Editor do blogue Ciência Nerd
Universidade Federal de Juiz de Fora

Muito além dos filmes de terror, animais infectados com microrganismos parasitas podem perder o controle de seu corpo e viver escravizados e sem vontade própria

FOTOS: ADOBE STOCK

Os filmes de zumbis se consolidaram como um subgênero cinematográfico, dentro do gênero de terror, no final da década de 1960, com o lançamento de A noite dos mortos-vivos (1968), do cineasta norte-americano George Romero (1940-2017).

O sucesso foi tão grande que a fórmula vem sendo repetida até os dias de hoje. Nesse período, surgiram filmes com diferentes explicações para a origem dos zumbis (desde as mais mágicas e esotéricas até as mais científicas e tecnológicas). Também foram variadas as características físicas atribuídas a esses seres (uns são mais lentos e estúpidos, outros são mais rápidos e espertos). 

Mas o que parece ser uma constante é que o zumbi representa um ser escravizado, um indivíduo sem qualquer vontade própria. Um ser morto, mas encarcerado em um corpo animado, que existe com a única finalidade de se alimentar e se reproduzir. 

Você pode achar que não há nada no mundo real que se assemelhe a essa descrição. Mas a verdade é que seres zumbis podem ser muito mais reais do que você imagina.

Formiga-zumbi

Se uma formiga está caminhando e pisa em um esporo de um fungo, seus dias podem estar contados. Descoberto pelo naturalista britânico Alfred Russel Wallace (1823-1913), o fungo Ophiocordyceps unilateralis é conhecido por transformar formigas em verdadeiros zumbis.

Formiga morta pelo fungo Ophiocordyceps

Ao entrar em contato com a formiga, o esporo do fungo invade seu organismo e se multiplica em várias novas células, que se alimentarão do inseto sem causar sua morte. Durante uma ou duas semanas, a formiga segue exercendo suas funções no ninho, embora apresentando movimento trêmulo e errático, escalando e caindo de arbustos, devido a convulsões, como descrevem pesquisas científicas.

Em certo momento, as células do fungo se comunicam quimicamente com o cérebro da formiga, obrigando-a a subir em uma planta e morder firmemente uma folha. Em seguida, o parasita termina de matar sua hospedeira e coloniza seu corpo completamente. Depois de alguns dias, o fungo faz brotar da cabeça da formiga uma estrutura denominada ascocarpo (que popularmente chamamos de cogumelo). Essa estrutura irá produzir e liberar novos esporos, transformando o solo em um campo minado para novas formigas. 

Como relatam pesquisadores, em algumas áreas, é possível encontrar mais de 26 cadáveres de formigas por metro quadrado. Nesses cemitérios, a maior parte das formigas mortas está a 25 centímetros de altura do chão, em locais onde a temperatura e a umidade favorecem a produção e dispersão dos esporos.

Nos últimos anos, o Ophiocordyceps ficou ainda mais famoso graças à franquia de jogos The last of us. No game, que se passa em um mundo pós-apocalíptico, existe um fungo capaz de infectar uma pessoa e, depois de certo tempo, atingir seu cérebro. Diferentemente do que acontece com as formigas, o fungo do jogo realmente assume o controle do cérebro do indivíduo, deteriorando sua racionalidade, seus sentidos e até sua forma física.

Caracol-zumbi e sua fantasia de lagarta

Se um dia você encontrar um caracol com as duas antenas maiores bem mais espessas e coloridas do que geralmente são, é bem provável que esse molusco esteja sendo parasitado por um platelminto chamado Leucochloridium paradoxum

Quando o caracol ingere as fezes de um pássaro infectado, os ovos do verme eclodem dentro dele. As larvas, então, se desenvolvem até o estágio de esporocisto e se dirigem para a antena do animal (também chamada de tentáculo ocular). O esporocisto é uma estrutura que se assemelha a uma bolsa longa e inchada que produz esporos em seu interior. Desse modo, a antena do caracol, que geralmente é fina e de uma cor discreta, dá lugar a uma bolsa comprida, espessa, com faixas coloridas e que pulsam, pelo movimento das larvas que a habitam. 

Essa transformação parece ser um caso de mimetismo agressivo, no qual o parasita faz com que o caracol se assemelhe a uma lagarta ou animal similar. Pesquisas mostram que o golpe final do Leucochloridium é exercer uma espécie de controle mental sobre o caracol e levá-lo a se posicionar em uma região bem iluminada e aberta (algo que o molusco jamais faria espontaneamente). Por se assemelhar a uma lagarta, o caracol vira presa fácil de um pássaro, que é o hospedeiro definitivo do platelminto e onde ele poderá concluir seu ciclo reprodutivo e iniciar novamente o pesadelo dos caracóis.

Caracol infectado pelo platelminto Leucochloridium

Gafanhoto kamikaze

Se um grilo ou gafanhoto ingerir um inseto infectado com larvas do verme Paragordius tricuspidatus, ele servirá de hospedeiro temporário para esse verme. Nesses artrópodes, o P. tricuspidatus se desenvolverá até seu último estágio, que precisa ocorrer na água. 

Para alcançar a água, o parasita exerce um controle sobre o gafanhoto, fazendo-o buscar e saltar na água, sem pensar duas vezes. O gafanhoto se afoga e o verme, finalmente, consegue se libertar do antigo hospedeiro e se reproduzir.

Parasita silencioso

Uma das zoonoses mais comuns em todo o mundo é a toxoplasmose. Essa doença é causada pelo protozoário Toxoplasma gondii, que tem como hospedeiros definitivos os gatos e outros felinos, mas pode infectar outros animais, incluindo o ser humano, por meio da ingestão de alimentos e água contaminados. A toxoplasmose também pode ser transmitida da mãe para o feto através da placenta. 

Estima-se que mais da metade da população brasileira possua a doença, que pode permanecer assintomática por toda a vida do indivíduo. Os que mais sofrem com ela são as pessoas com baixa imunidade, as que passam por tratamento quimioterápico contra o câncer, as recém-transplantadas e as gestantes. Nos casos mais graves, a toxoplasmose pode provocar lesões oculares, microcefalia, hidrocefalia, alterações motoras, entre outros sintomas.

Existe uma curiosa relação entre esse protozoário e o cérebro. Na Universidade de Oxford (Reino Unido), pesquisadores descobriram que ratos infectados pelo microrganismo perdem o medo do odor de gatos e podem até se sentir atraídos por um feromônio (hormônio associado à sexualidade) presente na urina dos felinos. Com isso, os ratos se expõem mais a esses predadores e, por consequência, são mais facilmente predados. Graças a essa manipulação cerebral, o rato serve de veículo para que o Toxoplasma chegue a seu hospedeiro definitivo. 

Além de zumbificar os ratos, há fortes evidências de que esse protozoário provoque alterações mentais em seres humanos. Nas últimas décadas, muitas pesquisas vêm mostrando que a toxoplasmose pode ser um importante fator de risco para algumas doenças psiquiátricas, como a esquizofrenia, a bipolaridade, a doença de Alzheimer, a depressão, a epilepsia, entre outras. Por se tratarem de doenças multifatoriais, é difícil dizer o real papel da toxoplasmose no desenvolvimento delas. Mas só o fato de haver correlação entre essas enfermidades e a presença do Toxoplasma já é um grande alerta vermelho e um indicativo de que precisamos de mais pesquisas na área.

Apocalipse zumbi?

Por sermos uma espécie bastante complexa, é muito difícil que um microrganismo seja capaz de assumir o controle do nosso corpo e nos forçar a agir de maneiras estranhas e que facilitem o desenvolvimento e a reprodução desse parasita. Mas seres capazes de causar danos ao nosso cérebro (e provocar alterações importantes no nosso comportamento e até na personalidade) não são nada fictícios. 

Por isso, recomendo sempre a leitura do texto ‘Será que a humanidade sobreviveria a um apocalipse zumbi?’, publicado na edição 349 da Ciência Hoje. Lá, você terá uma ideia de como a humanidade poderia se preparar no caso de esse apocalipse acontecer.

“A Terra é um organismo vivo”. Essa foi uma das

contribuições teóricas e filosóficas do geólogo escocês

James Hutton (1726-1797) sobre a dinâmica geológica

do planeta. Seu foco estava nos processos.

“A Terra é um organismo vivo”. Essa foi uma das contribuições teóricas e filosóficas do geólogo escocês James Hutton (1726-1797) sobre a dinâmica geológica do planeta. Seu foco estava nos processos, fluxos e na transformação da matéria que modela a superfície terrestre ao longo do tempo geológico – processos e fluxos que permanecem ativos desde a formação do planeta até hoje.

ALLCHIN, D. To err and win a Nobel Prize: Paul Boyer, ATP synthase and the emergence of bioenergetics. Journal of the History of Biology, 35:149–172 (2002).

DE MEIS, L. How enzymes handle the energy derived from the cleavage of high-energy phosphate compounds. Journal of Biological Chemistry, 287:16987-17005 (2012).

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