A Capitã Marvel e as mulheres cientistas

Primeira super-heroína a protagonizar um filme do estúdio, personagem não repete clichês de outras personagens superpoderosas no cinema e enfatiza a força feminina em áreas antes exclusivamente masculinas.

Muitas meninas pensam em ser representadas por uma heroína.Pensam em ter superpoderes, como habilidade para voar, em vez de usar um vestido de princesa e morar num castelo. Para todas essas garotas de ontem e hoje, a Marvel lançou seu primeiro filme com uma protagonista feminina: Capitã Marvel. Até então, os filmes derivados dos quadrinhos da editora só tinham heroínas em papéis de coadjuvantes, como a Viúva Negra e a Feiticeira Escarlate.

Nascida dos quadrinhos como Miss Marvel nos anos 1970, a personagem surgiu em meio à ebulição do movimento feminista, mas só em 2012 ganhou a patente de capitã. Sua chegada à telona era aguardada com ansiedade, principalmente depois que a rival, DC Comics, saiu na frente e, em 2017, lançou Mulher Maravilha.

A espera valeu a pena. Logo de início, já percebemos por que a Capitã Marvel é diferente de outras heroínas: nada de roupas que tratam os corpos femininos como objetos, como trajes colantes, biquínis etc. Carol Danvers – nome da Capitã Marvel – usa jeans rasgado, camiseta branca, jaqueta de couro. Os cabelos são despenteados, e os lábios não levam batom. Ou seja: o figurino já é uma afirmação de que somos bem mais do que um amontoado de curvas. Mesmo antes de ganhar seus superpoderes, ela encarava atividades consideradas masculinas, como se alistar em uma organização militar e gostar de carros velozes.

E o empoderamento feminino não se limita à personagem-título. Outro exemplo é a doutora Mar-Vell, que mostra o potencial da mulher cientista no universo Marvel – aliás, vale destacar que, nos quadrinhos, Mar-Vell era homem. Claro, não é a primeira vez que vemos nos filmes de super-heróis uma mulher como representante da ciência. Em Thor (2011) e Thor: O mundo sombrio (2013), vimos a astrofísica Jane Foster – que, na HQ, era enfermeira. Em Pantera Negra, a jovem princesa Shurié a responsável pela criação e pelo desenvolvimento das diversas e avançadas tecnologias do reino fictício de Wakanda, localizado no continente africano.

Assim como em Pantera, Capitã Marvel também chama a atenção para a importância da representatividade feminina e negra no meio científico, por meio da personagem Monica Rambeau, que entra em contato com a ciência desde a infância inspirada pelo trabalho da mãe, a piloto Maria Rambeau, melhor amiga da Capitã. Maria, aliás, é a representação da mãe-solteira que sustenta a casa, cria seus filhos sozinha e encara o mercado de trabalho.

A representação de cientistas mulheres em filmes populares como os do universo Marvel importa e muito, pois suas colegas da vida real não costumam ser muito (re)conhecidas. Primeira mulher a ganhar um Nobel e a única pessoa a conquistar o prêmio em duas áreas diferentes (Física e Química), a polonesa Marie Curie (1867-1934) talvez seja a mais lembrada. No Brasil, Berta Lutz (1894 -1976), que se destacou como bióloga no estudo de anfíbios e por engajamento político em prol das mulheres, também é constantemente citada.

 

Da ficção para a realidade

Em muitos cursos de áreas científicas, ainda vemos uma quantidade desproporcional de homens em relação a mulheres. Por isso mesmo, diferentes setores da sociedade – inclusive a indústria do entretenimento – também precisam se engajar nessa causa. Felizmente, iniciativas de educação científica, de diferentes áreas e órgãos, estão fazendo a sua parte e contribuindo significativamente com esse movimento.

Em 2018, por exemplo,o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), junto ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), estimulou a aproximação das escolas públicas da educação básica com as instituições de ensino superior por meio do projeto ‘Meninas nas Ciências Exatas, Engenharias e Computação’, com o objetivo de incentivar a presença feminina nessas áreas ainda muito dominadas por homens. Há ainda muitas outras ações voltadas àsmeninas, desenvolvidas em universidades, museus e instituições de pesquisa de todo o Brasil, com o intuito de fortalecer a participação das mulheres na ciência.

Em outra vertente, há iniciativas para promover o reconhecimento das mulheres cientistas. A principal delas é o programa ‘Para Mulheres na Ciência’, realizado desde 2006 pela L’Oréal Brasil, em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e a Academia Brasileira de Ciências. Todo ano, o programa premia pesquisadoras das mais diversas áreas por seu trabalho científico.

Olhando para trás, não há como contabilizar quantos trabalhos e descobertas científicas foram feitos por mulheres, já que, para trabalhar na área, muitas pesquisadoras aderiram a nomes masculinos ou deixaram seus maridos levarem os créditos por seus esforços. Esse tempo ficou para trás e não há retrocesso que o faça voltar. Esperamos que, com as crescentes iniciativas de educação e divulgação científicas voltadas às mulheres, as muitas barreiras que ainda prejudicam a participação feminina na ciência sejam derrubadas com a força de uma Capitã Marvel.

Aline Nery

Laboratório de Linguagens e Mediações, Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde
Museu Itinerante Ciências Móvel, Museu da Vida, Fundação Oswaldo Cruz
Espaço Ciência Viva

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