Por que regiões tropicais têm mais espécies de seres vivos?

Departamento de Ecologia
Universidade de São Paulo

CRÉDITO: FOTO ADOBE STOCK

A resposta não é simples e envolve um conjunto de fatores, bióticos e abióticos, que interagem. Literalmente, esta é uma longa história. O biogeógrafo franco-italiano León Croizat (1894-1982) sintetizou assim: “a Terra e a vida evoluem juntas”. 

Para entender melhor, precisamos voltar e pensar nas razões ou nos eventos que governam a presença de uma dada espécie numa dada região ou área. Uma dada espécie pode estar ali: 1) porque surgiu ali; ou 2) porque se dispersou até ali (tendo surgido em outra região); 3) porque permanece ali, ou seja, ela ou seus ancestrais não foram extintos naquela área. Assim, a história evolutiva das linhagens e das áreas interagem para definir quantas e quais espécies surgem, atingem e permanecem em cada parte do planeta. Como estamos falando de história da Terra e das linhagens, o número de espécies numa dada região é como uma fotografia de algo que é dinâmico, que se modifica atualmente e se modificou ao longo das longas escalas do tempo geológico. 

A posição atual dos continentes na Linha do Equador gera um clima mais quente, uma maior taxa de precipitação. Mais chuva e calor resultam em mais recursos, mais alimento, mais energia circulante. Essa posição longe dos polos gerou também relativa estabilidade das zonas tropicais (relativamente imunes a eventos recentes de mudanças climáticas naturais, durante ciclos passados de glaciação) e favoreceu a presença de mais espécies perto dos trópicos.  Aliado a isso, essa maior estabilidade favoreceu que as linhagens tropicais permaneçam e se diversifiquem por mais tempo. 

Outro ponto importante é a heterogeneidade geográfica, especialmente aquela relacionada à topografia (serras, vales, planaltos, montanhas, planícies) – regiões tropicais com mais complexidade topográfica favorecem uma maior diversidade de ambientes, e mais diversidade de espécies. Isso tudo pensando em termos gerais, em padrões para grandes conjuntos da biota, porque cada linhagem pode responder de diferentes maneiras, e uma regra biogeográfica pode valer para um conjunto grande de grupos, mas nunca para todos os grupos de fauna e flora. Uma biota típica de regiões frias, ou sazonais, responderá de modo diferente de linhagens típicas de florestas úmidas, ou de zonas áridas, por exemplo. 

Por fim, o tamanho das áreas também é fator limitante. Áreas muito pequenas, ou que no passado estiveram muito reduzidas, podem abrigar biotas mais pobres, porque quanto menor a distribuição de uma dada linhagem ou de seus ambientes, mais propensa estará a processos de extinção. No continente sul-americano, por exemplo, a região tropical é dominante em termos de área, e isso também leva a maior riqueza de espécies. Aliado a isso, há ainda a cadeia de montanhas dos Andes, que adiciona diversidade topográfica e climática ao longo de toda a costa oeste do continente, e está em contato com uma gama imensa de regiões naturais mais baixas e diversas (Amazônia, Chaco, Savanas sazonais, dentre outras). Por tudo isso, temos aqui níveis muito elevados de riqueza de espécies, em diferentes grupos da fauna e flora. 

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