Líder científica de plataforma pioneira da Fiocruz explica como a tecnologia, em desenvolvimento no Brasil, tem potencial para, no futuro, enfrentar diferentes patógenos e doenças, inclusive o câncer
Líder científica de plataforma pioneira da Fiocruz explica como a tecnologia, em desenvolvimento no Brasil, tem potencial para, no futuro, enfrentar diferentes patógenos e doenças, inclusive o câncer
CRÉDITO: DIVULGAÇÃO/ANDRÉ ROCHA/ASCOM BIO-MANGUINHOS

Em 2021, em meio à emergência de covid-19, a Fiocruz e seu braço de produção de vacinas, kits de diagnósticos e biofármacos, Bio-Manguinhos, foram escolhidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para centralizar o desenvolvimento e a produção para países de baixa e média renda de uma tecnologia promissora: vacinas feitas de RNA mensageiro (mRNA). Foi essa tecnologia que permitiu a produção de vacinas em tempo recorde na pandemia e rendeu um prêmio Nobel de Medicina à bioquímica húngara Katalin Karikó e ao imunologista estadunidense Drew Weissman pelas descobertas no tema. A tecnologia usa justamente a capacidade do RNA mensageiro de traduzir informações genéticas para ensinar o organismo a reconhecer proteínas de patógenos e agentes infecciosos e a desenvolver resposta imunológica contra eles.
O Brasil está perto de usar uma plataforma (uma base tecnológica) 100% nacional baseada nesse mecanismo. Líder da implantação da Plataforma de RNA da Fiocruz, a imunologista Patrícia Neves explica que a pesquisa na instituição começou com uma vacina de mRNA que tem se mostrado eficaz para combater a covid-19. Mas os estudos prometem ir muito além: a formulação da equipe brasileira é, na verdade, de uma estrutura sintética de mRNA, envolto por uma pequena capa de gordura, que pode ser adaptado a diferentes patógenos. Na prática, essa mesma formulação, com diferentes mensagens, poderia ser usada para tratamento de várias doenças ainda mais desafiadoras, como o câncer. “A potencialidade de uso é imensa. A tecnologia de RNA mensageiro se provou com as vacinas, mas essa é só a ponta do iceberg. Ela tem potencial gigantesco no tratamento de várias doenças”, afirma a pesquisadora. A equipe acaba de receber autorização da Anvisa para dar início aos testes clínicos, que devem começar no início de 2027. Até lá, o estudo ainda deverá ser aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa.
CIÊNCIA HOJE: No ano passado, a Fiocruz depositou a primeira patente da sua plataforma para vacinas de RNA mensageiro. Em que consiste essa plataforma, e em qual fase de domínio da tecnologia ela está hoje?
PATRICIA NEVES: Os produtos baseados em RNA mensageiro ficaram mais conhecidos por causa das vacinas contra covid-19 produzidas pela Pfizer e pela Moderna com essa tecnologia. A molécula de RNA mensageiro, como o próprio nome diz, leva uma mensagem. Ela carrega as informações genéticas para fabricação de proteínas necessárias ao funcionamento do nosso corpo. E essa molécula de RNA fica dentro de uma gotinha de gordura. Para dar uma imagem mais concreta, é como se o RNA fosse um recheio de empada, e a gotinha de gordura fosse a capa dessa empada. Na tecnologia de vacinas com RNA mensageiro, a capa da empada permanece quase sempre igual. O que muda é o que está dentro, o “recheio”, ou a mensagem. Se é uma vacina contra covid, terá uma informação genética do antígeno da covid. Se é um tratamento de reposição de alguma proteína no organismo, terá as instruções daquela proteína. O uso do nome “plataforma” indica que o que está fora não muda, o que muda é a mensagem. No Brasil, já sabemos como fabricar essa “empada” em larga escala. Sabemos desenhar a “capa” e o “recheio”, o que nos permite estar muito mais preparados para responder a novas emergências. A patente que depositamos é da fórmula da nanopartícula lipídica que envolve o “recheio” em conjunto com o RNA, que tem uma estrutura determinada ligeiramente diferente das que estão em uso pela Moderna e pela Pfizer. Nossa expectativa é que possamos usar livremente nossa receita para fazer nossos próprios produtos. Nosso produto mais avançado é uma vacina de RNA mensageiro contra a covid. Foi nossa prova de conceito, já sabemos como funciona. Precisamos agora comparar o estudo clínico dessa vacina com as vacinas já em uso. Já passamos pelo estágio de ensaio com animais pequenos, comprovando a eficácia de proteção contra a doença e que o produto desenvolve a resposta imunológica esperada. Passamos também por estudos toxicológicos e pelos estudos de escalonamento, chegando a uma escala suficiente de produção para os estudos clínicos. Ficamos muito felizes com a autorização da Anvisa para o início do estudo clínico da nossa vacina RNAm Covid-19. Isso comprova que conseguimos alcançar o domínio dessa tecnologia que estava na mão de poucos fabricantes, principalmente no Norte Global, além de posicionar o Brasil como um ator importante na área de biotecnologia.
Ficamos muito felizes com a autorização da Anvisa para o início do estudo clínico da nossa vacina RNAm Covid-19. Isso comprova que conseguimos alcançar o domínio dessa tecnologia que estava na mão de poucos fabricantes, principalmente no Norte Global, além de posicionar o Brasil como um ator importante na área de biotecnologia
CH: Por que a tecnologia de mRNA se mostra como uma revolução promissora na imunologia e na pesquisa e no que se difere das tecnologias tradicionais?
PN: O primeiro ponto é a velocidade com que conseguimos desenvolver as vacinas pela plataforma. Além disso, diferentemente de tecnologias como as de vacinas de vírus atenuados, de primeira geração, não há produção de vírus vivo em grande quantidade. O RNA mensageiro leva uma mensagem com instruções genéticas que ensina as células a fabricarem parte de uma proteína do patógeno em questão. O sistema imunológico reconhece a novidade como uma ameaça e cria uma memória de defesa. Não há reestruturação nem integração no DNA do paciente. Com o depósito da nossa patente e após a liberação de operação da plataforma, poderemos desenvolver diferentes produtos, inclusive dando ênfase a doenças que normalmente não despertam interesse das empresas. Temos no nosso portfolio, por exemplo, o desenvolvimento de uma vacina contra a leishmaniose, que é uma doença negligenciada de populações carentes. Então, essa tecnologia é também uma questão de soberania. Dominá-la possibilita chegar a produtos 100% nacionais com custo mais baixo para incorporação no Sistema Único de Saúde (SUS), e isso se traduz em acesso da população a tratamentos que hoje são muito caros. Dá ao Brasil a possibilidade de atacar doenças que são problemas nossos. A potencialidade de uso é imensa. A tecnologia de RNA mensageiro se provou com as vacinas, mas essa é só a ponta do iceberg. Ela tem potencial gigantesco no tratamento de várias doenças.
CH: Como isso poderia ser feito, quais seriam algumas dessas aplicações da plataforma de mRNA para produção de outros fármacos/tratamentos baseados nessa tecnologia?
PN: Os primeiros artigos demonstrando que o RNA poderia ser usado como uma molécula para produzir novos tratamentos na biotecnologia são do início dos anos 1990. São 30 anos de pesquisa até que essa tecnologia chegasse aonde chegou para nos ajudar na pandemia. Não é algo que surgiu ontem. E ela foi amplamente estudada em humanos, para tratamento de tumores, antes de ser utilizada para covid. A aplicação é variada pela natureza do RNA mensageiro, pela possibilidade de colocarmos nele a informação genética do patógeno ou de uma proteína desejada, no caso de reposição de uma proteína faltante em algum tecido do corpo. Temos um projeto de desenvolvimento de vacinas terapêuticas para tratamento de câncer, por exemplo. Isso inclui o desenvolvimento de uma tecnologia CAR-T in vivo: ela permite pegar os linfócitos T, responsáveis por combater as células tumorais, e “engenheirá-los” fora do organismo. Hoje, aplica-se geralmente uma tecnologia ex vivo: isolamos os linfócitos T do paciente doente e os modificamos fora do corpo, num procedimento de alta complexidade. É preciso tirar células de cada indivíduo, manipulá-las fora do organismo, numa série de cuidados e controle de qualidade, e devolvê-las para que o organismo consiga passar a responder contra o tumor. É similar à vacina só que, nesse caso, em vez de dar o antígeno, trabalhamos com os linfócitos T modificados e devolvemos essas células já preparadas para eliminar o tumor. O tratamento mais evoluído hoje nesse sentido é para pacientes com tumores sanguíneos, como linfomas ou mielomas. Qual é a diferença com o uso do RNA mensageiro? Usamos um pequeno frasco contendo o RNA com a mensagem que transforma as células de defesa, e a nanopartícula lipídica direcionada aos linfócitos T. O conteúdo é injetado via endovenosa no paciente, e essa nanopartícula terá um tropismo, como chamamos, uma atração pelas células T. Quando ela as encontrar, vai liberar o RNA dentro da célula T, fazendo dentro do organismo um processo hoje feito fora dele. Isso diminui demais a complexidade e o custo do processo. Já existem trabalhos na literatura mostrando que é possível, que funciona, e temos um acordo de cooperação com outras empresas brasileiras para desenvolver essa tecnologia. São muitas possibilidades.
A tecnologia de RNA mensageiro se provou com as vacinas, mas essa é só a ponta do iceberg. Ela tem potencial gigantesco no tratamento de várias doenças
CH: No caso do câncer, seria para prevenção ou tratamento? Como as terapias de câncer com a tecnologia de RNA mensageiro reconhecem as células tumorais?
PN: O termo vacina pode confundir, parece que vamos desenvolver uma vacina para prevenir o câncer, mas são vacinas terapêuticas para tratamento do câncer. Essa é uma doença que causa imunossupressão, quer dizer, que produz substâncias que fazem com que nosso sistema imunológico pare de responder contra ela. É uma defesa do tumor para que o sistema imunológico não o reconheça e não ataque as células tumorais. O que fazemos é identificar quais proteínas são próprias do tumor e são diferentes das proteínas que estão em outras partes do corpo, e as colocamos numa vacina. Assim ensinamos novamente o nosso corpo a responder contra o tumor. Esse é o objetivo da vacina terapêutica. Não é ensinar o corpo antes de o tumor aparecer, porque não sabemos quais proteínas serão diferentes nele. Mas a partir de um tumor existente conseguimos identificar as proteínas diferentes e desenvolver um processo de vacinação no qual as células do sistema imunológico do paciente voltam a responder para eliminar o tumor. Revertemos essa ação do tumor de escapar da resposta imunológica. Esse é o conceito e é feito normalmente junto com uma terapia já consagrada, com anticorpos monoclonais, que agem também diminuindo essa redução da resposta do sistema imunológico do paciente.
CH: Será possível desenvolver na plataforma um tipo de vacina sob medida para um paciente oncológico, como é o caso das vacinas de RNA mensageiro de neoantígenos?
PN: Certamente. Uma das vertentes da vacina terapêutica é a de neoantígenos, que é totalmente personalizada. O que se faz é pegar o tumor do paciente e identificar os neoantígenos, chamados neo porque surgem a partir de mutações que acontecem no desenvolvimento do tumor. A partir da identificação dessas sequências de mutações fazemos as sequências de RNA. É uma estratégia sob medida, mas que torna mais difícil a adoção dela no SUS. Porém, temos algumas alternativas. Temos proteínas chamadas “antígenos associados ao tumor”, que se expressam de forma alterada no ambiente tumoral. Não são antígenos novos, não surgiram a partir de uma mutação. Mas são marcadores importantes. Temos na Fiocruz um projeto de identificação de antígenos de testículos. São proteínas que só se expressam nos testículos numa determinada situação, e não em outros tecidos do corpo, e no tumor se expressam de forma aberrante. Neste caso, seria possível produzir uma vacina mais universal: identificamos o conjunto de proteínas que já sabemos que se expressam de forma alterada no tipo de tumor determinado e chegamos a um tratamento mais barato e acessível para o SUS. Não seria uma terapia exatamente personalizada, porém teria uma aplicação mais ampla.
O termo vacina pode confundir, parece que vamos desenvolver uma vacina para prevenir o câncer, mas são vacinas terapêuticas para tratamento do câncer
CH: Isso ajudaria num dos grandes desafios de combate ao câncer, uma doença heterogênea com uma variabilidade de casos e desfechos?
PN: Em 2025, foi publicado um artigo sobre o sucesso dessa terapia para tratamento de câncer de pâncreas, que é muito difícil de ser tratado. Recentemente, saiu também um resultado de fase 1 que já demonstrou bons resultados para tratamento de câncer de mama triplo negativo, um tumor complicado e com poucas opções terapêuticas. Já temos muitas abordagens promissoras na literatura usando o RNA e, com certeza, ainda vamos nos deparar muito com isso no futuro. São também terapias usadas com outros tratamentos já conhecidos na oncologia. Afinal, o câncer é uma doença complexa. Mesmo dentro de um mesmo tumor existe uma heterogeneidade de células que o acompanham. Há tratamentos com medicamentos sintéticos que são alvo-dirigidos a uma determinada mutação, algumas células daquele tumor escapam, e formam uma variante do próprio tumor, resistente àquele tratamento. Por isso, para câncer, falamos sempre de uma combinação de tratamentos. As vacinas terapêuticas são mais uma ferramenta que podemos usar e que têm mudado a história natural do tratamento de câncer.
CH: Existe prazo definido para que a plataforma da Fiocruz conclua os projetos voltados às aplicações oncológicas?
PN: O que mais leva tempo nas aplicações terapêuticas são os estudos clínicos. Com os estudos de vacinas o processo é mais rápido, já temos condição hoje de produzir vacinas com RNA mensageiro em escala, e essa etapa do desenvolvimento não é um limitante. No caso das vacinas terapêuticas, ainda estamos em um estágio pré-clínico, quer dizer, identificamos os antígenos com os quais vamos trabalhar e vamos iniciar os ensaios em animais. Ainda vão levar pelo menos de uns sete a 10 anos para uso clínico. Mesmo fora do Brasil, há muitos estudos clínicos em curso, mas nada aprovado ainda para uso rotineiro. Há etapas que não podem ser puladas, e o estudo clínico é uma delas. É preciso antes provar que o produto funciona.
Já temos muitas abordagens promissoras na literatura usando o RNA e, com certeza, ainda vamos nos deparar muito com isso no futuro. São também terapias usadas com outros tratamentos já conhecidos na oncologia. Afinal, o câncer é uma doença complexa
CH: Uma vez que se obtenha aprovação, quanto tempo se leva, em média, entre a identificação do patógeno e a produção de um candidato à terapia ou à vacina? Inclusive pensando num cenário de novas emergências sanitárias?
PN: Tendo esse conhecimento, a produção é potencialmente rápida. Em até seis meses seria possível obter lotes para teste. Recentemente conversei com um grupo de especialistas em vacinas sobre a emergência do ebola na África. Existe uma iniciativa do CEPI (Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias) para desenvolvimento de uma vacina em cem dias. Não é um imunizante de RNA mensageiro, mas a primeira vacina que entrou em estudo tem pouco mais de 60 dias, com protocolo da vacina Oxford contra a covid, que conhecemos bem no Brasil. Em pouco mais de dois meses produziram um lote que está entrando em estudo clínico fase 1. Hoje o processo é muito mais rápido do que foi na época da pandemia.
CH: O projeto da plataforma da Fiocruz tem o apoio da OMS, num esforço amplo de resposta a novas emergências. O que traz mais desafios numa iniciativa como essa, o desenvolvimento científico em si ou vencer resistências num mundo que lida com ameaças de movimentos antivacina e com a desinformação?
PN: No ponto que alcançamos, a ciência é o menos complicado. Existe a desinformação, existe a burocracia, a demora para importar material, o tempo de espera. Às vezes, lidar com falta de financiamento também. O desenvolvimento de tratamentos, por exemplo, demanda quantidade razoável de recursos. São pontos mais complicados do dia a dia do que a ciência propriamente dita. Superar os problemas científicos é o nosso trabalho, é o que gostamos de fazer. Mas lidar com essas questões é bem mais complicado.
Há etapas que não podem ser puladas, e o estudo clínico é uma delas. É preciso antes provar que o produto funciona
CH: Existe alguma aplicação que hoje parece futurista, mas que poderá se tornar realidade na próxima década? Como imagina essa plataforma daqui a alguns anos, e que legado ela pode deixar?
PN: A maior revolução virá da compreensão cada vez maior do comportamento do RNA como uma molécula reguladora do organismo e de como podemos utilizar esse conhecimento e a plataforma RNA para agir numa regulação que pode estar defeituosa. Ainda temos muito a desenvolver usando o RNA na área de terapia gênicas, de efeitos genéticos raros, doenças raras e outras questões ligadas a defeitos de regulação do organismo que são mais complexas de entender e de intervir. Acho que daí virá a revolução em tratamentos na próxima década. Há muita potencialidade nessa plataforma, mas é preciso insistir no conhecimento. Temos um movimento de regressão e de negação da ciência, com uma desconfiança pública da plataforma RNA que traz prejuízos e não tem fundamento. Atuo há 20 anos em ciência translacional (área que conecta descobertas científicas de laboratório à prática clínica e à sociedade), adoro desenvolver produtos, mas não se desenvolvem produtos sem o conhecimento básico. Precisamos entender o mecanismo da doença para poder intervir nela. Sem vontade e sem investimentos contínuos, não poderemos avançar.
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