser hoje, já, imediato. E são necessárias outras ações em paralelo, de mudanças de leis e desse modelo destrutivo. É preciso a restauração de áreas degradadas. Fazer a transição energética, que não estamos fazendo. É muito frustrante. Já considerei desistir de fazer o que amo e ir para a loucura do Congresso, pois o que pesquisadores divulgam e alertam, com base em estudos sérios e evidências científicas, não tem sido suficiente para motivar ações efetivas de mudança desse cenário.

Em 2030, a Amazônia talvez já tenha chegado ao ponto de não retorno. Fico irritada quando escuto pessoas, inclusive cientistas, falando em 2030. O desmatamento zero precisa ser hoje, já, imediato

CH: Havia uma expectativa de avanço na COP na discussão sobre o uso de combustíveis fósseis, com um compromisso concreto de transição gradual. O que poderia viabilizar de fato uma transição energética e como deveria se dar esse processo?

LG: O governo brasileiro está caminhando na direção oposta, que é almejar ser o quarto maior produtor de petróleo do mundo, da exploração da foz do Amazonas à expansão petroleira em Santa Catarina. Isso é interesse político, é imoral, um contrassenso. A foz do Amazonas é um ambiente único no planeta, riquíssimo em vida. Nas coletas de amostras de gases atmosféricos e medições que fizemos com aviões na região, constatamos uma absorção gigantesca de carbono. Isso porque justamente há uma quantidade de matéria orgânica enorme que vem do Rio Amazonas e deságua no oceano. Então, a proliferação de fitoplâncton naquela área é imensa, e esse fitoplâncton absorve o CO2. Com a exploração de petróleo, aumentará muito o risco de acidentes com as sondas. As correntes marinhas são intensas no local. Enquanto isso, na COP, as propostas efetivas do Brasil para uma saída do petróleo foram inexistentes. Quem tomou iniciativa nesse tema foi a Colômbia, pois, até então, não estava saindo nada sobre o assunto, nenhuma linha. Foi a Colômbia que anunciou a realização de uma nova conferência em 2026 para discutir a saída dos combustíveis fósseis. O Brasil, infelizmente, vai no caminho contrário, aumentando a produção de petróleo como estratégia de gerar riqueza, assim como o (presidente dos Estados Unidos Donald) Trump faz. Em 2023, nos “Diálogos Amazônicos” (evento prévio à COP em Belém), houve uma proposta de assinatura de acordo de não exploração de petróleo na Amazônia, e o Brasil foi contra. Hoje, veja só, estamos falando de margem equatorial. A ciência não pode ser burlada para defender coisas equivocadas. É preciso falar claramente do que os dados mostram: a Amazônia está sofrendo mudanças gigantescas em seu funcionamento. O desmatamento leva a menos chuvas, a temperaturas mais altas, a mais emissões de carbono e a mais eventos extremos no Brasil. 

É necessária uma grande bancada da ciência, pois o negacionismo tomou conta do Congresso Nacional

CH: Como a pesquisa e as informações baseadas em evidências científicas podem influenciar nessa crise? E como aproximar essa produção de conhecimento dos tomadores de decisões na seara política?

LG: Ainda não temos uma resposta para isso. É necessária uma grande bancada da ciência, pois o negacionismo tomou conta do Congresso Nacional. A ministra Marina Silva tem resistido bravamente entre tanto negacionismo, mas está numa pasta desempoderada pela estrutura ministerial do governo. Quando vemos as ações do Ministério da Agricultura e do Ministério das Minas e Energia, são indefensáveis. Permitem desmatamento, mineração, secam rios, levam à morte de indígenas, quilombolas. Inauguram uma termelétrica atrás da outra, querem privatizar produção de biodiesel, enquanto falam de transição energética. Parece que ninguém aprendeu nada com Belo Monte. E agora o cenário é cada vez mais crítico. Contribuí recentemente numa nota técnica anexada a um processo no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a lei do licenciamento ambiental na qual mostro, com dados científicos, como ela será devastadora. Vai acelerar mortes e enormes desastres climáticos no Brasil. O que os políticos votaram foi isso, decidiram a morte de muita gente, a começar pelas pessoas mais pobres e vulneráveis.

CH: Como vislumbra 2026 em termos de expectativas por compromissos e ações mais efetivas contra a crise climática? O que esperar de maior consenso na próxima COP, na Turquia?

LG: As COPs precisam avançar em negociações que levem a ações efetivas. Senão, a chance de qualquer consenso na Turquia será nula. O maior desafio é mudar o cenário de poder. Pensando no Brasil, é no Congresso Nacional que está o maior foco de ações que podem levar o Brasil ao caos. Então, as pessoas precisam entender a importância de haver medidas para combater as mudanças climáticas, que, no fim, são para preservar a vida da população. Não dá para votar em políticos negacionistas. Não dá para apoiar quem quer desmatar tudo. Hoje, até o topo das montanhas é desmatado. Fora da Amazônia, é permitido desmatar até 80% de vegetação nativa em campos gerais. Essa lei tem de ser mudada. É preciso preservar os baixios e os topos das montanhas, as matas ciliares dos rios, onde tem nascentes, etc. É preciso preservar muito mais. E este ano tem de ser decisivo para ações que levem a isso.

As COPs precisam avançar em negociações que levem a ações efetivas. Senão, a chance de qualquer consenso na Turquia será nula. O maior desafio é mudar o cenário de poder

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